quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Baghavad


Gostaria de apresentar a vocês uma de minhas mais novas produções, a HQ Baghavad, com arte do espetacular Nemo. Coloco aqui apenas uma página, mas você pode conferir o restante da história clicando aqui. Essa história faz parte de uma sequência de quatro HQs sobre o tema humanidade. Além disso, todas têm como título uma obra de literatura, nesse caso, um dos livros mais importantes do hinduismo. A primeira HQ da série foi uma adaptação do livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad (que deu origem ao filme Apocalipse Now). Você pode ler Coração das Trevas (com arte de Jean Okada) clicando aqui.

Pesquisar é preciso

De vez em quando aparece por aí um gênio dos quadrinhos. É o cara que escreveu a história perfeita, e que tem a fórmula para salvar o quadrinho nacional. Conheci muitos desses. Geralmente são uns idiotas muito divertidos, e muito diferentes entre si. Mas a maioria tem uma característica em comum: a total ausência de pesquisa.
Estudiosos do processo de criação dizem que o surgimento de uma nova ideia passa por um processo que começa com uma longa pesquisa sobre o assunto. Essa fase é geralmente chamada de preparação. É uma fase de trabalho duro, em que se procura ler e pesquisar tudo que existe sobre aquela situação. Se, por exemplo, vou escrever uma HQ policial, essa fase engloba a leitura de livros sobre investigação criminal, sobre psicologia, perícia, etc. Também inclui o contato com quadrinhos, livros e filmes sobre o assunto. Com quanto mais material você tem contato, maior a chance de produzir algo criativo. Também é maior a chance de descobrir como o gênero funciona, quais são as suas regras, um conhecimento relevante até mesmo se você quiser quebrar essas regras.
A fase seguinte é a incubação e iluminação. Depois de pensar e pesquisar muito sobre o assunto, a ideia surge, geralmente num momento de descontração. É que toda nova ideia surge do incosciente, que trabalha justamente nesses momentos em que não se está pensando no problema. Mas, da mesma forma que o iconsciente pode lhe dar uma ideia sensacional e original, ela pode lhe dar um plágio ou uma ideia jerico. Para evitar isso, é necessário o último passo: a crítica.
A pesquisa é importantíssima em todas as fases. Sem ter material para trabalhar, o incosciente não cria nada. E, depois, na fase da crítica, se a pessoa não pesquisou bem, pode deixar passar um plágio involuntário, uma pegadinha do inconsciente, que puxou da memória algo que você não se lembra que viu.
Uma vez me apareceu um desses gênios dizendo que queria escrever um romance policial. Aconselhei-o a ler os clássicos do gênero: Conan Doyle, Dashiell Hamett, Raymond Chandler, etc. Ele me respondeu que não iria ler nada disso, pois não queria ser influenciado. Pretendia escrever algo totalmente original.
- Tudo bem, vá em frente! - eu disse.
Meses depois, ele me trouxe o roteiro, um calhamaço de quase 100 páginas. Era a história de um detetive particular pobretão que começava a investigar um caso quando uma mulher linda aparecia em seu escritório. Lá pelas tantas, alguém batiaem sua porta, e, quando ele abria, a pessoa caia em seus braços, esfaqueada.

Ou seja: o roteiro era o chavão dos chavões. Quase um plágio de algumas histórias noir, como as de Raymond Chandler e Dashiel Hammett. O garoto tinha assistido tantas imitações das histórias noir clássicas que seu incosciente se impregnou delas e, como não tinha bagagem cultural para tanto, não conseguiu identificar o plágio involuntário. Para ele, a história era perfeitamente original.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Bonnie e Clyde

Bonnie e Clyde, filme de 1967, produzido e idealizado por Warren Beatty e dirigido por Arthur Penn, abriu caminho para a Nova Hollywood, a geração de cineastas que revolucionou o cinema norte-americano com obras como Sem Destino e O poderoso Chefão. O tema básico dessa geração já estava lá: o conflito de gerações, que aparece com maior destaque no final. Para quem não sabe, os dois eram assaltantes de bancos que ficaram famosos na década de 1930. Nessa época de depressão, muitas pessoas estavam perdendo suas propriedades para os bancos (fato muito bem mostrado no filme Vinha da Ira) e a população logo se identificou com a dupla, muitas vezes protegendo-os. Para a geração do final dos anos 60, a identificação foi imediata: eles eram como o casal, em busca de aventura e novidades, e a polícia representava a geração anterior, conservadora.
Dizem que Warren Beatty se jogou aos pés do presidente da Warner (que já estava praticamente falindo na época) para fazer esse filme. Ao invés de receber um cachê normal de astro, ficou com 40% da bilheteria, o que o tornou milionário quando o filme (indo contra todas as expectativas do estúdio) se tornou um sucesso de bilheteria. 
Um dos aspectos curiosos do filme foram as adaptações feitas no roteiro. Na história original, Clyde era bissexual, e só conseguia se excitar com a presença do terceiro membro da gangue, C.W. Moss. Os executivos proibiram essa parte do roteiro e a solução foi sugerir que o personagem tinha problemas de ereção, o que, de certa forma aumentou a tensão entre o casal, deu um ar de humanidade ao personagem e colocou a relação entre Bonnie e Clyde num patamar mais complexo, já que ficamos o tempo todo os nos perguntando o que os mantém juntos (talvez o gosto pela aventura). 
Uma figura central no sucesso do filme foi o roteirista Robert Towne. Towne era extremamente inseguro quando estava escrevendo um roteiro próprio, mas era o melhor para consertar roteiros de outros. Uma das maiores contribuições dele foi atencipar uma cena que acontecia após a visita de Bonnie à mãe. A gangue rouba um carro e, no final, acaba dando carona aos donos do carro. O grupo está se divertindo quando Clyde pergunta ao homem qual a sua profissão. Agente funerário, diz ele. Bonnie ordena: "Tirem esse cara daqui". A cena, antecipada, marca o final do segundo ato e o início do terceiro ato. Dali em diante sabemos que o fim do casal está próximo e que eles serão mortos. 
Uma curiosidade sobre o filme é que o seu sucesso entre a nova geração foi tão grande que a boina usada por Bonnie se tornou moda entre as garotas do final dos anos 60.

