domingo, 19 de maio de 2019

Grafipar, a editora que saiu do eixo


No final da década de 1970, Curitiba se tornou a sede da principal editora de quadrinhos nacionais. A produção era tão grande que se formou até mesmo uma vila de quadrinistas. No livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, eu conto em detalhes essa história. O livro inclui também algumas HQs publicadas na época e análise das mesmas.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

A morte do Super-homem e o deus ex-machina

A morte do Super-homem é um ótimo exemplo de deus ex-machina

A morte do Super-homem foi um sucesso estrondoso. Vendeu milhões de exemplares na década de 1990. No entanto, a grande maioria das pessoas que comprou na época hoje, ao reler, considera essa uma história ruim do personagem.
A razão disso é um deus ex machina.
Deus ex machina é qualquer solução que não faça parte da lógica da história. É um recurso que destrói o pacto de verossimilhança, pois o leitor percebe que há algo errado ali, algo parece não fazer sentido.
A maioria das pessoas costuma imaginar o deus ex machina como uma solução para salvar o herói. O protagonista está prestes a ser enforcado quando aparece do nada alguém para salvá-lo. Mas a morte do Super-home mostra que o deus ex machina pode ser também o oposto: alguém que aparece do apenas para matar o personagem.
A história dessa saga é atribulada.
Nos anos 1990 o departamento de marketing das editoras exigia eventos sensacionalistas que ajudassem a vender os gibis. A equipe do Super-homem decidiu casar o personagem. Mas surgiu uma dificuldade: na época o homem de aço tinha um seriado live action de sucesso e iria se casar com Lois Lane, mas só no ano seguinte. Se ele casasse nos quadrinhos, teria que ser em sincronia com o seriado.
Foi quando tiveram a ideia de matar o Super-homem. Mas o prazo era curto, então a solução foi simplesmente introduzir do nada um personagem super-poderoso que não fala uma única palavra durante toda a história, derrota todos os super-heróis (sem matar nenhum) e finalmente mata o Homem de aço. Apocalipse parecia ter sido criado com um único objetivo: providenciar a necessidade que os roteiristas tinham de criar um evento bombástico criado não só para vender gibis, mas também bonequinhos.
O personagem Apocalypse surge do nada, apenas para matar o homem de aço.

Um personagem tirado da cartola que derrota todo mundo, mas não mata ninguém além do Super-homem é um ótimo exemplo de um deus ex machina. Uma falha do roteiro que se tornou ainda mais evidente quando o personagem simplesmente voltou da morte.
Na contramão da correria que foi a morte do Super-homem temos uma das melhores sagas dos quadrinhos de super-heróis, a saga da Fênix Negra.
No número 125 da revista X-men, Claremont mostra Moira realizado testes com a Fênix e o diálogo posterior mostra ambas preocupadas que o poder imenso da personagem possa sair do controle. No número seguinte, uma “alucinação” mostra Jean Grey caçando um homem vestido de cervo, o que já demonstra o lado negro da personagem vindo à tona. A personagem pensa: “Um homem?! Eu queria matá-lo! Estava prestes a... o que está acontecendo comigo?”.
A saga da Fênix é um exemplo de solução dentro da lógica da história.

Assim como esse, vários outros indícios de que há algo errado com a personagem vão sendo mostrados até que ela se alia ao Clube do inferno na edição 132. Quando no número 134 ela se transforma na Fênix Negra, uma das maiores vilãs que o universo Marvel já conheceu, o leitor lê e pensa: “Sim, isso faz sentido. Ela era uma heroína, mas eu acomapanhei sua transformação em vilã”.
Claremont e Byrne levaram nove números construindo a lógica da história, de modo que o surgimento da Fênix Negra parece consequência óbvia do que veio antes.
Não é à toa que a Saga da Fênix é até hoje considerada uma das melhores histórias de super-herois de todos os tempos, e parece melhor a cada leitura. Ao contrário da morte do Super-homem.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A ambientação

