quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A bíblia do roteiro de quadrinhos

 

Há algum tempo, os roteiristas Alexandre Lobão e Leonardo Santana me convidaram para escrever a seis mãos um livro sobre roteiro para quadrinhos.
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Para quem quiser seu exemplar autografado e frete grátis, só me mandar um e-mail: profivancarlo@gmail.com. 
O valor do livro é 60 reais. 

A jornada da horror

 


Nos manuais de roteiro há, normalmente, uma visão sobre a estrutura da história chamada Jornada do herói. Nela, um persogem é retirado de sua zona de conforto e obrigado e enfrentar diversos desafios. No final, vemos sua redenção e sua volta para o mundo normal trazendo algum ensinamento.

Existe um gênero, no entanto, que rompe completamente com essa estrutura: o terror. No terror, o protagonista encontra não a redenção, mas a perdição.

Nesse sentido, o terror é herdeiro direto da tragédia. Aristóteles já tinha descrito a tragédia como um gênero protagonizado por um herói que tem uma falha trágica, a hamartia, que o faz enfrentar seu destino, seus companheiros e até os deuses. No final, essa falha o leva à destruição.

Na tragédia grega, o herói era sempre alguém com grandes poderes, mas maculados pela arrogância, fazendo com que eles se sintam melhores que os deuses.

No terror, a característica do protagonista geralmente se resume à sua falha de caráter, que pode ser não a arrogância, mas a falta de empatia, a ganância ou qualquer outro defeito que se sobrepõe às qualidades. A jornada do herói no terror, portanto, o leva a um caminho não de rendenção de seus defeitos, mas de perdição em decorrência desses mesmos defeitos.

Uma pequena amostra de histórias da EC Comics serve para demonstrar essa característica.



Em “Papel principal”  três atores tentam entrar em uma peça teatral shakespeariana. Um deles se oferece e é aceito, mas é morto pelo outro. O mesmo ocorre até o terceiro. No final, o ator descobre que está num hospício e seu papel é ser a cabeça que Hamlet segura.

 


Em “Com um pé na cova”  um coveiro explora uma viúva, fazendo um funeral com materiais de terceira, mas vendendo-os com se fossem de luxo. Depois sofre um acidente e fica paralisado. Seu sócio cuida de seu funeral e usa todo o seu espólio numa farsa, um funeral pobre, que é orçado como rico.

 

Nos dois exemplos acima a falha que leva os protagonistas à ruína é a ganância.



Em “No raiar do dia’ um camponês encontra linda garota em casa. Apaixonam-se e transam. Enquanto ela dorme ele ouve que uma louca assassina ronda a região. Temendo que esteja com a assassina dentro de casa, e a coloca para fora e tranca a porta. Nisso aparece a verdadeira louca e mata a garota para ficar com sua roupa.

No exemplo acima, é a covardia que leva o protagonista a ser punido.

Se a covardia leva o protagonista à perdição, imagine o assassinato. Na mesma edição há duas histórias em que a falha moral dos protagonistas é serem assassinos. 

Em “Dia de praia” um rapaz mata a namorada jogando-a da montanha russa. Para se disfarçar, ele vai para a praia, esconde suas roupas e se mistura aos banhistas. Conhece algumas meninas, que, por brincadeira, o puxam para a água. Mas ele não sabe nadar e morre afogado.

Em “O assassino” , um assassino profissional é contratado para apagar um cara por 500 dólares. Ele o persegue pela cidade até encurralá-lo em um local escuro e vazio, sem testemunhas. Quando atira, descobre que está na verdade em um teatro, diante de toda uma plateia. 



Saindo dos quadrinhos e entrando na seara da literatura do terror, um dos clássicos do gênero mais conhecidos é Carrie, a estranha. É a história de uma menina com poderes telecinéticos dominada por uma mãe fanática religiosa que, após ser vítima de uma brincadeira de mau gosto, praticamente destrói uma cidade, matando centenas de pessoas.