sábado, 27 de novembro de 2010

E-book sobre O Gabinete do Dr. Caligari

Clique aqui para baixar o livro virtual Caligari: do cinema aos quadrinhos. O e-book analisa o filme expressionista O Gabinete do Dr. Caligari e o processo de adaptação para os quadrinhos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Novo livro sobre roteiro de histórias em quadrinhos

Para comprar, clique aqui.

Curso de jornalismo da UNIFAP terá disciplina História em quadrinhos

O curso de jornalismo da Universidade Federal do Amapá – Unifap – terá uma disciplina pouco comum nos cursos de graduação: história em quadrinhos. A disciplina é optativa e será oferecida a partir do quinto semestre.
Entre outros assuntos, serão discutidos a linguagem das HQs, o mercado de quadrinhos e a relação com o jornalismo em obras como Maus, de Art Spielgman e Palestina, de Joe Sacco.
O coordenador do curso, Aldenor Benjamim lembra outro aspecto importante a ser discutido, a questão ideológica: “Os quadrinhos dentro do processo de comunicação de massa têm-se articulado como um serviço de divulgação da ideologia para manter o status quo da indústria cultural e dos bens simbólicos, sobretudo. Extrapolando sua função primeira e sendo aplicado nos campos políticos, propaganda comercial, na comunicação popular revela-se, todavia, rico na sua relação com os seus interlocutores”.
A ideia da inclusão da disciplina surgiu do professor Ivan Carlo, conhecido nos meios quadrinísticos como Gian Danton. “Há muito tempo os quadrinhos já estão nos cursos de comunicação, principalmente através de trabalhos de conclusão de curso que relacionam essa linguagem com o jornalismo, mas são poucas as instituições que colocam esse assunto na matriz. A inclusão da disciplina História em quadrinhos permite ampliar inclusive a discussão sobre o campo da comunicação”, diz.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A verossimilhança e a caracterização visual


Eu já expliquei aqui que história em quadrinhos de ficção não é documentário. Ou seja: uma HQ não precisa ser realista, ela apenas precisa convencer o leitor de sua realidade. Isso passa muito pela caracterização visual dos personagens. Por exemplo, os cientistas não costumam ser carecas, os malvados não costumam ser feios. Mas um bom desenhista recorre a essa generalização para que o leitor identifique, logo de cara, a função ou a personalidade dos personagens.



Basta olhar para Ming e Flash Gordon e perceber quem é o vilão e quem é o herói.
Marcos Rey, um dos grandes roteiristas brasileiros de cinema e TV lembra a figura de Sherlock Holmes, cuja caracterização, com cachimbo, lente de aumento e sobretudo xadrez, o identifica imediatamente.


Claro que hoje as HQs hoje não trabalham tanto com clichês, mas mesmo assim, desenhistas e roteiristas utilizam objetos, roupas e até expressões ou gestos para caracterizar os personagens, já que os quadrinhos são uma mídia visual.
Nos primeiros capítulos da webcomics Exploradores do Desconhecido tínhamos um personagem que aparecia em poucos quadrinhos. Ele era um político avesso à tecnologia, que é contrário à Operação Salto Quântico e que acaba sendo convencido pelo Capitão a apoiar o projeto. No meu roteiro, coloquei que ele era alguém antiquado, temeroso de avanços tecnológicos. Na hora de ilustrar a sequência, o desenhsita Jean Okada decidiu colocá-lo de óculos. Toda a caracterização psicológica do personagem ficou explícita sem que precisassemos usar uma palavra. Bastava bater o olho e o leitor percebia que aquele político era contrário às inovações (até porque seu óculos era do tipo antigo).

Quando divulgava a série no Orkut, ainda no ano de 2008, encontrei um suposto crítico de quadrinhos que implicou com o político de óculos e com o fato dos Exploradores não usarem toquinha. De fato, nas missões na NASA os astronautas usam uma toquinha e, por conta disso, esse suposto crítico achava que também os Exploradores deveriam usar toquinha.

- Mas em Jornada nas Estrelas eles não usam toquinha. - argumentei.
- Jornada nas estrelas é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas em Guerra nas Estrelas eles não usam toquinha. - retruquei.
- Jornada nas estrelas é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas no filme Contato, baseado na obra do cientista Carl Sagan, eles não usam toquinha. - expliquei.
- Contato é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas em Esquadrão Atari eles não usam toquinha. - lembrei.
- Esquadrão Atari é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!

Como o palavrão é o argumento dos que estão errados, ele saiu batendo o pezinho e prometendo que ia mostrar como se fazia:
- Vou escrever um livro em que os astronautas usam touquinha e que os políticos não usam óculos. Vai ser um sucesso porque todo mundo quer ler histórias com astronautas de toquinha!

