sábado, 21 de janeiro de 2017

A gramática dos super-heróis

Algo que tenho percebido em muitas pessoas que produzem quadrinhos de super-heróis no Brasil atualmente é um desconhecimento dos elementos que compõe um gibi de super-heróis.
Embora os super-heróis tenham surgido no final da década de 1930, foi na década de 1960 que caras como Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita e Joh Buscema definiram a linguagem definitiva dos super-heróis. O jeito Marvel de fazer quadrinhos era tão inovador, tão poderoso, que a partir daí tudo que foi feito rezou pela cartilha Marvel (mesmo a antagonista DC Comics acabou depois acompanhando essa cartilha).
Assim, para fazer super-heróis é essencial ler clássicos como o Quarteto Fantástico de Lee e Kirby ou o Homem-aranha de Lee-Ditko-Romita. A linguagem está ali, em estado puro, pronta para ser estudada, aprendida e, se for o caso, revolucionada. Os caras que na década de 1980 revolucionaram o gênero, como Frank Miller e Alan Moore conheciam essa gramática dos super-heróis de cor e só conseguiram fazer algo inovador por causa desse conhecimento.
Então, vamos conhecer um pouco dessa "gramática".

Continuação 

A grande inovação da Marvel foi apresentar histórias em sequência, dentro de uma cronologia. Hoje praticamente todo mundo faz isso, mas na época era novidade. Na DC, por exemplo, era raro uma história que não concluísse dentro de um gibi.  Mas se a continuação pode ser interessante, pode também ser uma armadilha. Imagine o leitor que vai na banca, compra um gibi que não conhece e, ao lê-lo descobre que a história não termina ali, a história para no meio da ação, às vezes no meio de um diálogo. O que o leitor faz? Ele joga fora o gibi. A sequência pode ser interessante, mas para isso precisa ser bem trabalhada, precisa prender a atenção do leitor e levá-lo a comprar o próximo gibi.
A história termina em uma situação de suspense: gancho para o próximo gibi. 

Uma forma de fazer isso são os famosos ganchos: uma situação de suspense no final do gibi que deixa o leitor curioso para comprar o próximo número. Imagine: o herói está caído e alguém se aproxima para arrancar sua máscara. Sua identidade será descoberta? Compre o próximo gibi e descubra! Isso vicia o leitor. Outra forma é fazer uma mini-conclusão, como se cada gibi fosse um capítulo de um livro. Uma parte do conflito é resolvida no final daquele gibi, mas há algo maior, que o leitor só saberá como acaba lendo os próximos gibis.
O conflito foi resolvido. Mas a história terminou? Isso você só saberá no próximo gibi. 


Stan Lee e Jack Kirby nos seus melhores momentos experimentavam uma união dessas duas estratégias. Uma parte do conflito era resolvida, só para surgir um conflito ainda maior em seguida. Thor estava para ser derrotado por um inimigo invencível. Então surgia um ser poderoso e derrotava o vilão (o que fechava a trama daquele gibi). Mas aí o leitor descobria que o ser poderoso só havia feito isso porque ele mesmo queria ter a honra de matar o herói (e aí temos o gancho para o próximo gibi).

Muitas vezes o gancho desembocava no próximo gibi numa cena impressionante, numa... splash page!


Splash page ocupando a primeira página. 

Splash page

Lee e Kirby sabiam que os quadrinhos são uma mídia visual. Páginas e páginas de diálogos não são nada diante de uma imagem poderosa, de impacto, ação, especialmente para os leitores de super-heróis. Assim, colocar uma splash page no início de cada história era uma forma de agarrar o leitor, conquistá-lo já no começo. A primeira coisa a se dizer sobre  splash page é que ela deve ser uma cena de impacto e deve ser relevante para a história. Uma sequência de diálogo, por exemplo, não funciona como splash page (uma vez Kirby fez uma splash page de diálogo, mas eram dois deuses conversando algo grandioso, em um cenário grandioso, de modo que acabou valendo).
Splash page de página dupla, ocupando as páginas 2 e 3. 

Splash page deve concentrar toda a ação, mistério, suspense da história. Ela pode vir na primeira página. Ou na segunda, ou terceira página, sendo consequência direta do que veio antes. Um exemplo nesse sentido: o herói entra no esconderijo do vilão e a primeira página o mostra entrando. Na segunda ou terceira página ele está lá dentro e está sendo atacado por todos os lacaios do vilão numa imagem de tirar o fôlego!

