quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sonhos


Os sonhos são, muitas vezes, um elemento essencial no processo de criação. Enquanto dormimos, nosso inconsciente trabalha e, sem as amarras da racionalidade, muitas vezes apresenta soluções criativas. 
Eu costumo sonhar com roteiros. Algumas vezes eu sou o protagonista da história, mas na maioria das vezes eu assumo uma posição semelhante ao de um diretor de cinema, algumas vezes até fazendo mudanças na trama, na abordagem ou anotando mentalmente mudanças (isso não está funcionando, mude!).
Vários sonhos se transformaram em roteiros de quadrinhos. O primeiro que me lembro foi Decadence, publicada na revista Mephisto no início da década de 1990 e desenhada pelo compadre Joe Bennett. A mais recente, Pesadelo, publicada na revista Calafrio 55 e desenhada pelo Antonio Lima.

sábado, 16 de julho de 2016

Biografia do criador do Capitão Gralha em pré-Venda


Na década de 1940 um quadrinista curitibano criou um dos primeiros super-heróis brasileiros, o Capitão Gralha com uma ampla galeria de histórias e vilões e foi resgatado na década de 1990 por jovens artistas que, em sua homenagem, criaram o personagem O Gralha. Ele, na verdade, numa existiu, mas se tornou lendário, ganhou prêmio, tornou-se famoso e quase foi homenageado por uma escola de samba. É essa história que é revelada no livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder, editora Quadrinhópole, que está em pré-venda ao preço promocional de 14 reais até o dia 29 de julho.
O livro é do tipo vira-vira, com dois lados que se completam. Na primeira parte, é contada a biografia fictícia de Iwerten como se ele de fato tivesse existido, sua vida, seus anseios, as inspirações para o Capitão Gralha e as dificuldades com a concorrência dos quadrinhos americanos e a perseguição local contra seu personagem. No outro lado, é contada a história “real”, com o contexto da criação de Iwerten e as consequências da história fake, que, de uma brincadeira para dar verossimilhança ao personagem Gralha, escapou do controle de seus autores e se tornou muito maior do que cada um poderia esperar. A lenda Iwerten cresceu tanto que se chegou a dizer que ele foi um dos criadores do Batman.  

Um dos destaques do livro são as capas criadas por JJ Marreiro. No lado “A história do Capitão Gralha”, Iwerten aparece em sua prancheta, ilustrando o capitão e tendo seus quadrinhos ao fundo. No outro lado, em que se conta a história por trás da lenda, Iwerten aparece dentro dos próprios quadrinhos, sendo desenhado por uma mão em estilo realista. As capas representam os dois aspectos abordados na obra: Iwerten como autor e Iwerten como personagem.
O livro traz ainda o processo de criação visual de Iwerten, feita por JJ Marreiro e Fernando Lima a partir de manipulação digital de fotos antigas.
Gian Danton e Antonio Eder fizeram parte do grupo de autores que criou o Gralha e elaborou a lenda de Iwerten e do Capitão Gralha. O livro integra a pesquisa doutorado em Arte e Cultura Visual de Gian Danton realizada na FAV-UFG, sob orientação do professor Dr. Edgar Franco.
Francisco Iwerten – biografia de uma lenda -  será vendido a 20 reais, mas na pré-venda sairá por 14 reais, com frete incluso. A pré-venda vai até o dia 29 de julho, quando os exemplares começarão a ser enviados. Os pedidos podem ser feitos para o e-mail: profivancarlo@gmail.com.

SERVIÇO
Pré-venda do livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder
Valor: 14 reais (frete incluso)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Grafipar, a editora que saiu do eixo


Texto como camada de significado

O texto deve dar uma camada a mais de significado à HQ, indo além daquilo que o desenho mostra.

Um bom exemplo disso é o Surfista Prateado. Ele foi colocado por Jack Kirby na história em que o Quarteto enfrenta Galactus. Para Kirby, Galactus era tão poderoso que deveria ter um arauto, o que não estava na sinopse entregue para por Stan Lee. Para Kirby, o Surfista era um personagem que tinha função apenas decorativa. Mas quando Stan Lee viu o desenho achou que ele se parecia com um filósofo, um profeta, de alma nobre e bons propósitos, que era obrigado a servir Galactus. Stan Lee acrescentou ao desenho de Kirby uma camada a mais de significado que transformou um mero coadjuvante num dos personagens mais interessantes e cults da Marvel.