Pois é... dizem até que ele escreveu tal livro com o astronauta de toquinha... quanto ao sucesso...
A grande lição é: história em quadrinho não é documentário. Embora os astronautas da NASA usem toquinhas durante as missões, a maioria das pessoas pensa neles sem a tal toquinha pela simples razão de que, normalmente, quando aparecem em público, estão sem toquinha.
Assim, para o leitor normal, um astronauta de toquinha é menos verossímil que um astronauta sem toquinha. E nos quadrinhos a verossilhança é mais importante do que o realismo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Caligari: do cinema aos quadrinhos


Caligari: do cinema aos quadrinhosGian Danton
Série Veredas, 19
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2010. 44p. Ebook em pdf.
978-85-7999-016-8
Arquivo grátis (solicite cópia ao editor).

Em 1920, na Alemanha, um filme alcançou o prestígio de ser um dos mais importantes da história mundial e, sem dúvida, o mais influente do cinema alemão. Trata-se de O Gabinete do Dr. Caligari , dirigido por Robert Wiene e escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. Sua influência foi tão grande que cunhou-se o neologismo caligarismopara se referir ao cinema expressionista alemão.
Alguns dos méritos desse filme foram a utilização de cenários pintados representando um clima sufocante de um estranho ambiente urbano e a história repleta de flash backs , com final surpreendente. Estes elementos inovadores para a época mostraram que o cinema poderia ir muito além de uma simples diversão popular, abrindo caminho para sua ascensão à sétima arte.
Em Caligari: do cinema aos quadrinhos , o roteirista Gian Danton (Ivan Carlo Andrade de Oliveira) analisa o filme desde a elaboração do roteiro à sua influência para o cinema mundial e em especial para o cinema alemão. Aborda também questões polêmicas, como a moldura introduzida no roteiro por Fritz Lang, e os cenários pintados com a técnica expressionista, que permitiu à película mostrar uma realidade mental, absolutamente revolucionária para a época.
Em complemento ao estudo, Gian Danton apresenta a adaptação do filme para os quadrinhos, trabalho realizado em parceria com o desenhista curitibano José Aguiar. O processo criativo da adaptação também é analisado, o que transforma o livro numa peça didática, mas com a leveza de quem é um reconhecido e premiado roteirista de quadrinhos.
Caligari, do cinema os quadrinhos , é uma obra essencial tanto para os fãs de cinema quanto os de quadrinhos. 

Para pedir uma cópia, escreva para: editora@marcadefantasia.com 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Death Ship

Abaixo um dos melhores episódios de Além da Imaginação que já assisti. Escrito por Richard Matheson (de Eu sou a lenda), a história alterna entre a ficção científica e a fantasia com um resultado perturbador. É impressionante como, usando apenas os diálogos, o roteirista consegue criar um estado de tensão permanente. Uma aula de roteiro.











quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Making of do Astronauta

Há algum tempo o amigo JJ Marreiro me mandou algumas imagens para que usasse em uma postagem sobre os bastidores da criação de nossa história do Astronauta para o álbum MSP+50. Na correria da Bienal, acabei não fazendo o post, mas corrijo esse lapso agora.
Ao começarmos a discutir nossa história, concluimos que o ideal seria algo que remetesse aos clássicos da FC, tanto nos quadrinhos quanto na literatura pop, quanto nos seriados. Assim, nosso Astronauta deveria ser uma mistura de Perry  Rhodan, Jornada nas Estrelas e Flash Gordon. Abaixo, alguns dos estudos do JJ para o visual da hístória:



O JJ começou pelas armas. Embora o visual estivesse legal, eu pedi que ele não usasse uma arma, pois ela não se encaixaria no personagem criado pelo Maurício.
O visual da nave passou por várias versões, mas acabou sendo definido como uma homenagem às naves da série alemã Perry Rhodan, do qual sou fã.

Foram feitas três versões do roteiro (chamadas de tratamento). Numa das primeiras versões, o herói chegava a um planeta que mostrava uma versão alienígena dos principais personagens da Turma da Mônica. As tiras abaixo são dessa primeira versão.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pós-graduação em quadrinhos, cinema e publicidade irá usar e-book sobre roteiro

O Centro Educacional Opet, de Curitiba, está oferecendo um curso de pós-graduação Lato Sensu em Quadrinhos, illustração, cinema e publicidade. Um dos módulos, ministrado pelo mestre Lielson Zeni, será sobre roteiro e será usado como bibliografia básica, meu e-book Como escrever uma história em quadrinhos, disponibilizado no site da Virtual Books. Para saber mais informações sobre essa pós, clique aqui.

sábado, 7 de agosto de 2010

Roteiro Crepúsculo

Neste post, além de colocar mais um exemplo de roteiro, gostaria de falar como um desenhista criativo pode valorizar um roteiro. Exemplo disso é o trabalho do Emanuel Thomaz na história que estou escrevendo para o personagem Crepúsculo, criado pelo amigo Alan Yango. A página que apresento aqui faz parte da segunda história da série e mostra o primeiro flash back do herói. Percebam que eu peço que o desenhist use algum reccurso gráfico para demonstrar que se trata de um flash back. O Emanuel, além de usar um traço em aguada, transformou os quadros em peças de quebra-cabeça, numa metáfora do processo de recordação (as lembranças seriam as peças do quebra-cabeça). O resultado valoriza muito a narrativa e não é apenas um enfeite. Para quem ficou curioso e quiser ler o restante da história, basta acessar o blog do Yango.