Sequência de ação que desemboca numa splash page. 

Lembrando que a splash page, embora seja normalmente uma página inteira, pode também ocupar duas páginas, tendo ainda mais impacto. Em tempo: é na splash page que são colocados o título da história e os créditos.

Recapitulando


Como as revistas da Marvel eram quase todas em continuação e nem sempre o leitor havia comprado o gibi anterior, Stan Lee inventou um estratagema para situá-lo. Era praticamente uma norma que nas primeiras páginas o roteirista situasse o leitor dentro da história. Para isso ele deveria, obrigatoriamente, com o texto, responder a três perguntas: Quem? Onde? O que está acontecendo? Alguns roteiristas chegavam até mesmo a colocar essas perguntas no texto, respondendo-as.


Esses são alguns elementos básicos. Para melhor entendê-los (e perceber outros elementos) vale a dica do início: ler os clássicos. Vale a pena comprar uma antologia de histórias clássicas da Marvel e aprender um pouco como essas histórias eram feitas.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O que é uma barriga no roteiro?

Em roteiro, barriga significa encheção de linguiça, enrolação. É um termo usado quando o roteirista coloca situações que não contribuem em nada para a trama. Não é à toa que o termo técnico, em inglês, é filler, que significa enrolar.
Eu também chamo de labirinto narrativo, porque faz com que a trama fique rodando em círculos, sem seguir em frente.
Vamos imaginar a seguinte situação: uma moça briga com o namorado e resolve ir para a casa da mãe. Mas ela volta com o namorado. E volta para a casa dele. Mas depois briga de novo e volta para a casa da mãe. Nessa segunda ida à casa da mãe ela descobre uma caixa com segredos importantes sobre o passado da família.
A volta com o namorado foi uma tremenda barriga que só fez esticar a narrativa sem acrescentar nada à trama. O tempo que a moça ficou na casa da mãe a primeira vez e a volta à casa do namorado só fizeram a trama ficar andando em círculos, sem avançar.
Em quadrinhos de super-heróis esse é um erro comum. Provavelmente para colocar mais ação na revista, muitos roteiristas colocam os heróis enfrentando várias vezes o mesmo vilão. Se esses vários enfrentamentos não acrescentam nada à trama, são apenas barrigas.
Outro exemplo: o vilão que é derrotado e, de repente, usa poderes maiores do que havia exibido até então e consegue vencer o herói. O leitor fica se perguntando: por que ele não usou esse poder antes? Resposta: porque o roteirista precisava encher linguiça! :)

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Calafrio resgata clássico do terror nacional



Na sua edição 56 a revista Calafrio vai resgatar um clássico do terror nacional da década de 1990: a série "Zona do Crepúsculo", de Gian Danton e Bené Nascimento (Joe Bennett). 


A série foi publicada em dois números da própria Calafrio e uma edição especial da mesma revista no início da década de 1990 e chamou atenção por trazer influência dos autores britânicos, que um pouco antes haviam revolucionado o terror nos comics americanos com revistas como Monstro do Pântano, Sandman e Hellblazer.


Essas histórias marcaram uma fase de maturidade no desenho de Bené e apresentaram ao mercado o texto de Gian Danton, centrado principalmente no terror psicológico. 


As histórias fizeram tanto sucesso que o editor, Rodolfo Zalla, pediu uma história para fechar a trama. Os autores resolveram contar a história de Assad, o velho lojista que era um ponto em comum entre todas as narrativas. Essa história foi desenhada por Bené com pincel branco em fundo preto, uma técnica rara. Mas era a fase final da revista e essa história acabou sendo publicada na primeira edição da revista Graphic  Gótica - A Hora do Crepúsculo, da editora Nova Sampa. 


Assim, essa é a primeira vez que essas histórias são publicadas na íntegra na Calafrio e também a primeira vez que são reunidas em um único volume.

A edição ainda traz outras HQs clássicas, biografia dos dois autores, texto de Gian Danton contando o início da parceria e amizade da dupla, e ainda a seção de capas clássicas.