O mesmo aconteceu com a história A insólita Família Titã escrita por mim e desenhada por Joe Bennett e publicada em diversas revistas eróticas na década de 1990 e finalmente reunida em álbum pela Opera Graphica em 2014.

A história surgiu de um convite do editor Franco de Rosa, que precisava urgente de uma história em quadrinhos de 30 páginas. Nós tínhamos duas semanas para produzir tudo: roteiro, desenho, arte-final, balonamento. Dessa forma, assim que soubemos do pedido, começamos a discutir a trama. A pressa era tanta que nós íamos conversando e o Bené já ia fazendo um esboço das páginas. Ao final, peguei aquele calhamaço e fui colocando texto. Esse processo todo durou menos de uma manhã, pois início da tarde já era necessário dar início à produção do desenho.

A pressa fez com que nós não tivéssemos tempo de discutir sobre a história. O resultado disso foi que eu jurava que o personagem Tribuno era o herói da história. Afinal, ele era o único dos três heróis que queria usar seus poderes para o bem da humanidade. Já para o Bené, ele era o vilão, pois só um vilão  entraria numa jornada de vingança como fez o Tribuno.
Ou seja: o herói estava ali, cometendo as maiores atrocidades, mas eu estava lhe dando motivações, comprando o leitor com meu texto.
A história acabou ficando com uma dualidade ímpar: para alguns leitores, o Tribuno era um tremendo vilão, para outros, era um herói. A mistura de desenho e texto permitiu essa dupla leitura.

O texto e os diálogos, portanto, devem ir muito além da simples narrativa. Devem dar humanidade aos personagens, devem mostrar suas motivações e, principalmente, devem fazer o leitor se sentir dentro da HQ. Os quadrinhos são bidimensionais, mas o leitor deve se sentir dentro de uma história com todas as dimensões possíveis. Deve sentir os cheiros, deve ouvir os sons. Uma boa história é como uma realidade virtual, que transporta os leitores para um mundo em que tudo é possível. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

o que é um Bife no roteiro?


Um roteiro, seja de quadrinhos ou de cinema, não é literatura. Ao contrário de um livro, ele deve ser feito para ser visto.

Quadrinhos e cinema são mídias visuais. O que pode ser mostrado com imagens, deve ser apenas imagem.

Se um personagem é um adolescente que gosta de rock, mostrá-lo num quarto com posteres de banda de rock ou com camisa de uma banda cantando uma canção de sua banda predileta é suficiente para repassar a mensagem. Não há necessidade de um narrador ou um personagem dizendo: "Fulano gosta de rock".

Algumas das melhores sequências do cinema são mudas, como a abertura do primeiro De volta para o futuro, com a sequência no laboratório que nos conta tudo que precisamos saber sobre o Dr. Brown, inclusive que ele roubou o urânio do qual se fala na TV.

Outra abertura genial é a de Dois filhos de Francisco. Toda a sequência inicial, do pai pelejando para conseguir pegar rádio na roça mostra sua paixão por música que será o fio condutor de toda a trama.

Assim, as ações é que contam a história e nos dão a motivação dos personagens. Em Contato, a sequência da morte do pai será fundamental para que a cientista Ellen busque comunicação com outros mundos e, quando os ETs aparecem para ela, sacamos que no fundo sua busca por contato era também uma forma de resgatar o pai (o alienígena aparece com o rosto do pai da cientista).

Maus roteiristas desconhecem isso e tendem a explicar tudo com diálogos ou narração em off. Um roteirista iniciante colocaria, na cena do encontro de Contato, uma narração em off, nos dizendo algo como: "Naquele momento Elleanor percebeu que sua busca por contato era, na verdade, uma forma de voltar a encontrar o pai".

Isso de explicar a história com diálogos é algo tão irritante que ganhou até um nome próprio, uma gíria: bife (alguns também usam muleta).


