quarta-feira, 15 de julho de 2009

Em defesa dos roteiristas de quadrinhos

Na época do lançamento da graphic novel Mulher diaba no rastro de Lampião, um jornalista especializado da Folha de São Paulo entrevistou o desenhista Flávio Colin e perguntou se ele havia pesquisado literatura de cordel para escrever a história. O entrevistador ignorou completamente que a história havia sido escrita pelo roteirista Ataíde Brás, que pesquisou profundamente o cordel e fez nesse trabalho o que seria sua obra-prima.
O caso mostra bem a forma como os roteiristas têm sido vistos no Brasil por jornalistas, editores e fãs. Em Macapá existe um rapaz que dá aula de quadrinhos nas quais ensina que, para escrever uma HQ, não é necessário ter qualquer tipo de preparo intelectual... basta saber desenhar. Suas opiniões não são uma anomalia, mas, ao contrário, expressam uma opinião dominante.
Quando a Tiazinha começou a fazer sucesso e surgiu a proposta de fazer um programa de TV exclusivo para ela, alguém teve a idéia de colocar no programa elementos dos gibis. Para que isso acontecesse, chamaram para fazer o roteiro... um desenhista de quadrinhos. O resultado vergonhoso todos nós vimos: uma história sem pé nem cabeça que fez os fãs terem saudades da época em que a Tiazinha apenas desfilava com lingiere e depilava a perna de marmanjos.
A importância dos roteiristas, em outros países, é mais do que provada. Alguns roteiristas, como Goscinny, Stan Lee e Alan Moore tornaram-se estrelas, de modo que seus nomes na capa conseguem, por si só, garantir as vendas de uma revista. Neil Gaiman mostrou, em Sandman, que uma revista podia vender muito bem mesmo sem ter desenhistas talentosos. Os primeiros ilustradores de Sandman eram, no máximo, competentes, mas mesmo assim a revista chegou a vender tanto quanto a do Superman.
O lançamento de obras desses roteiristas costumam ser acompanhadas, no Brasil, de grande divulgação. É comum dar mais destaque ao roteirista que ao desenhista. Mas esses mesmos editores e jornalistas têm uma visão diferente quando se trata do roteirista nacional. Um editor me confidenciou, certa vez, que, se pudesse, publicaria apenas histórias sem texto, apenas com desenhos, pois o roteiro, para ele, era irrelevante. Isso acaba se refletindo até mesmo nos créditos. Quando a graphic gótica A hora do crepúsculo foi lançada, o texto da capa dizia: Texto e desenhos de Bené Nascimento. No miolo, todas as histórias tinham roteiro meu.
Quando a história "Siren" foi lançada na coletânea Brazilian Heavy Metal, os editores simplesmente esqueceram de me creditar como roteirista.
Recentemente foi lançado um álbum com histórias minhas. O material promocional citava apenas o nome do desenhista e nenhum dos jornalistas que resenhou a obra percebeu que várias das histórias publicadas não tinham sido escritas por ele.
À falta de reconhecimento alia-se os problemas com desenhistas. Todo roteirista tem uma quantidade enorme de roteiros escritos e nunca aproveitados porque os desenhistas simplesmente abandonaram o barco. A situação é pior quando os personagens foram criados pelo desenhista, o que torna impossível apresentá-los a outro artista.
Tenho mais de mil páginas escritas e que nunca serão aproveitadas. O tempo gasto na produção desses roteiros dava para fazer uns três romances. O sistema das editoras brasileiras, de aceitar apenas projetos prontos, privilegia os desenhistas-escritores e torna quase impossível para o roteirista apresentar projetos.
Em países nos quais a editora compra o roteiro e contrata um desenhista para ilustrá-lo, isso permitiu o surgimento de ótimos roteiristas.Em todos os países do mundo em que os quadrinhos apresentaram um grande desenvolvimento, há a figura central de roteiristas. Na Argentina, os quadrinhos se estruturaram a partir do roterista Héctor Germán Oesterheld, ganhando não só reconhecimento popular, como os aplausos da crítica. Na França, Goscinny (Asterix) e Charlier (Blueberry) elevaram os quadrinhos ao mesmo nível da literatura. Nos EUA, Stan Lee criou o fenômeno Marvel, com personagens como Homem-Aranha e X-Men, que hoje rendem fortunas para Hollywood. Lá, a reclamação é exatamente oposta: os desenhistas, como Jack Kirby e Steve Ditko, reclamam que seus nomes não tiveram tanto destaque quanto o de Stan Lee. Na Itália, os Bonelli (pai e filho, ambos ótimos roteiristas) transformaram o fumetti em um fenômeno cultural. No Brasil, nenhum roteirista jamais se destacou. Seria por falta de qualidade? O escritor Júlio Emílio Braz, após deixar os quadrinhos, dedicou-se apenas à literatura juvenil, ganhou o prêmio Jabuti e hoje é um dos escritores de paradidáticos mais requisitados do país. Outros foram para a publicidade, para o jornalismo, e se destacaram nessas áreas. Mais cedo ou mais tarde, os roteiristas vão abandonando o gênero e se dedicando a outras áreas. Eles o fazem após constatar uma verdade triste: fazer quadrinhos no Brasil é coisa de quem sabe desenhar. E só. Não há espaço para roteiristas.