Como nas jornadas comuns, a protagonista tem um problema a ser resolvido, ou melhor, dois: a relação com a mãe e aprender a lidar com seus poderes. Numa narrativa super-heroiesca, que segue a jornada do herói, ela alcançaria a redenção ao conseguir controlar os seus poderes ao mesmo tempo em que controla seus problemas psicológicos. Isso aconteceria ao mesmo tempo em que ela se concilia com a mãe. Como é uma narrativa de horror, ela sucumbe ao seu lado mais sombrio, o que a leva à perdição.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Roteiro para quadrinhos: finalizando a história

  O final de uma história em quadrinhos é um dos momentos mais importantes da trama. Quantas vezes já não ficamos com vontade de jogar o gibi no lixo depois de ler o final de uma história?

Apresento aqui algumas estratégias de finalizar a história.

Uma das possibilidades é terminar com uma ironia do destino.

É um final típico do seriado Além da imaginação, que tornou esse recurso célebre.


Num dos episódios mais famosos, um bancário quer, a todo custo, ler seus adorados livros, mas nunca consegue. É a esposa que manda a todo momento ele fazer algum trabalho doméstico, é o chefe que o flagra lendo em serviço e lhe dá uma bronca. À certa altura ele entra no cofre do banco para finalmente conseguir ler um pouco. Nesse meio tempo, acontece uma guerra nuclear. Quando finalmente ele sai do cofre, descobre que ele é o único sobrevivente, mas que todos os livros da biblioteca foram poupados e entra em êxtase. Finalmente ele teria tempo de ler seus livros prediletos! É quando seus óculos caem e quebram!

Nos quadrinhos, o mais célebre exemplo de final irônico é, provavelmente, Watchmen. Todo o plano ousado de Ozymandias pode ser cair por terra por causa da escolha de um idiota.


Já o final surpresa é típico das histórias de terror. Nesse tipo de estratégia o leitor descobre no final da história que tudo que ele imaginava até ali sobre a trama e até sobre os personagens estava errado. O final surpresa pode ser um verdadeiro desastre, mas, se bem feito, pode se tornar célebre e até levar o leitor a refletir sobre o mundo à sua volta.


No cinema o final surpresa mais famoso de todos os tempos é, provavelmente, o Gabinete do Dr. Caligari. No início da história vemos um rapaz contando a história de um louco chamado Caligari que, usando sonambolismo, fazia um gigante realizar vários assassinatos. No final, descobrimos que o narrador é louco e que Caligari é na verdade o diretor do hospício. Mas já havia indícios de que essa era a verdade: os cenários expressionistas representavam o ponto de vista de um louco.

Nos quadrinhos da EC Comics o final surpresa chegou a pontos realmente antológicos. Em uma história, por exemplo, uma garota é estuprada em uma pequena cidade do interior. Um forasteiro é preso. O xerife finge facilitar sua fuga, mas é só uma estratégia para entregá-lo para uma multidão enfurecida. No final descobrimos aquilo que já deveríamos saber se estivéssemos prestando atenção aos detalhes: o xerife era o verdadeiro estuprador.

Outra maneira engenhosa de terminar uma história é com a elipse: a história começa como terminou.

Essa é uma estratégia particularmente útil em histórias humorísticas. Por exemplo, a história podem mostrar uma família embarcando numa viagem absolutamente desastrosa. Depois, todos dizem: Nunca mais! No final, vemos essa mesma família, um ano depois embarcando numa viagem que pelas pistas visuais será outra roubada.

Em uma das minhas histórias para a série de álbuns Clássicos revisitados eu mostrava uma dupla de garotos extraterrestres provocando, inadvertidamente, a extinção dos dinossauros. No final, após descobrir o que tinham feito, eles resolvem voltar para a terra, na França de 1789 e tudo leva a crer que eles irão provocar a revolução francesa.



O final em elipse pode se dar em termos visuais: Piada Mortal começa com a chuva e depois Batman e Coringa conversando. E termina com Batman e Coringa conversando e depois a chuva.