Maus roteiristas usam e abusam do bife, explicando o tempo todo os fatos ao expectador. Exemplo disso é a novelista Glória Pérez, famosa por adorar um bife. Na novela Caminho da Índia, por exemplo, toda vez que tínhamos uma cena com a psicopata Yvone, na sequência aparecia uma psicóloga explicando as ações da psicopata.


Talvez o exemplo mais famoso de bife, ou muleta, tenha sido uma das cenas finais de Psicose, em que um psicólogo explica o comportamento de Norman Bates. A cena é tão didática que parece uma concessão do diretor, Alfred Hitchcock, para os produtores, no sentido de tornar o filme mais compreensível para a grande massa. Felizmente a cena seguinte, de Norman sentado na cadeira, olhando para o expectador e sua mãe falando por ele salvam o final. Aliás, bastava essa cena final e o expectador entenderia tudo - sem a necessidade do bife psicológico.

PS: Para terminar, uma página de Companheiros do Crepúsculo, de Bourgeon, que exemplifica a força narrativa das imagens.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Letimotiv: o motivo condutor

A cidade de Cartão Postal em Refrão de Bolero muda de significado no final da história. 
A palavra Leitmotiv foi usada inicialmente para analisar a obra de Wagner e pode ser traduzida como "Motivo condutor". 
Em roteiro tem se usado para uma ação ou objeto recorrente que expressa os sentimentos ou estado do personagem, ou até mesmo uma mudança nesse estado.
No filme de Billy Wilder Pacto de sangue, o chefe do protagonista nunca consegue acender o cigarro (e quem acende para ele é o protagonista). No final, quando o protagonista está caído no chão, é o chefe que acende o cigarro para ele. O cigarro aí era a representação primeiro de como o personagem estava conseguindo enganar o chefe, e depois de sua derrota, de sua incapacidade de continuar com a farsa e sua derrota intelectual.
Em Pacto de sangue, o cigarro representa empodeiramento.
Em Refrão de bolero, a expressão "Cidade de Cartão Postal" é usada pela protagonista para se referir a Belém, quando ela está ali como turista. Depois, quando ela foi assaltada e se vê sozinha, sem dinheiro ou documentos numa cidade desconhecida, ela diz: "tudo que tenho é um corte na mão... e uma cidade de cartão postal". A expressão é um Leitmotiv que representa, primeiro, sua impressão de turista sobre a cidade e, depois, sua nova visão sobre ela, o que irá, de certa forma, desencadear o segundo ato.
No filme aconteceu naquela noite, de Frank Capra acompanhamos uma moça rica que está fugindo do pai, indo para Nova York incógnita para impedir que seu pai anule seu casamento com um aviador. No meio do caminho ela conhece um jornalista, que se oferece para ajudá-la em troca de exclusividade sobre a história (o desaparecimento da moça virou notícia nos jornais). Quando o ônibus para, os dois, sem dinheiro, alugam um único chalé e o jornalista estende um cobertor no meio do quarto para separá-los e diz que é a muralha de Jericó. Foi uma forma esperta de Capra burlar a censura da época (afinal, um casal não casado dormindo juntos no mesmo quarto não era bem visto pela sociedade americana), mas acabou se tornando um Leitmotiv que expressava exatamente a tensão entre os dois, inclusive a tensão sexual. No final, do filme, a queda a muralha de Jericó simboliza o fim da tensão e a união sexual dos dois.
A "muralha de Jericó" simbolizava a tensão entre os personagens.
De uma forma menos sutil e mais geral, podemos usar a expressão Leitmotiv para nos referir a uma ação do personagem que revela suas verdadeiras intenções. No meu romance O uivo da górgona, em determinado ponto uma personagem que o leitor imagina simpática e que em outras ocasiões havia acariciado o cachorrinho da históira se abaixa para acariciar o cachorro... e em seguida lhe quebra o pescoço. Esse ato, descrito de maneira seca e sem sentimentos desvela ao leitor a verdadeira natureza da personagem.

sábado, 26 de setembro de 2015

E-book uivo da górgona

O uivo da górgona é uma história de zumbis diferente, em que um som estridente destrói o neocórtex e o complexo límbico das pessoas, transformando-as em seres irracionais, governados pelo complexo R. Além de uma história de horror é uma crítica ao processo, cada vez mais atual de massificação da humanidade. 
O livro está no site de financiamento coletivo Catarse (para quem não conhece, funciona como uma espécie de pré-venda, na qual a pessoa apoia e recebe diversas recompensas). Para acessar o projeto, clique aqui.
Clique aqui para baixar o e-book promocional e conhecer a história. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Gian Danton busca financiamento para livro de terror no Catarse