Página 4  - esta é uma página de flash back, portanto, eu sugiro que use algum recurso para demonstrar isso. Talvez um traço mais limpo, ou uma aguada.
Q1 – Um casal na cama. São Sandra e Augusto. Ela o beija.  É um quarto simples, com livros espalhados pelo chão e CDs do Legião Urbana, banda de que Sandra gosta.
Texto: Sândalo. A pele de Sandra cheirava a sândalo. Era tão suave e inebriante quanto o som de sua voz. Eu poderia passar a noite tocando-a.
Sandra: Vamos, preguiçoso. Levante!
Q2 – Sandra está se levantando da cama e ficando em pé, enquanto Augusto começa levanta apenas o tronco, sentando na cama.
Augusto: Gostaria de poder dormir até mais tarde.
Sandra: É, mas tem um monte de pautas para fazer... e ainda tem aquela história das crianças que estão desaparecendo...
Q3 – Sandra começa a vestir a roupa, enquanto Augusto começa a se levantar.
Augusto: Nem me fale. Isso é coisa grossa. Parece magia negra. E tem gente grande envolvida.
Sandra: De tarde eu te ajudo nessa pauta, agora de manhã, preciso fazer umas fotos publicitárias...
Q4 – Os dois estão se arrumando, vestindo suas roupas.
Augusto: Foto publicitária?
Sandra: Sou freela, meu bem. Tenho que ganhar a vida. Não se vive só de ideais.
Q5 – Sandra terminou de se vestir e se despede do namorado com um beijo.
Sandra: Preciso ir. Estou atrasada. Como alguma coisa no caminho. Te cuida.  

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Desenhistas?

Estava olhando em meus arquivos e achei vários roteiros ainda não desenhados. Alguns forma pedidos por desenhistas, que depois desistiram do projeto, outros por editoras que logo depois fecharam suas portas. Em todo caso, são quase 500 páginas de roteiros pequenos, médios e longos, nos mais variados gêneros, do humor ao terror. Agora resolvi disponibilizar esses roteiros para outros desenhistas. Quem estiver interessado, é só deixar um comentário.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre o final de Lost

Anteção: o texto abaixo contém Spoillers sobre a série Lost. Se você não assistiu à última temporada e não gosta de saber o que vai acontecer no seriado, não leia esse texto.


Finalmente assisti a última temporada de Lost. Há toda uma discussão a respeito do final trazer uma explicação religiosa e não científica que acho irrelevante. Ficção não é realidade, basta a verossimilhança. Então, tanto explicações religiosas quanto míticas são válidas.
Do ponto de vista das explicações míticas, há uma abordagem possível, que não foi explorada pela série: a de que tudo que aconteceu era um jogo entre dois irmãos. Há um precedente interessante: na mitologia hindu, a realidade muitas vezes é vista como um espetáculo para divertir Krishna.
O meu final de Lost seria exatamente assim: tudo é um jogo entre duas forças que usam os humanos como peças de um tabuleiro, algo como a história de Jó. Infelizmente essa premissa foi abandonada na última temporada na medida em que a trama se desenvolveu no sentido da busca de um substituto para Jacob.

O final que de fato foi ao ar peca por deixar inúmeras pontas soltas. Vejam bem, não é necessário explicar tudo. Muitas vezes um final em aberto pode ser ótimo. O final do livro Cemitério, de Stephen King, é aberto e é muito bom. Mas não se pode encerrar uma trama sem resolver possíveis incoerências.
Por exemplo, no final da quinta temporada, os sobreviventes tentam mudar o passado explodindo uma bomba nuclear. A personagem Juliet deixa uma mensagem mediúnica dizendo que "Funcionou", o que nos leva a crer que a realidade alternativa que vemos na história foi criada pela explosão da bomba. Depois descobrimos que aquilo não é uma realidade alternativa, mas um mundo espiritual. Esse aspecto não é esclarecido e fica apenas como uma pista falsa, um recurso narrativo para enganar o expectador, e apenas isso.
Outro problema: quando Desmond começa a despertar os outros, a esposa de Wildmore insiste para que ele pare com isso. Se o local onde eles estão é uma espécie de passo intermediário antes de chegar à luz, porque esse pedido. A mulher seria um representante do mal? Na verdade, ela é apenas uma figura narrativa a serviço do alongamento da história.

Aliás, há muitas figuras com função puramente narrativa. Wildmore é um exemplo. No final, ele parece apenas um boneco do destino e morre de forma patética. Se fosse adotada a proposta narrativa de uma realidade-jogo, isso faria sentido. Ele seria apenas um peão nas mãos de forças muito poderosas. Como se deu o final, ele é apenas um peão na mão das poderosas forças dos roteiristas.
Por exigência do roteiro e de suas reviravoltas, outros personagens agem como peões, mudando de lado, de personalidade e até de motivação. Sayid é o melhor exemplo. Na última temporada ele abandona o temperamento passional que sempre teve e se torna simplesmente um zumbi. Depois torna-se quase um mocinho. Benjamim Linus igualmente muda muito, embora no caso dele se mantenha a motivação de salvar a ilha e ser dono dela.
No final, o ponto mais fraco da última temporada é a realidade paralela, que não se sustenta, já que não funciona como purgatório, como muitos têm especulado. Segundo a religião católica, o purgatório é um local onde as pessoas pagam por seus pecados antes de ir para o céu. No seriado, para alguns ela é um local de felicidade, para outros um local para cometer novos crimes, para outros um local para se redimir.
A realidade alternativa é, assim, apenas um artifício narrativo que permitiu aos roteiristas unir todos os personagens num final emotivo. É apenas uma muleta narrativa.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ciência e quadrinhos na IV Semana Universitária da UEAP

Hoje, às 10 horas, estarei no CAFÉ COM CIÊNCIAS, evento da IV Semana Universitária da UEAP, falando sobre ciência e quadrinhos. O local será o hall de entrada do Campus I.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Escrevendo sátiras para a MAD