A revista tem 52 páginas ao preço de R$15,00. Os pedidos da edição e números atrasados podem ser feito pelo e-mail: revistacalafrio@gmail.com.

domingo, 20 de novembro de 2016

Monstro Lovecraftiano vira tira de humor


Imagine que uma criatura ancestral responsável pelo ressurgimento dos antigos. Agora imagine que esse monstro é um garotinho na escola vivendo todas as dificuldades de todas as crianças normais. Foi essa ideia maluca que Gian Danton e Toninho Lima tiveram ao criar a tira de humor As aventuras do Pequeno Xuxulu. 
A tira, publicada em página na internet, é uma referência à obra do escritor norte-americano HP Lovecraft. Lovecraft inovou ao colocar todos os seus contos em um mesmo universo e dessa forma criou uma das mais famosas mitologias modernas de terror incluindo o demônio Cthulhu e o livro maldito Necronomicon.
A ideia da tira surgiu da dificuldade de pronunciar o nome Cthulhu: “O próprio Lovecraft dizia que era um nome impronunciável por seres humanos, de modo que qualquer pronúncia seria possível. E, de brincadeira, eu pronunciava Xuxulu. Uma dia percebi que isso poderia ser uma deixa para fazer algo na linha de humor”. 

O humor, aliás, surge exatamente do estranhamento, por misturar o terror das histórias originais com uma narrativa e traços infantis. Assim, Xuxulu enfrenta problemas de crianças normais, como acordar de mal-humor, ter dificuldades para decorar o livro Necronomicon e até ter que dar o dinheiro do lanche para o valentão da escola (no caso, Dagon, outra criatura lovecraftiana). 
Gian Danton é roteirista de quadrinhos desde 1989 e ficou famoso por suas histórias de terror em parceria com Bené Nascimento e com a graphic novel Manticore, sobre o chupa-cabras, ganhadora de diversos prêmios. Foi um dos criadores do super-herói curitibano O Gralha. Para desenhar a história chamou o ilustrador Toninho Lima, que tem grande experiência em quadrinhos de terror e, ao mesmo tempo, em quadrinhos infantis. 

As aventuras do pequeno Xuxulu podem ser acompanhadas pela página do facebook (https://www.facebook.com/pequenoxuxulu). A página é atualizada com uma nova tira toda sexta-feira. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uivo da górgona em promoção


Gosta de zumbis? Que tal aproveitar a promoção e conhecer um livro de um autor nacional. O livro O uivo da Górgona está com preço promocional até o final do ano: 22 reais, com frete incluso. Interessados, mandem e-mail para profivancarlo@gmail.com.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Promoção


Essa é imperdível para quem quer aprender mais sobre roteiro para quadrinhos. O livro Como escrever quadrinhos está com preço promocional até o final do ano: 18 reais, com frete incluso. Interessados, mandem e-mail para profivancarlo@gmail.com.

domingo, 9 de outubro de 2016

Deixar o texto dormir


A pior estratégia para revisar um texto e fazê-lo logo depois de escrevê-lo. Seu cérebro ainda está com o conteúdo na cabeça e tende a completar o texto, muitas vezes até mesmo corrigindo erros ortográficos. Além disso, é difícil ser crítico a respeito de seu próprio trabalho quando se acabou de escrever. 

Existe uma técnica chamada "deixar o texto dormir". Ou seja: escrever e retornar ao texto apenas no dia seguinte. Se não há urgência, podemos dar um tem
po ainda maior, até mesmo meses.
 
Essa distância faz com que o cérebro de certa forma se esqueça do que foi escrito.

Assim, lemos o texto como se fosse escrito por outra pessoa. Já me aconteceu, por exemplo, de roteiros que eu achava ótimos enquanto estava escrevendo me parecerem horríveis e cheios de falhas com o distanciamento do tempo. Por outro lado, roteiros que eu já desistira, por considerar que não eram bons (ou não conseguia bons finais), acabaram sendo aproveitados depois de ter deixado o texto dormir.

Um exemplo disso foi a história em quadrinhos Turma da Tribo. Eu sempre quis fazer algo no estilo Asterix, história em quadrinhos da qual sempre fui fã. E escrevi algumas páginas, de apresentação dos personagens, e abandonei. Não parecia ter futuro e, apesar de ter os personagens e um foco narrativo, não tinha trama. Anos depois, quando conheci Ricardo manhaes, que tinha um estilo totalmente franco-belga, fui reler aquelas primeiras páginas. A história, que no primeiro momento, parecia difícil de ser escrita, depois de alguns meses praticamente se escreveu sozinha.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sonhos