Um som aterrador soa pela cidade. Quem o ouve tem seu cérebro modificado e se transforma num zumbi, governado pelos instintos mais básicos e violentos do ser humano. Essa é a premissa de O uivo da górgona, livro de terror de autoria do roteirista de quadrinhos Gian Danton que está no site de financiamento coletivo Catarse.
Gian Danton é roteirista de quadrinhos desde 1989. No começo da década de 1990 ficou famosa sua parceria com o desenhista Joe Bennett, em especial nas histórias de terror lançadas em revistas como Calafrio e A hora do crepúsculo. No ano 2000 escreveu a graphic novel Manticore, que transformava o fenômeno chupa-cabra numa trama de horror e ficção-científica e faturou diversos prêmios. Nos últimos anos, além de quadrinhos, tem se dedicado à literatura, participando de diversas antologias de fantasia e terror. Seu primeiro romance, Galeão, é uma história de fantasia sobre um navio à deriva no Atlântico.
O uivo da górgona, embora seja literatura, tem um estilo que ecoa as tiras de quadrinhos com capítulos curtos que terminam em uma situação de suspense que é desenvolvida no capítulo seguinte: “O uivo é resultado de um apanhado de referências, desde meu interesse pelo cérebro humano e os comportamentos coletivos até narrativas como O Eternauta, do roteirista argentino Oeterheld, em que o suspense é usado como elemento fantástico”, explica Gian Danton.
Na história, pessoas que ouvem determinado som têm as células do neocórtex destruídas e passam a ser governadas pelo complexo reptiliano, num comportamento violento e puramente instintivo.
Outra atração do projeto são as ilustrações do desenhista paranaense João Ovitzke, pouco conhecido no meio editorial, mas dono de um traço que combinou perfeitamente com a história de terror. Outro desenhista que estará no projeto será Antonio Eder, antigo parceiro de Gian Danton em várias histórias em quadrinhos.
O livro terá entre 250 e 300 páginas (se uma das metas estendidas for alcançada, o volume contará também com um conto dentro do universo da história) e pede 4 mil reais. Entre as recompensas há outros livros e quadrinhos de Gian Danton. Para apoiar basta acessar o endereço do Catarse (https://www.catarse.me/pt/gorgona) e escolher a recompensa.
SERVIÇO
Livro O uivo da górgona
Endereço no Catarse: https://www.catarse.me/pt/gorgona

Contribuição mínima: 10 reais
E-book promocional http://ivancarlo.blogspot.com.br/2015/09/e-book-o-uivo-da-gorgona.html

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os anos de inventividade do terror nacional

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Idealizado pelo coordenador da Gibicon e sócio da ZnorT! Fabrizio Andriani, o projeto de financiamento coletivo ‘Margem Negra’ capta pelo site Catarse o valor de R$ 21 mil para produzir um álbum histórico que reúne as histórias produzidas pela dupla Gian/Bené nos anos de 1980/90. Com o passar do tempo, o material se tornou um clássico do quadrinho nacional de terror.
À época, tanto Gian Danton (roteiro) quanto Bené Nascimento (desenhos) estavam em início de carreira, na longínqua região Norte do Brasil. Mais tarde, Gian se tornaria um dos mais premiados roteiristas de gibis, com livros sobre a técnica e pesquisas acadêmicas; e Bené passaria a se chamarJoe Bennett, um prestigiado artista da Marvel e da DC Comics, com trabalhos ligados a Alan Moore.
Os gibis produzidos no início da carreira de ambos se fixariam na memória do quadrinho nacional, despertando o interesse de antigas e novas gerações de leitores. Mas as histórias ficariam décadas longe do mercado editorial, permanecendo praticamente perdidas em acervos pessoais e de instituições como a Gibiteca de Curitiba. Graças ao projeto, todo esse material pode vir à luz e retornar, pela primeira vez, em um livro que se chamará ‘Margem Negra’. Leia mais 