Quando fui convidado pelo Raphael Fernandes para a escrever uma sátira do BBB 9, o que seria minha estreia na MAD, confesso que tremi na base. A MAD tem um tipo muito característíco de humor. Anarquico, claro, mas que também obedece algumas regrinhas simples, que ajudam a cosia a ficar mais engraçada. Na época, fui para minha coleção e reli dezenas de sátiras tentando compreender o estilo. De lá para cá, já escrevi vários textos para a publicação. Não posso dizer que já sou um roteirista especialista em MAD, mas acho que posso compartilhar algumas das coisas que aprendi escrevendo e, principalmente lendo a MAD:  

1) Geralmente as sátiras iniciam com um painel grande, de apresentação. Pode ser apenas um quadro grande, uma página inteira, ou uma página dupla, como foi a minha sátira do BBB. A função dessa página é mostrar quem são os personagens e contar rapidamente a história que está sendo satirizada, o que abre caminho para que mesmo quem não conheça a obra original possa dar algumas gargalhadas.  Nesse painel é muito aconselhado fazer piadas visuais de fundo, como os BBBs dentro de uma bolha com uma placa: não dê comida aos animais.


2) Cada quadro deve conter uma piada. Como geralmente as sátiras ocupam poucas páginas, a maioria dos roteiristas não desperdiça quadro: todos precisam ter algo engraçado.


3) Diálogo bate-volta. Uma técnica muito usada pelos roteiristas é colocar um diálogo em três ou quatro momentos. Normalmente há uma piada no meio, mas o mais engraçado fica para o final. Eu usei esse recurso na minha sátira do filme Crepúsculo (que foi renomeada Prepúcio): 



Q2 – Mella está apresentando Fedward ao seu pai. Chále Swando está com um rifle nas mãos, granadas pelo corpo. Em suma, ele está preparado para ir à guerra.
Mella: Pai, vou sair hoje com Fédward.
Chále: Ótimo. Mas afaste-se dele quando eu começar a atirar...
Mella: Pai, o senhor disse que ia ser simpático!
Chále: E estou sendo... uso o rifle ou a bazuca? 

4) Duplo sentido. Esses diálogos bate-volta geralmente brincam muito com o duplo sentido. O verdadeiro sentido a primeira fala do personagem só é revelada na tréplica dele. Mais uma vez, uma sequência da sátira do Crepúsculo: 

Fédward e Mella estão na cena do quarto, do quase sexo. Penso que ele está se aproximando dela e ela está lá, esperando um beijo. Ele usa uma camisa com os dizeres EU RESISTO e ela com a camisa EU DESISTO.
Fédward: Tenho muita vontade de fazer uma coisa com você... mas preciso resistir!
Mella: Você está pensando em... sexo?
Fédward: Quem falou em sexo? Eu estava pensando em fazer compras no shoping! 




5) Non-sense. A graça do diálogo muitas vezes está em não fazer sentido, como na sátira de O Iluminado, escrita por Larry Siegel e desenhada por Angelo Torres (publicado no Brasil na MAD especial 3, Panini). Jeca Porrance está dirigindo na direção ao hotel quando o filho começa a falar com o dedo: 

Jeca: Doenty, tô um pouco preocupado com esse garoto! Ele sempre teve essas conversas idiotas com o dedo indicador? 
Doenty: Nem sempre! Só desde ontem, quando ele brigou com o mindinho! 
Jeca: Ufa! Jà tava ficando preocupado! 


Força tarefa e a estrutura Rashomon


O episódio de ontem (Jogo de roleta) do seriado policial Força Tarefa usou uma curiosa estrutura de roteiro, pouco vista na televisão brasileira. Inaugurada pelo filme Rashomon, de Akira Kurossawa, essa estrutura narrativa consiste em mostrar a mesma história de diversos pontos de vista. Essa estrutura já foi usada, por exemplo, em uma revista do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore.
Em Jogo de roleta, os agentes da Corregedoria vão investigar uma suposta morte de um policial ocorrida em um jogo de roleta russa. Conforme os depoimentos são dados, a história da roleta cai por terra e os outros policiais passam a ser os suspeitos. Tentar descobrir quem é o assassino no meio da complicada rede de mentiras torna-se um desafio interessante.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Roteiro de Alice (publicado na MAD 25)


Texto de abertura: Se você achava que Tim Burton tinha esculhambado com Alice no país das Maravilhas é porque ainda não viu o nosso...

ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS
Roteiro de Gian Danton
Arte de Roger Cruz
Página 1
Atenção: Essa história é no estilo do Príncipe Valente, ou das histórias infantis clássicas, com desenhos em cima e texto embaixo. Minha sugestão é fazer no estilo antigo dos desenhos de Alice, mas com os personagens modernizados de acordo com a versão Tim Burton.
Q1 – Alice sendo tragada por um bueiro, no meio de uma enxurrada.
Alice: O prefeito disse que nunca mais ia ter enchente!
Texto: Alice era uma menina com muita imaginação. Um dia ela foi tragada por um bueiro e foi para outro mundo.
Q2 – Vemos um coelho pasando com Alice. O coelho tem a cara do Arruda e leva na cesta panetones.
Texto: Quando deu por si, estava em um local muito diferente de tudo que  Alice conhecia.  Ela viu um coelho muito estranho a correr.
Q3 – Alice conversando com o coelho.
- Espere, senhor coelho! Por que está distribuindo panetones? Não deveriam ser ovos de páscoa? – perguntou Alice.
- Não são panetones, são só uma desculpa para o dinheiro das propinas! Quer comer um?
Q4 – Alice come um panetone enquanto o coelho-arruda faz sinal de que quer dinheiro.
Alice comeu o panetone, mas nada aconteceu.
- Pensei que fosse crescer. – disse Alice.
- A minha conta bancária cresceu. – respondeu o Coelho. Agora passe para cá 500 reais.
Q5 – Alice está pegando o dinheiro da carteira.
Alice: Nossa, é um panetone muito caro. – argumentou Alice.
Coelho: Se você comer outro, sua poupança diminui.
Q6 – O coelho pegou a carteira e está fugindo, com Alice atrás dele.
Antes que Alice pudesse pagar, o coelho saiu correndo.
- Volte aqui, esse é o meu dinheiro. – gritou Alice, mas parece que o coelho não ouvia muito bem, pois continuou correndo.
- Não posso ficar, a polícia federal está vindo aí! 