Aliás, Piada Mortal é exemplo de um outro tipo de final: quando a história trata de um tema, ela deve terminar retornando ao tema. O tema de piada mortal é a relação doentia entre Batman e Coringa e é isso que vemos no início (Batman tentando estabelecer algum diálogo para que não aconteça o final previsível dos dois se matarem) e no final de significado aberto (que alguns interpertam como o Batman matando o vilão).

Finalmente, uma outra maneira de terminar a história pode ser com uma reflexão do protagonista ou mesmo do narrador. Essa reflexão pode ser sobre o impacto dos acontecimentos daquela HQ sobre a vida do personagem, ou pode ser sobre o próprio protagonista.

Praticamente todas as histórias do Homem-aranha da fase de Stan Lee e Joh Romita terminavam assim. No número 46 de The Amazing Spiderman, por exemplo, vemos Peter Parker refletindo: “Naquele dia fatídico em que me tornei o Homem-Aranha talvez tenha havido mais do que uma mudança física. Talvez, ao receber outra identidade, eu tenha me tornado incapaz de ser feliz!”.

Final encadeado é um tipo de final que só pode ser usado em histórias curtas e cujo roteirista tem controle do processo de edição.

Nele, uma história só termina de fato na história seguinte. A primeira tem um final fraco, que deixa no leitor uma impressão ruim, de algo mal acabado. Mas na história seguinte as duas histórias se interligam no mesmo final, deixando o leitor surpreso e maravilhado.

Um exemplo desse tipo foi publicado pela EC Comics e republicado no Brasil na revista Cripta do Terror 1.




Na primeira história, intitulada “Um é pouco...”, uma femme fatale vive de enganar homens e tirar-lhes todo o dinheiro, deixando-os na miséria. Depois de arruinar sua mais recente vítima, ela conhece uma velhinha endinheirada num bar, que lhe propõe morar com ela para lhe fazer companhia. A golpista percebe ali uma chance de se dar bem novamente, mas quando chega na casa da velhinha descobre que ela tem um filho enlouquecido depois de ter sido abandonado por uma mulher que só estava interessada em seu dinheiro. A história termina com o rapaz matando a moça.

Um final fraco, não? Espere a próxima história intitulada “...dois é demais”. Nela um homem de meia idade mata a esposa, a enterra no porão e diz para a polícia que ela fugiu. Mas um detetive resolve investigar e logo voltará com um mandato para revistar a casa. O marido então corta todo o corpo, coloca-o num baú e viaja para outra cidade. Sua ideia é esquecer o baú com o corpo no trem. Mas quando vê o detetive seguindo-o, percebe que ele irá revistar o baú e troca a etiqueta do baú com o corpo de sua esposa por um outro baú igual, que acha no compartimento de cargas. Quando o detetive abre o baú...há um corpo lá dentro! Então vemos um último quadro no qual o rapaz enlouquecido da primeira história pergunta à mãe o que ela fez com o cadáver da garota que ele havia matado. E ela responde que o havia despachado dentro de um baú num trem! O final fecha as duas histórias com uma reviravolta realmente genial.

Essas são algumas possibilidades de finais para histórias. É bom lembrar, no entanto, que o único limite para as possibilidades de finais é a imaginação do roteirista.

sábado, 21 de março de 2020

Cabanagem: novo livro de Gian Danton busca apoio no Catarse


1836. A cabanagem foi derrotada em Belém e se espalhou pelos rios da Amazônia. Um pequeno grupo de índios, negros e mestiços liderada pelo misterioso Chico Patuá se dirige para o Amapá singrando os pequenos igarapés da região. No seu encalço, o governo regencial mandou soldados comandados por um psicopata assassino, Dom Rodrigo. Em meio a essa disputa, soma-se outra, quando os seres da floresta resolvem tomar partido na contenda.
Essa é a trama de Cabanagem, romance de fantasia histórica de Gian Danton, que está na plataforma de financiamento coletivo Catarse. A obra mistura fatos reais com mitologia amazônica e terror.
O livro é ilustrado por grandes como Andrei Miralha, Otoniel Oliveira, Rafael Senra, Roberto Oliveira, Antonio Eder, Romahs e Igun D´jorge. Os originais dessas ilustrações serão disponibilizadas como recompensas para os apoiadores.
Para quem não conhece, o Catarse funciona como uma espécie de vaquinha: os apoiadores ajudam o autor a publicar seu livro e recebem recompensas. Há recompensas de 19 reais a 523 reais.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Colocando texto nos balões