Um aspecto importante na construção do roteiro é a ambientação. É necessário imaginar onde o personagem  vive, com quem ele se relaciona, como ganha a vida, etc...A ambientação vai acabar, inclusive, influenciando no modo de pensar e agir dos personagens.  Pessoas que vivem num ambiente árido acabarão tendo um comportamento árido (os tuaregs que o digam). Isso é muito claro, por exemplo, na série de álbuns Aldebaran: os personagens vivem num mundo quase completamente dominado pela água. Quando vão para um mundo desértico, tudo muda, inclusive os aspectos culturais. 
                Uma de minhas histórias chamada Vácuo mostra um tripulante de uma estação espacial que se revolta e acaba explodindo todo o local. A claustrofobia provocada  pelos eternos corredores, pelos ambientes fechados, fizeram com que ele "pirasse". Essa mesma ambientação poderia ter o efeito oposto em outro indivíduo. Sentido-se confortável e seguro dentro de um ambiente fechado, ele poderia se sentir um agorafóbico.

                Um exemplo mais famoso: o Batman de Cavaleiro das Trevas é violento porque a Gothan City criada por Frank Miller é violenta.
                Também é importante saber o máximo possível sobre o local em que se vai passar a história. Antes de começar a escrever o tenente Blueberry, Charlier viajou para os EUA e visitou toda a região em que se passaria a HQ. Se você for escrever uma história sobre o Egito e não tiver dinheiro para a passagem, a melhor alternativa é entocar-se na biblioteca e ler tudo o possível sobre os hábitos, costumes e acidentes geográficos da região. Alan Moore conta que, antes de começar a escrever Monstro do Pântano, leu tanto sobre a Flórida que acabou descobrindo algumas coisas curiosas: "Eu sei, por exemplo, que os crocodilos comem pedras pensando que são tartarugas e depois não conseguem digeri-las e essa deve ser a razão pela qual eles têm um temperamento tão irascível", diz.

                Criar uma história que se passe no futuro, num planeta longínquo, ou em um planeta atualmente desconhecido pode livrar você da visita à biblioteca, mas certamente não vai facilitar as coisas para sua imaginação. É necessário, nesses casos, imaginar todos os aspectos dessa sociedade: quem governa, se é que há governo, como as pessoas vivem, quais são os seus costumes, como elas se alimentam...
                Um exemplo fantástico de criação de ambiente é o álbum A Fonte de Cyann, de Bourgeon e Lacroix. Os autores criaram não só uma história para o planeta em que se passa a HQ como, ainda, se preocuparam com detalhes mínimos. Tipo: o lugar da letra O no nome da pessoa determina a classe social.
                Em Cian, quando pessoas importantes morrem, seus corpos são envoltos em barro e jogados no mar. Quanto mais pessoas se unem para impedir a parte final do ato funerário, mais querido era o defunto. Detalhe: a língua falada pelos personagens, embora muito semelhante ao francês, tem suas próprias regras. Para desespero dos tradutores!
                Portanto, se você quiser escrever boas histórias de Ficção científica, ou de fantasia, comece a ler desde já livros de antropologia...

sábado, 11 de maio de 2019

Como escrever quadrinhos


O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A construção de personagens