terça-feira, 2 de março de 2010

Suspensão de descrença

Em uma história em quadrinhos, tudo é possível. Tudo mesmo. O Super-homem pode voar, ter visão de raio-x, o Hulk pode sacudir o asfalto, como se fosse um tapete, o Homem-aranha pode escalar paredes... isso para ficarmos apenas nas histórias de super-heróis. Se formos ampliar para gêneros como a ficção-científica, teremos viagens espaciais em poucos segundos, alienígenas que falam inglês... os exemplos são muitos.
A verdade é que o leitor pode acreditar em qualquer coisa que o roteirista escrever, mas para isso é necessário criar um pacto de verossimilhança, é necessário convencê-lo a acreditar e a entrar com sócio dessa história que contamos e que se passa todinha dentro da mente dele.
Há muitas maneiras de estabelecer esse pacto e convencer o leitor sobre a verossimilhança da história, por mais impossível que ela possa parecer.
Os criadores do Super-homem adotaram uma visão rasa da ciência ao argumentar que, se uma formiga podia carregar várias vezes o seu peso, uma pessoa também poderia fazê-lo se viesse de outro planeta. A primeira página, da primeira história do personagem fala justamente disso. Os leitores engoliram a pílula e acreditaram que, sim, aquele homem com cuecas sobre as calças e usando uma capa vermelha podia ter super-força e dar saltos enormes. Daí para acreditarem que ele voava foi um passo. Daí para acreditarem que ele tinha visão de raio-x foi fácil. Depois que o leitor engole a pílula, ele entra na história e aceita todas as regras ditadas pelo roteirista, desde que este não seja incompetente a ponto de entrar em contradição. Se, de uma hora para outra, o Super-homem se tornasse incapaz de voar sem nenhuma explicação plausível, o encanto se quebraria e o leitor deixaria de acreditar.
Existem outras formas de criar esse pacto de verossimilhança.
Uma delas é colocar na trama um personagem que não acredita na parte fantástica da história. Mas é um personagem louco, sem noção ou simplesmente chato. Ao antipatizar com ele ou ver que ele tem uma visão equivocada da realidade, o leitor, por tabela, acredita em tudo aquilo que ele está dizendo que é impossível.
Em um episódio do seriado Além da Imaginação chamado O Marciano, policiais entram em uma lanchonete de beira de estrada procurando o ocupante de uma nave extraterrestre que desceu nas redondezas. Há ganchos que ajudam o receptor a acreditar que o fantástico é real, como o fato de todas as pessoas na lanchonete serem de um ônibus, e, segundo a contagem do motorista há uma pessoa a mais. Mas o que faz realmente as pessoas acreditarem é um chato meio maluco que o tempo todo ridiculariza a busca dos policiais. Ele é tão irritante que não há como não discordar dele. Portanto, logo acreditamos que uma das pessoas ali é, de fato, um marciano. A propósito, que assistir ao episódio (disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=b3Bk_HuMOEM) perceberá os vários ganchos que serão amarrados no final da história. Apesar de surpreendente, o final é perfeitamente perceptível para quem prestar atenção a detalhes como olhares dos personagens, etc.
Uma outra forma de criar essa ilusão de realidade é colocar um protagonista com o qual a pessoa se identifique e é que é descrente, mas que vai acreditando aos poucos. Como o leitor tende a se identificar com o protagonista, se ele começar a acreditar, o leitor também acreditará.

No filme 1408, de Mikael Hafström, baseado em um conto de Stephen King, um escritor vive de visitar locais assombrados e escrever sobre suas experiências. Ele nunca viu um local realmente assombrado, assim ele não acredita quando o gerente do hotel lhe diz que coisas realmente terríveis acontecem no quarto 1408. Assim como ele, nós também não acreditamos. Mas quando pequenas coisas inexplicáveis começam a acontecer, o ceticismo dele passa a ser abalado. Quando ele entra em desespero, ao perceber que está de fato em um quarto assombrado, nós entramos em desespero com ele. Afinal, nesse ponto nós já compramos a história e acreditaremos em tudo que vemos.
Eu usei um recurso desse tipo na graphic Manticore. O detetive, protagonista da primeira parte, é um homem que diz não acreditar em papai Noel ou coelhinhos da páscoa. Portanto, ele não acredita que uma criatura extraterrestre está andando solta por aí. Com o tempo, ele começa a ter provas em contrário e passa realmente a acreditar. E o leitor junto com ele.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Segundo o site Tweeps Info eu sou a segunda principal referência quando o assunto é roteiro para audio-visual no Twitter. A primeira referência é o Fernando Marés, do site Roteiro de Cinema. Para seguir o Fernando, clique aqui. Para me seguir, clique aqui.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DC Comics pretende publicar novas HQs de Watchmen