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
 Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Texto narrativo - texto redundante


Algo fundamental, uma das primeiras lições para um futuro roteirista de quadrinhos, é que o texto nunca deve ser redundante. Em outras palavras, nunca se deve dizer com as legendas ou com os diálogos aquilo que o leitor está vendo.
Mas algumas pessoas confundem texto redundante com texto narrativo. Embora possam parecer semelhantes, não são. O texto narrativo, embora não explore toda a potencialidade dos quadrinhos, não chega a ser um erro. Já o texto redundante se limita a dizer aquilo que o leitor está vendo é erro feio.
Imagine uma cena: um casal andando pelo deserto em pleno dia, o sol acima deles e nada por perto além da areia escaldante.
Um texto narrativo possível para a cena seria: “O casal andou por horas a fio sob o céu escaldante sem encontrar um único indício de vida ou civilização. Se não encontrassem logo água, iriam morrer no deserto”. Observe que há várias informações incluídas no texto que não aparecem na imagem (o casal está andando por horas, não encontraram sinal de vida em toda a caminhada, logo vão morrer de sede).
Um texto redundante sobre a mesma cena seria: “O casal anda no deserto sob o sol escaldante”. Neste caso, o texto se limita a dizer aquilo que o leitor está vendo, sem acrescentar nada à informação visual.
Percebam como o texto redundante se limita a descrever a imagem que está sendo vista pelo leitor. Ou seja, é totalmente desnecessário.
Um exemplo de texto redundante pode ser encontrado na página da série Os Eternos, de Jack Kirby, publicada em Superaventuras Marvel 25.
Observe os dois primeiros quadrinhos. Eles mostram a nave dos desviantes entrando por uma cabeça de pedra e singrando em direção a uma abertura luminosa. O que o texto diz? O que o leitor está vendo: “Logo uma enorme cabeça de pedra surge à sua frente. Penetrando pela boca do dragão, a nave avança rumo a uma abertura luminosa”.

Um outro exemplo de texto redundante pode ser encontrado na versão quadrinística da história A torre do elefante, com textos de Roy Thomas e desenhos de John Buscema. Conan e outro ladrão estão no pátio da torre quando encontra com cinco leões. O diálogo diz: “Leões! Cinco deles!”.
Curiosamente, na mesma página há um exemplo de ótimo uso do texto quadrinístico, inclusive como elemento de suspense. O ladrão nemédio empurrou Conan para trás, fazendo com que ele parasse. O texto diz: “Seu olhar está fixo em arbustos poucas jardas à frente... arbustos que continuam se movendo, embora o vento tenha morrido”. O texto narra a aproximação de algo que o leitor não é capaz de identificar visualmente (só depois, no quadro de impacto ele descobrirá que são leões).

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O planeta dos macacos e os furos de roteiro

Na década de 1970 os filmes da série Planeta dos macacos faziam um sucesso tão grande que alguém teve a ideia de fazer uma animação com o tema. Lançado em 1975, era resultado de uma associação dos estúdios DePatie-Freleng Enterprises com a 20th Century Fox Television e teve 13 episódios. 
O desenho é uma verdadeira decepção, inclusive para aqueles que são fãs dos filmes. A animação é fraca, com muitas repetições de cena, embora isso necessariamente não seja um defeito grave. O desenho de Jornada nas Estrelas tem animação ruim, mas roteiro bom e o resultado final acaba sendo ótimo. Por outro lado, o filme Selvagem, da Disney, tem ótima animação, mas roteiro chato. Resultado: foi um fiasco de bilheteria.
O grande problema na animação dos macacos está no roteiro, com tantos furos que parece uma peneira.
Esse roteiro é tão ruim que estou tendo infarto! 