Os sonhos são, muitas vezes, um elemento essencial no processo de criação. Enquanto dormimos, nosso inconsciente trabalha e, sem as amarras da racionalidade, muitas vezes apresenta soluções criativas. 
Eu costumo sonhar com roteiros. Algumas vezes eu sou o protagonista da história, mas na maioria das vezes eu assumo uma posição semelhante ao de um diretor de cinema, algumas vezes até fazendo mudanças na trama, na abordagem ou anotando mentalmente mudanças (isso não está funcionando, mude!).
Vários sonhos se transformaram em roteiros de quadrinhos. O primeiro que me lembro foi Decadence, publicada na revista Mephisto no início da década de 1990 e desenhada pelo compadre Joe Bennett. A mais recente, Pesadelo, publicada na revista Calafrio 55 e desenhada pelo Antonio Lima.

sábado, 16 de julho de 2016

Biografia do criador do Capitão Gralha em pré-Venda


Na década de 1940 um quadrinista curitibano criou um dos primeiros super-heróis brasileiros, o Capitão Gralha com uma ampla galeria de histórias e vilões e foi resgatado na década de 1990 por jovens artistas que, em sua homenagem, criaram o personagem O Gralha. Ele, na verdade, numa existiu, mas se tornou lendário, ganhou prêmio, tornou-se famoso e quase foi homenageado por uma escola de samba. É essa história que é revelada no livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder, editora Quadrinhópole, que está em pré-venda ao preço promocional de 14 reais até o dia 29 de julho.
O livro é do tipo vira-vira, com dois lados que se completam. Na primeira parte, é contada a biografia fictícia de Iwerten como se ele de fato tivesse existido, sua vida, seus anseios, as inspirações para o Capitão Gralha e as dificuldades com a concorrência dos quadrinhos americanos e a perseguição local contra seu personagem. No outro lado, é contada a história “real”, com o contexto da criação de Iwerten e as consequências da história fake, que, de uma brincadeira para dar verossimilhança ao personagem Gralha, escapou do controle de seus autores e se tornou muito maior do que cada um poderia esperar. A lenda Iwerten cresceu tanto que se chegou a dizer que ele foi um dos criadores do Batman.  

Um dos destaques do livro são as capas criadas por JJ Marreiro. No lado “A história do Capitão Gralha”, Iwerten aparece em sua prancheta, ilustrando o capitão e tendo seus quadrinhos ao fundo. No outro lado, em que se conta a história por trás da lenda, Iwerten aparece dentro dos próprios quadrinhos, sendo desenhado por uma mão em estilo realista. As capas representam os dois aspectos abordados na obra: Iwerten como autor e Iwerten como personagem.
O livro traz ainda o processo de criação visual de Iwerten, feita por JJ Marreiro e Fernando Lima a partir de manipulação digital de fotos antigas.
Gian Danton e Antonio Eder fizeram parte do grupo de autores que criou o Gralha e elaborou a lenda de Iwerten e do Capitão Gralha. O livro integra a pesquisa doutorado em Arte e Cultura Visual de Gian Danton realizada na FAV-UFG, sob orientação do professor Dr. Edgar Franco.
Francisco Iwerten – biografia de uma lenda -  será vendido a 20 reais, mas na pré-venda sairá por 14 reais, com frete incluso. A pré-venda vai até o dia 29 de julho, quando os exemplares começarão a ser enviados. Os pedidos podem ser feitos para o e-mail: profivancarlo@gmail.com.

SERVIÇO
Pré-venda do livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder
Valor: 14 reais (frete incluso)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Grafipar, a editora que saiu do eixo


Texto como camada de significado

O texto deve dar uma camada a mais de significado à HQ, indo além daquilo que o desenho mostra.

Um bom exemplo disso é o Surfista Prateado. Ele foi colocado por Jack Kirby na história em que o Quarteto enfrenta Galactus. Para Kirby, Galactus era tão poderoso que deveria ter um arauto, o que não estava na sinopse entregue para por Stan Lee. Para Kirby, o Surfista era um personagem que tinha função apenas decorativa. Mas quando Stan Lee viu o desenho achou que ele se parecia com um filósofo, um profeta, de alma nobre e bons propósitos, que era obrigado a servir Galactus. Stan Lee acrescentou ao desenho de Kirby uma camada a mais de significado que transformou um mero coadjuvante num dos personagens mais interessantes e cults da Marvel.

O mesmo aconteceu com a história A insólita Família Titã escrita por mim e desenhada por Joe Bennett e publicada em diversas revistas eróticas na década de 1990 e finalmente reunida em álbum pela Opera Graphica em 2014.