Resenha: como escrever quadrinhos

CB - Gian

Como escrever quadrinhos de Gian Danton é um livro que se propõe a abrir a oficina de um escritor e pesquisador de quadrinhos de maneira sistemática e didática. Gian Danton (pseudônimo de Ivan Carlo) além de professor da Universidade Federal do Amapá, possuí uma larga experiência como roteirista de HQs: desde os anos 1990 sua produção incluí obras premiadas como Manticore,e parcerias com desenhistas da envergadura de Joe Bennett e Eugênio Colonnese. Como escrever quadrinhos acaba por ganhar um raro equilíbrio entre a prática do roteirista e a reflexão do acadêmico, algo raro de se ver mesmo em obras consagradas como o Guia oficial DC Comics:desenhos e roteiros de Klaus Janson e Dennis O´neil ou Como desenhar histórias em quadrinhos no estilo Marvel de Stan Lee e John Buscema.

Em seu texto, Gian disseca a arte de criar roteiros para quadrinhos. A precisão conceitual do autor é ampliada pela notável capacidade em ilustrar os termos apresentados com exemplos advindos da sua prática criativa. O que se estabelece é um diálogo vívido entre Gian e o leitor durante toda a leitura. Leia mais

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O clube dos cinco - uma aula de roteiro

Um dos critérios que uso para distinguir se um filme é bom ou não é assisti-lo uma segunda vez. Já ocorreu de filmes em que gostei da primeira e simplesmente não consegui assistir pela segunda vez. E outros que melhoram a cada vez que assisto. Exemplo disso é o Clube dos cinco (filme de 1985, de John Hughes que transformou o gênero teen num fenômeno global) que assisti recentemente no Netflix e assisti de novo quando passou no cinema. 
Ao contrário de muitas imitações que surgiram posteriormente (algumas das quais ainda estão por aí até hoje, a exemplo de Malhação), o filme de Hughes é uma obra-prima em que cada take tem algo de genial, a começar pela sequência inicial. A cena de abertura mostra os cinco estudantes chegando para o sábado em que ficarão de castigo na escola. Nessa única sequência entendemos quem são eles, a relação que ambos têm (ou não) com os pais etc. É um primor de primeiro ato, em que os personagens e a ambientação são apresentados de forma espontânea, simples, mas significativa.
Roteiros sobre pessoas confinadas são os mais difíceis, pois as opções de ação, conflito e desenvolvimento ficam extremamente limitadas. O diretor e roteirista John Hughes no entanto, produziu um roteiro perfeito, em que a cada passo se estabelece um conflito, seja entre eles, seja deles com os pais (que não estão ali, mas acabam tendo grande importância na trama - afinal é um filme sobre adolescentes), seja deles com o professor, seja deles com o grupo que frequentam e as pressões sofridas. E, no final, o conflito é resolvido de forma totalmente orgânica, natural, ao perceberem que, apesar de todas as diferenças, há muito mais em comum.
Se todos os méritos do filme já não valessem assistir, vai mais um: a longa cena da conversa entre os cinco e o depoimento do esportista, aquele que aparentemente é o mais raso de todos, mas acaba se revelando um dos mais sensíveis e a incrível direção com um travelling horizontal que aumenta em muito o impacto da cena.
Enfim, um filme para assistir, assistir de novo e de novo.

Inspeção - Gógol em quadrinhos

Inspeção surgiu de uma sugestão de Gian Danton para que fizessem uma adaptação da peça O inspetor Geral, do escritor russo Nicolai Gógol. A dupla já tinha adaptado outra obra de Gógol (o conto O nariz, que virou a HQ Phobus). Na peça, os políticos corruptos de uma cidadezinha descobrem que irão receber a visita de um inspetor e, quando chega um espertalhão, pensam que se trata dele e passam a fazer de tudo para agradá-lo. Na história da dupla Gian Danton e Joe Benett, são os internos de um hospício que chamam um demônio para libertá-los (e este aparece na forma de um inspetor). Mas, como se diz: cuidado com o que você pede. Sempre há consequências. 
Essas e outras histórias no álbum Margem Negra. 
Apoie esse projeto no Catarse: https://www.catarse.me/pt/margemnegra

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