Senão vejamos. O DVD que tenho mostra a história aparentemente no segundo capítulo. A cronologia dos filmes é totalmente esquecida e é como se pela primeira vez uma nave fosse parar no planeta dos macacos. Um dos astronautas está sendo levado pelos gorilas, outro foi salvo por uma mulher selvagem. Uma vez na cidade, o astronauta foge. Todos, absolutamente todos os soldados macacos vão atrás dele, mas mesmo assim ele foge com facilidade impressionante e ainda encontra tempo para libertar todos os humanos presos pelos gorilas, pois encontra a prisão sem guarda. Aparentemente os macacos não aprenderam nada de segurança depois de tanto tempo...
Mas continuemos. Em uma seqüência posterior, os dois astronautas estão vistoriando uma região de montanhas quando vêm um grupo de militares simiescos se aproximando. A cena mostra o humano loiro encostado numa pedra, olhando displicentemente para a frente: “Parece que os macacos estão nos procurado”. E outro: “Se nos virem aqui, estamos ferrado!”. Qualquer um sairia correndo para se esconder, mas eles ficam lá parados, olhando o tempo. “É, parece que eles nos viram”. “Poxa vida, isso é horrível”, dizem eles, sem sair do lugar. 
Proatividade parece ser uma palavra desconhecida para esses dois homens. Fiquei imaginando a continuação do diálogo: “Eles estão a um quilômetro!” “Nossa, logo eles não vão nos alcançar se não corrermos”, “Agora eles já estão a cem metros!”, “Vamos fazer um lanche?”.
Vamos continuar procurando a lógica dessa história! 

Mas os nossos heróis são salvos por uma montanha que se eleva na frente deles, escondendo-os, um artifício que os bons roteiristas chamam de Deus ex machina. Essa expressão significa algo exterior à história, que surge para salvar a situação. É chamada assim porque os dramaturgos gregos ruins constumavam baixar um deus no final da peça para costurar as pontas soltas ou para explicar situações não muito lógicas. Um Deus ex machina é quando o roteirista arranja uma saída totalmente desconhecida do leitor para salvar os heróis ou para resolver uma situação. É erro gravíssimo.  
Depois dessa tremenda forçada de barra, os heróis ainda encontram uma porta secreta, por onde chegam ao mundo dos humanos subterrâneos. Nisso eles descobrem que estão na terra. O desenho foi feito no final da década de 1970, uma época em que todo mundo já sabia disso, mas mesmo assim o desenho faz um suspense desnecessário sobre isso.
Os expectadores nunca vão desconfiar que estamos na Terra. Vamos tomar um café? 

No mundo dos subterrâneos eles encontram a terceira astronauta e fogem com ela num carrinho que corre por um trilho. Os subterrâneos têm duas formas de defesa: uma são ilusões, outra são raios emitidos pelos olhos. Então eles primeiro fazem aparecer uma parede de mentira e os heróis acham que vão bater, mas passam direto por ela. Depois acham que vão cair num buraco, mas, mais uma vez descobrem que é uma ilusão. Então eles se deparam com uma parede de fogo. Qualquer pessoa que tivesse passado pelas experiências anteriores aprenderia o bastante para saber que a parede é também uma ilusão, mas os nossos astronautas são burros como uma porta e morrem de medo do fogo. Quando passam por ele e descobrem que estão vivos, comentam entre si: “Quem diria, é uma ilusão!”. Será que eles aceitam pessoa com QI 0,1 na NASA?
O teste de QI mostra que os astronautas da NASA são mais burros que nós! 

Enquanto isso, os subterrâneos atiram neles com seus raios... e não acertam nada, nem os trilhos, nem os humanos, nem o carrinho. São quase cinco minutos de tentativa e nada. Uma impossibilidade matemática! Isso nos faz pensar que os subterrâneos aprenderam a atirar com um cego paralítico e epiléptico. Não acertar em absolutamente nada durante cinco minutos de tiroteio é mais difícil que ganhar na loteria, mas eles conseguem e os astronautas saem de lá sem um único arranhão.
O pior de tudo é que o episódio foi escrito por dois roteiristas. Será que nenhum deles percebeu os buracos no roteiro?

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