13 comentários:

Roberto Denser disse...

Esse teu texto acabou resultando num feedback, Gian, onde citei, linkei, e comentei um pouco, espero que não se importe. Abraço e, mais uma vez, obrigado por sua dedicação aos quadrinhos, tem me ensinado muito.

Alexandre Nagado disse...

Infelizmente, se ouve muito editores e agenciadores dizerem que não há bons roteiristas no Brasil, por isso os projetos não decolam e nem americanos se interessam por escritores brasileiros.

As vezes, é conveniente esse tipo de posição, mas também é de se reconhecer que num mercado tão irregular, seja difícil formar bons autores. Afinal, acredito que é da quantidade que se extrai qualidade.

Abraços!!!

Gian Danton/Ivan Carlo disse...

Oi Nagado,
de fato, é mais fácil dizer que quadrinho nacional não tem bom roteiro do que dar chance a roteiristas. Poxa, nenhum roteirista começou da genialidade. Até o Alan Moore começou, no Capitão Bretanha, com histórias fracas e foi melhorando com o tempo. Marv Wolfman só acertou a mão nos Titãs no n.6. No Brasil não teria chance nem de chegar ao n.2.

Anônimo disse...

Olá,
Sou desenhista de quadrinhos e hoje concordo plenamente com tais palavras: desenho é muito pouco para prender o leitor. Sem um roteiro, a parte pensante, quase matemática da coisa, não há vida, não há conto, nem interesse. E é um desafio fazer um bom roteiro. HOje busco maiores informações sobre o assunto pela clara falta de conteúdo. Gosto muito de ler e desenhar mas roteiro e desenhos são coisas diferentes. Diria que o roterista é mais importante que o diretor, no caso de cinema. Não sei se estou exagerando, pois recentemente tenho buscado focar no assunto. Isto tudo após ler uma HQ desenhada pelo ótimo Travis Charest. Mas o que me prendeu na história foi o Roteiro.

esteves-hqemfoco disse...

Grande Gian,
Acho que atualmente as coisas tem mudado um pouquinho. Quando comecei a escrever quadrinhos, por exemplo, pude contar com materiais produzidos por você e disponibilizados na internet [ainda precária da época, final dos anos 90] para aprender.
Acredito que nos ultimos anos uma nova geração de roteiristas tem conseguido mostrar trabalho. Caras como o Srbek, Diniz, entre outros.
Daqui pouco tempo os jornalistas vão perceber que carecemos na verdade de bons editores, não bons roteiristas.
abraços,
daniel esteves

Zé Wellington disse...

Olá, Gian! Já havia comentado esse seu texto no orkut. É engraçado como minha opinião mudou um pouco nesse tempo... É como o Esteves falou, tenho percebido um novo movimento pela valorização das histórias no quadrinho independente nacional. Pode ser um começo. De qualquer forma como roteirista de quadrinhos, noto que meu trabalho tem sido procurado por desenhistas. Vamos ver até onde isso vai, né?

Abraço!

Estevão Ribeiro disse...