A construção de personagens tem sido tema de teóricos teatrais, cinematográficos, etc... sem que se chegue a uma conclusão decisiva. De modo que não pretendo dar a última palavra sobre o assunto. Longe de mim. Mas posso dar alguma dicas.
                A primeira delas é aprender a observar as pessoas. Da mesma forma que um desenhista precisa precisa ver um anão para desenhar um anão, um roteirista precisa conhecer e entender um neurótico para poder escrever sobre um personagem neurótico.
                Há um exercício muito útil : observar as pessoas no ônibus. Escolha uma pessoa e comece a observá-la, dando uma de Sherlock Holmes. Através da aparência externa, tente descobrir quem é aquela pessoa, como ela pensa, de onde vem... 
                Por exemplo, se, de noite, você encontra no ônibus uma  garota muito bem vestida, é provável que ela esteja indo para uma festa. Se ela estiver levando cadernos ou uma bolsa grande, essa teoria estará furada, pois pessoas normais não costumam levar cadernos para festas. Pelo tipo de roupa é possível imaginar para que festa ela está indo. Se ela olhar insistentemente no relógio, é provável que a tal festa signifique muito para ela. É provável que nessa festa esteja alguém importante. Um ex-namorado do qual ela ainda gosta, por exemplo. Ela sabe que a festa será uma grande chance para a reconciliação e por isso se sente ansiosa...
                Você pode compor todo um perfil psicológico baseado  nessas especulações. Essa  garota poderá ficar numa espécie de "arquivo mental" para ser usada posteriormente em uma história.
                Outra grande dica é pesquisar livros de linguagem corporal. Na maioria das vezes o corpo fala mais do que as palavras. O escritor policial Dashiel Hammett era um especialista no assunto. Suas descrições detalhadas dos gestos dos personagens muitas vezes indicavam ligações insuspeitas entre estes  que iriam influenciar no final da história...
                Um exemplo quadrinístico. Quem tiver conhecimentos mínimos de linguagem corporal vai percerber que o personagem Rorschach, de Watchmen, é um homossexual e nutre uma paixão platônica pelo amigo Nite Owl.
                Ainda sobre a criação de personagens, é importante ter em mente o que ele significa, o que ele representa. Batman é um homem obcecado pela idéia de ordem. "O mundo só faz sentido se você o força a ter", ele diz em Cavaleiro das Trevas. Batman é o protetor de Gothan e, para cumprir a missão que ele mesmo se incubiu, vale qualquer coisa, até mesmo recrutar uma criança (no caso, o Robin).

                A história Para um Homem que Tem Tudo é um interessante estudo de personagem. Nela, descobrimos que o maior sonho de Super-homem é que Kripton não tivesse sido destruído. O maior sonho de Batman é que seus pais não tivessem morrido. Portanto, se seus sonhos tivessem se realizado, eles jamais seriam super-heróis. Super-homem sente-se um alienígena em nosso planeta, um órfão completo. Já Bruce Waine talvez se sinta culpado pela morte dos pais. Moore expõe sua opinião de que só pessoas neuróticas e infelizes se tornariam super-heróis.
                Os personagens normalmente podem ser divididos em categorias, de acordo com o grau de importância dos mesmos na trama. Assim, temos:

                Protagonista – é o personagem principal, aquele que o leitor irá acompanhar. A história será vista do ponto de vista do protagonista.

                Antagonista – é o vilão, muito comum em histórias de super-heróis e filmes.

                Personagens secundários – são aqueles personagens que convivem com o protagonista e com o protagonista. Boas histórias costumam ter personagens secundários bem desenvolvidos, com uma personalidade e uma história de vida.
                Personagem bucha-de-canhão – essa categoria é uma brincadeira feita entre roteiristas e se refere àqueles personagens que não têm importância nenhuma na trama. Eles surgem na história só para dar o gancho de alguma situação. Pode ser, por exemplo, o assaltante que rouba o dinheiro do protagonista, fazendo com que ele caia numa maré de azar que será o tempero da trama.
                Do ponto de vista da personalidade, os personagens podem ser divididos em:

                Personagem unidimensional – é o personagem que tem uma dimensão, uma só característica que domina seu comportamento. Por exemplo, a Magali é comilona, o Cascão é sujo, a Mônica é brava. No começo dos quadrinhos de super-heróis a maioria dos personagens eram unidimensionais. Na década de 1990, na era Image, também predominaram personagens unidimensionais.

                Personagem bidimensional – são personagens mais elaborados. Nos quadrinhos de super-heróis, um grande responsável por tornar mais bidimensionais os heróis foi Stan Lee. Seus heróis sempre tinham um pé de barro, algo que os fazia mais humanos. Assim, Thor é um ser extremamente poderoso, mas também é Don Blake, um médico aleijado; Demolidor é o homem sem medo, mas também é cego; Homem de ferro é invencível, mas sofre com problemas no coração; o Hulk é um herói, mas também é um monstro incontrolável e irracional.