Por Sérgio Codespoti

Segundo Rich Johnston, do site Bleeding Cool, a DC Comics pretende publicar algumas novas aventuras de Watchmen, o clássico de Alan Moore e Dave Gibbons.
A ideia de lançar uma continuação de Watchmen não é nova.
Entre 1986 e 1987, época em que a revista foi publicada, o próprio Alan Moore sugeriu a possibilidade de uma série de 12 partes escrita por ele e ilustrada por Gibbons, sobre os Minutemen (o grupo de heróis da década de 1940 que é visto em Watchmen).
A DC sugeriu outras possibilidades, como O Diário de Rorschach, uma revista com a parceria entre Rorschach e o Coruja, ou até uma série com o Comediante na Guerra do Vietnã (ideia inspirada, na época, pelo sucesso da revista The 'Nam, da Marvel).
Mas nada disso foi pra frente, e Moore sempre refutou veementemente a possibilidade de algum outro artista ou escritor trabalhar com os personagens. Aliás, todas as tentativas de se publicar uma sequência de Watchmen ou algum outro tipo de série derivada (as chamadas prequels ou spin-offs) sempre foram barradas por Paul Levitz, o presidente da DC Comics.
Levitz, apesar das divergências - algumas delas graves - com Alan Moore, sempre entendeu que Watchmen é um trabalho autoral do roteirista britânico e de Gibbons, e defendeu essa postura até deixar o cargo de presidente da editora.
Segundo Levitz, uma sequência de Watchmen iria contra os desejos de Moore e Gibbons e causaria um grande mal-estar entre artistas, escritores e os fãs. No entanto, esta não é a visão de Dan Didio.
O grande motor por trás disso é o filme Watchmen, que ajudou a gerar uma venda enorme dos encadernados da minissérie, que se tornou a campeã da editora neste nicho.
Leia mais no Univeso HQ.

Dúvida: qual vai ser o roteirista que vai aceitar essa tarefa inglória e correr o risco de se indispor com os fãs da série?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Oficina gratuita de roteiro com Gian Danton, em Macapá

O Projeto Teia Cultural abre, a partir de hoje (26.01), inscrições para três cursos ligados a área do audiovisual: Roteiro, Direção e Iluminação. Todos os cursos terão carga horária de 80h/a comprovadas com a emissão de certificados pela Secretaria de Estado de Cultura aos alunos que atingirem a carga horária mínima exigida pela coordenação pedagógica dos cursos.
O curso de roteiro será ministrado por Gian Danton, roteirista da MAD, da graphic novel Manticore, da HQ Família Titã, entre outros trabalhos. As aulas começam dia 8 de fevereiro e vão até final de abril, no horário de 9 às 12 horas.
Os interessados podem se inscrever gratuitamente na recepção do Teatro das Bacabeiras de 8 às 12 e de 14 às 18 horas no período de 26 de janeiro a 5 de fevereiro.

O verdadeiro final da Caverna do Dragão

Todo mundo já ouviu falar do final da Caverna do Dragão segundo o qual os protagonistas morreram e estão no inferno. Ela foi criada por um fã e se tornou tão famosa que o verdadeiro roteirista resolveu disponibilzar o roteiro real, que pode ser lido no blog Roteiro de Cinema News, do Fernando Marés. Para ler, clique aqui.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Cavaleiro das trevas 2 : A obra prima que (quase) ninguém quis entender.

Jefferson Nunes

E um fato comprovado: A grande maioria dos fãs de quadrinhos são fundamentalistas.
A afirmação acima pode parecer chocante mas reflete a realidade. Quando um dos maiores iconoclastas dos quadrinhos Frank Miller decidiu tirar sarro da industria que o fez famoso e rico ,os fanboys (apelido dado aos fãs radicais de quadrinhos) não gostaram nem um pouco e não quiseram entender todo o sarcasmo contido nas paginas de Cavaleiro das Trevas 2.
Durante 15 anos, desde o lançamento de o cavaleiro das trevas, que a DC Comics e os milhões de fãs imploravam para que Miller fizesse uma continuação de sua obra prima. Finalmente em 2001 ele resolveu lançar a tão aguardada parte dois do Cavaleiro.
A estória se passa Três anos depois da morte aparente do Batman, em Cavaleiro das Trevas, os Estados Unidos são governados pelo presidente Rickard, que não passa de um fantoche digital do vilão Lex Luthor. E a America, antes a terra da liberdade, agora é um estado fascista.
Os antigos super-heróis estão fora da ativa e acompanham o desenrolar dos fatos de forma distante. Mas... até quando? A trupe liderada pela Catgirl e os batboys resgatam dos seus diferentes cativeiros duas lendas do passado: Átomo e Flash.
Esse ressurgimento de aventureiros mascarados desperta velhas rixas, obrigando o Super-Homem a se reunir com seus companheiros, Capitão Marvel e Mulher-Maravilha, o que resultará numa intervenção direta nos planos do único responsável possível: Batman.
O Super-Homem está sendo chantageado por Lex Luthor e Brainiac, que mantêm a cidade engarrafada de Kandor (o último resquício de Krypton) sob seu domínio, obrigando o maior herói de todos os tempos a obedecer às suas ordens.
Mas para chegar ao Homem-Morcego, o enfurecido Homem de Aço terá que passar antes por velhos aliados a Liga da Justiça: Flash, Átomo e Arqueiro Verde.

Miller aproveitou sua estória para atacar de forma direta a indústria das HQs brincando com todos os clichês possíveis dos comics americanos , diferente do clima pesado do original vemos super heróis coloridos pulando de um lado para o outro numa clara afronta ao estilo sombrio de comics que o mesmo Miller ajudou a criar. A influencia dos mangás, que sempre permeou sua obra, fica totalmente explicito no designer dos personagens, antecipando a invasão dos quadrinhos japoneses que chegaria ao ocidente nos próximos anos.
Miller exagera todos os maneirismos de heróis e vilões de forma proposital para mostrar quão ridícula tinha se tornado a industria de quadrinhos de super heróis. O que a maioria dos fãs não quis entender é que Frank Miller criou a estória para ser lida como se fosse uma versão da revista Mad , com seu nonsense frenético, dos ícones da DC comics e o cavaleiro das trevas 2 entrou pro seleto time de obras primas que só serão realmente entendidas com o passar dos anos e tem sua importância reavaliada por uma geração futura.
A maioria dos fanboys simplesmente não quis entender pois para eles quadrinhos não são uma forma de entretenimento mas uma religião e como toda boa religião tem seus Dogmas intocáveis.
Azar deles.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Entrevista com Júlio Emílio Braz


Júlio Emílio Braz é um dos mais famosos roteiristas de quadrinhos de Brasil. Também é autor de livros juvenis de grande sucesso, tendo ganhado inclusive o prêmio Jabuti. Ele cedeu um espaço em sua agenda para falar um pouco sobre sua experiência como roteirista.