Oi, Gian. Já passei algumas situações como a sua, em relação a parcerias. Minha solução foi editar meu próprio trabalho, fazendo histórias curtas e convidadando vários desenhistas para trabalhar nelas, mandando assim a identidade do autor roteirista no conjunto do trabalho. Fiz isso com Contos Tristes e agora em Pequenos Heróis, mas mesmo assim Contos Tristes demorou quatro anos para ficar pronta e Pequenos Heróis, que está na reta final, está em produção há quase dois anos...
Viva o quadrinho nacional!

http://ospassarinhos.wordpress.com

Jean Okada disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JMTrevisan disse...

Opa!

Algumas considerações: é bom lembrar que "os caras que desenham" e escrevem, também são roteiristas. E nada impede que sejam tão bons roteiristas quanto desenhistas. Se o cara é bom nos dois, ótimo. É um profissional completo. Se escreve mais ou menos, procure alguém que saiba escrever. Do mesmo jeito que o desenhista passa anos se matando pra aprender o básico e evoluir, a gente também se mata para domar as ferramentas narrativas.

Concordo com o Jean que trampo bom se garante. Se tua história é legal, se o modo como você passa a história empolga o desenhista, não tem erro.

Mas também acho que falta um pouco aos desenhistas entenderem que: a) o roteiro existe mesmo quando é você quem está desenhando e b) talvez haja um cara por aí especializado em roteiro e melhor do que você.

A idéia de que fazer quadrinho é desenhar quadrinho predomina por aqui (vide a tradução do livro de Scott McCloud, "Making Comics" para "Desenhando Quadrinhos")e isso atrapalha inclusive o surgimento de novos roteiristas, pelo simples fato de que o moleque mal sabe que o papel do roteirista existe.

Aliás, li aquele quadrinho do Bené quando era moleque, achei as histórias demais (e até influenciaram minha fase de terror nos quadrinhos que escrevi para a Dragão Brasil)e não tinha idéia que havia um roteirista por trás.

É um tema complexo, que merece uma discussão mais ampla e amigável.

JMTrevisan

Gian Danton/Ivan Carlo disse...

Okada,
fica difícil o cara praticar e conseguir fazer roteiros cada vez melhores num mercado que só valoriza o desenhista. Se o cara acerta a mão e faz um bom roteirista, editores, leitores e jornalistas dão crédito ao desenhista. Sem falar nos desenhistas que acabam não fazendo as histórias... a maioria acaba desistindo antes de escrever uma obra significativa. Os caras que você cita (Laerte, etc) são caras que desenham e escrevem e, por isso, publicam muito, têm pleno controle do processo produtivo. Da quantidade, sai qualidade.
Olha o exemplo do JM: ele lia as histórias que eu fazia com o Bené, gostava, foi influenciado por elas, mas achava que as histórias eram só do desenhista. Claro que os editores também davam uma forcinha, creditando apenas ao Bené. Na verdade, as únicas histórias em que consegui crédito foram aquelas que o próprio Bené escreveu meu nome na página. Certa vez perguntei a um editor porque ele havia cortado meu texto em uma história com o Bené. Ele me respondeu: "Por mim tirava todo o texto e deixava só o desenho do Bené". Típico da mentalidade dos editores. Num mercado assim, é difícil um roteirista sobreviver para escrever roteiros melhores.

Gervásio Santana de Freitas disse...

Poderíamos encerrar numa palavra o teor, a essência, do artigo do Gian: EX-CE-LEN-TE! Belíssima reflexão sobre a arte de roteirizar. Embora muitos achem que roteirizar seja um subproduto de arte, na verdade o roteiro é como o esqueleto que faz um corpo bonito funcionar articuladamente. Muito legal a matéria.
Att.
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Edde Wagner disse...

Gian, eu entendo o que está dizendo/escrevendo...
É claro que há bons desenhistas/roteiristas, mas o foco não era este no texto, né?... E sim, a falta de valorização dos roteiristas.
Acho, realmente, que temos bons roteiristas por aí, caras que não desenham ou não querem desenhar, que não são estimulados a produzir. Enfatiza-se, pela mídia,o tal 'quadrinhos de autor'. Fazer o que...

Edde Wagner disse...

E, pra mim, os melhores roteiristas do Brasil são Emerson Abreu e Paulo Back, ambos da Turma da Mônica. Embora sejam desenhistas, também, conseguem se dedicar ao texto, roteiro e são valorizados pelo Maurício e pelo pessoal que trabalha no estúdio do Maurício.

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