A história surgiu de um convite do editor Franco de Rosa, que precisava urgente de uma história em quadrinhos de 30 páginas. Nós tínhamos duas semanas para produzir tudo: roteiro, desenho, arte-final, balonamento. Dessa forma, assim que soubemos do pedido, começamos a discutir a trama. A pressa era tanta que nós íamos conversando e o Bené já ia fazendo um esboço das páginas. Ao final, peguei aquele calhamaço e fui colocando texto. Esse processo todo durou menos de uma manhã, pois início da tarde já era necessário dar início à produção do desenho.

A pressa fez com que nós não tivéssemos tempo de discutir sobre a história. O resultado disso foi que eu jurava que o personagem Tribuno era o herói da história. Afinal, ele era o único dos três heróis que queria usar seus poderes para o bem da humanidade. Já para o Bené, ele era o vilão, pois só um vilão  entraria numa jornada de vingança como fez o Tribuno.
Ou seja: o herói estava ali, cometendo as maiores atrocidades, mas eu estava lhe dando motivações, comprando o leitor com meu texto.
A história acabou ficando com uma dualidade ímpar: para alguns leitores, o Tribuno era um tremendo vilão, para outros, era um herói. A mistura de desenho e texto permitiu essa dupla leitura.

O texto e os diálogos, portanto, devem ir muito além da simples narrativa. Devem dar humanidade aos personagens, devem mostrar suas motivações e, principalmente, devem fazer o leitor se sentir dentro da HQ. Os quadrinhos são bidimensionais, mas o leitor deve se sentir dentro de uma história com todas as dimensões possíveis. Deve sentir os cheiros, deve ouvir os sons. Uma boa história é como uma realidade virtual, que transporta os leitores para um mundo em que tudo é possível. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

o que é um Bife no roteiro?


Um roteiro, seja de quadrinhos ou de cinema, não é literatura. Ao contrário de um livro, ele deve ser feito para ser visto.

Quadrinhos e cinema são mídias visuais. O que pode ser mostrado com imagens, deve ser apenas imagem.

Se um personagem é um adolescente que gosta de rock, mostrá-lo num quarto com posteres de banda de rock ou com camisa de uma banda cantando uma canção de sua banda predileta é suficiente para repassar a mensagem. Não há necessidade de um narrador ou um personagem dizendo: "Fulano gosta de rock".

Algumas das melhores sequências do cinema são mudas, como a abertura do primeiro De volta para o futuro, com a sequência no laboratório que nos conta tudo que precisamos saber sobre o Dr. Brown, inclusive que ele roubou o urânio do qual se fala na TV.

Outra abertura genial é a de Dois filhos de Francisco. Toda a sequência inicial, do pai pelejando para conseguir pegar rádio na roça mostra sua paixão por música que será o fio condutor de toda a trama.

Assim, as ações é que contam a história e nos dão a motivação dos personagens. Em Contato, a sequência da morte do pai será fundamental para que a cientista Ellen busque comunicação com outros mundos e, quando os ETs aparecem para ela, sacamos que no fundo sua busca por contato era também uma forma de resgatar o pai (o alienígena aparece com o rosto do pai da cientista).

Maus roteiristas desconhecem isso e tendem a explicar tudo com diálogos ou narração em off. Um roteirista iniciante colocaria, na cena do encontro de Contato, uma narração em off, nos dizendo algo como: "Naquele momento Elleanor percebeu que sua busca por contato era, na verdade, uma forma de voltar a encontrar o pai".

Isso de explicar a história com diálogos é algo tão irritante que ganhou até um nome próprio, uma gíria: bife (alguns também usam muleta).


Maus roteiristas usam e abusam do bife, explicando o tempo todo os fatos ao expectador. Exemplo disso é a novelista Glória Pérez, famosa por adorar um bife. Na novela Caminho da Índia, por exemplo, toda vez que tínhamos uma cena com a psicopata Yvone, na sequência aparecia uma psicóloga explicando as ações da psicopata.


Talvez o exemplo mais famoso de bife, ou muleta, tenha sido uma das cenas finais de Psicose, em que um psicólogo explica o comportamento de Norman Bates. A cena é tão didática que parece uma concessão do diretor, Alfred Hitchcock, para os produtores, no sentido de tornar o filme mais compreensível para a grande massa. Felizmente a cena seguinte, de Norman sentado na cadeira, olhando para o expectador e sua mãe falando por ele salvam o final. Aliás, bastava essa cena final e o expectador entenderia tudo - sem a necessidade do bife psicológico.

PS: Para terminar, uma página de Companheiros do Crepúsculo, de Bourgeon, que exemplifica a força narrativa das imagens.

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