1) Como começou a se interessar por quadrinhos?

Praticamente desde que eu aprendi a ler, pois os quadrinhos foram a minha cartilha. Eu aprendi a ler lendo quadrinhos.

2) Quais eram os autores de quadrinhos que você mais gostava?
Inicialmente, Goscinny e posteriormente, os roteiristas da revista Kripta. Atualmente, eu aprecio os roteiros de Otomo e os de Berardi e Milazzo.

3) Como começou a trabalhar com quadrinhos?
Eu fiquei desempregado e um amigo me indicou à Editora Vecchi que estava procurando roteiristas para suas revistas de quadrinhos de terrror. Lá, o editor Ota Barros me deu a minha primeira oportunidade.

4) Passou por quais editoras?
Vecchi, Grafipar, D'Arte, Riográfica, entre outras.

5) Como era a relação com os desenhistas?
No início, eu nem os conhecia pessoalmente. Somente quando comecei a trabalhar para as editoras paulistas é que tive um contato maior e pessoal com alguns deles. No entanto, muitos até hoje eu não os conheço como Zenival Ferraz.

6) Como era a relação com os editores?
Tranquila, apesar de alguns não terem o salutar hábito de pagar com regularidade.Mas, muitos eram pessoas excelentes, tais como: Rodolfo Zalla, Franco de Rosa e Ota Barros.

7) Na sua opinião, os roteiristas eram valorizados?
Sempre foram, até por que eram poucos.

8) Qual o seu melhor trabalho em quadrinhos? Por quê?
A série Tambatajá, feita em parceria com Mozart Couto e publicada na Bélgica. A razão principal era que os textos exigiam um roteiro mais elaborado e bem pesquisado.

9) Continua lendo quadrinhos? Pode citar obras e autores que ainda curte?
Com certeza, principalmente os trabalhos de Neil Gaiman.

10) Existe um discurso de que o Brasil não tem bons roteiristas. Você provou o contrário, indo para a literatura infantil e se tornando um sucesso de público e de crítica. Por que parece que o Brasil não tem bons roteiristas?
Porque no Brasil infelizmente existe ainda uma crença de que uma boa história é feita basicamente de um bom desenho. Portanto, muitos desenhistas acreditam que conseguem ilustrar e escrever bons roteiros. Alguns até conseguem, mas a maioria não. Outro ponto é que o roteirista é remunerado de maneira bem inferior ao que recebe o desenhista, o que afugenta aqueles que poderiam se interessar em fazer roteiros de quadrinhos. Com toda sinceridade, hoje eu ganho muito mais como autor infanto-juvenil do que ganhava como roteirista.

11) Quais são as qualidades necessárias para um bom roteirista?
Um bom roteirista tem que ser um grande leitor e não necessariamente só de quadrinhos, tem que sempre que possível, dialogar com o desenhista e acima de tudo saber o que pode e o que não pode exigir deste ou daquele desenhista com o seu roteiro. Exemplo: alguns desenhistas não gostam de roteiros que demandem grande pesquisa iconográfica ou histórica.

Conheça o site do Júlio Emílio Braz.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Gerry Conway

Gerry Conway, nascido em 1952, começou a escrever quadrinhos ainda na juventude com histórias para revistas de histórias curtas da DC Comics, como a House of Secrets, mas seu grande sonho era trabalhar com um título de super-heróis. Graças a um amigo, ele conheceu Roy Thomas, editor da Marvel, lhe entregou um argumento e pediu que ele desenvolvesse. Roy gostou do resultado e, com 19 anos, Conway foi efetivado no cargo de roteirista oficial do Homem-aranha.
Apesar de inseguro no início (as primeiras histórias eram co-escritas com o desenhista do título, John Romita Senior), Conway logo se destacou e acabou escrevendo algumas das mais importantes histórias do aracnídeo na década de 1970, entre elas a controversa morte de Gwen Stacy. Conway foi também, junto com o desenhista Ross Andru, responsável pela criação do Justiceiro, que surgiria como personagem secundário na série do Aranha, mas se tornaria um dos mais populares heróis da Marvel na década de 1980.
Em meados da década de 1970, ele foi contratado pela DC, onde faria o primeiro crossover entre as duas maiores editoras do mercado norte-americano: o encontro de Superman e homem-aranha.
Entre os seus trabalhos mais cultuados pelos fãs está o Esquadrão Atari, publicado em meados da década de 1980, com desenhos de José Luis Garcia Lopes. A dupla voltou a se reunir na minissérie Cinder e Ash, com grande sucesso.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A volta da Creepy


A editora Devir vai relançar o material produzido para a revista Creepy, da editora Warren, que, nas décadas de 1960 e 1970, revolucionou o terror com ótimos roteiros e alguns dos melhores desenhistas da época. No Brasil, essas histórias foram publicadas na revista Kripta (ed. RGE) e deliciaram toda uma geração, inclusive eu. Leia mais sobre o assunto aqui.

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