                Personagem tridimensional – São personagens muito parecidos com pessoas normais, que têm uma personalidade complexa e não podem ser definidos apenas por uma ou duas características. Personagens tridimensionais têm motivações inconscientes, e estudar um pouco de psicologia ajuda a criá-los. Frank Miller, por exemplo, transformou o Demolidor em um personagem tridimensional. Ele acrescentou mais uma camada ao herói ao mostrar que, além de corajoso e cego, ele também tinha ódio do pai por este tê-lo obrigado a estudar ao invés de seguir a carreira de lutador.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Como escrever quadrinhos - ambientacão

O homem que batizou o Noturno: entrevista com Luiz Antonio Aguiar

 

Se você lê quadrinhos, certamente já teve contato com o trabalho de Luiz Antônio Aguiar, por mais que não saiba. Ele foi o roteirista responsável, por exemplo, pela versão em quadrinhos do Sítio do Pica-Pau Amarelo (lembra? Tinha até chamada na TV!). Além disso, ele escreveu muito tempo para a divisão Disney da Abril e fez histórias que devem ter divertido você.
Luiz também teve a oportunidade de trabalhar com personagens próprios na época em que participou de uma das mais famosas revistas do quadrinho nacional, a Spektro, editada pelo OTA, que hoje é responsável pela MAD.
Luiz tem em seu currículo alguns trabalhos curiosos. Na época em que era assistente na RGE, ele ajudou a batizar alguns dos personagens mais queridos dos fãs. Foi ele que batizou o Noturno e a Tempestade e evitou que o Wolverine fosse chamado de Carcaju.
Nesta entrevistas, feita por e-mail, Luiz, que atualmente é escritor de literatura infantil, fala de sua experiência com quadrinhos, explica porque a RGE deixou de trabalhar com gibis e diz que sente falta dos “CA- POU” e dos “ BUUUMM”.

1) Como começou a sua relação com os quadrinhos? O que vc lia? quais eram seus autores prediletos?
Começo em criança. Aprendi a ler no Tio Patinhas e as histórias de Carl Barks sempre foram a minha fascinação. Entrei na Disney pensando sempre em escrever histórias como aquelas. Consegui, mas só algumas.

2) Você, quando era só um leitor, já imaginava tornar-se um roteirista de quadrinhos? 
Nunca, quadrinhos sempre foi curtição para mim. Mesmo hoje, muito afastado do mercado e do ofício, já que me dedico à literatura Infanto Juvenil, continua sendo assim: quero relaxar, pego um Donald.

3) Como você começou a escrever quadrinhos?
Em 77, para pagar minha segunda faculdade. Comecei fazendo roteiros para a Revista do Sítio do Picapau Amarelo, da então Rio Gráfica Editora (que depois virou Globo e foi para São Paulo).


4 – Você começou a escrever a convite de alguém ou foi atrás da editora?
Eu fui atrás. Precisava ganhar dinheiro para pagar o curso de sociologia na PUC (já tinha me formado em Comunicação), até por uma questão de brio. Sabia que o curso não era para valer, era só desculpa para continuar fazendo política estudantil, e não queria descarregar essa em cima do meu pai. Apareci na Editora com um roteiro, que foi comprado, e passei a escrever outros.

5 - O Sítio do Pica-Pau chegou a vender muito, não foi? Pelo que me lembro, tinha até anúncio na TV.... Como era para você essa reação positiva do público? Como foi o seu trabalho na RGE?
Depois, em 79, fui trabalhar como assistente de editora, na RGE. Todas as revistas de lá passaram pela minha mão. Dei nome a um bocado deles, do inglês, inclusive a uns X-Men da vida. O Wolverine, por exemplo, apareceu nas primeiras revistas como Carcaju. Uma aberração. Resolvi apenas deixar como o chamavam em Inglês. Batizei também o Noturno e a Tempestade. Trabalhei, sim, com a Kripta, e foi uma belíssima revista que inspirou muita gente. Quanto ao Sítio, caiu muito a vendagem depois que saiu da tevê, mas ainda se sustentaria. Ocorre que a direção da RGE na época, por incrível que parecesse, não tinha a menor boa vontade com quadrinhos. Queriam todos era deixar de ser editores de quadrinhos, coisa de que não entendiam, nem gostavam, e foram desinvestindo no setor, para abrir outras revistas, muitas delas fracassadas, em outras áreas. Quando a galinha dos ovos de ouro foi finalmente estripada, fecharam 12 revistas, das 15 que havia - isso foi em 83 - e demitiram quase toda a redação. Tempos depois, foram para São Paulo e mudaram de nome e de direção, mas aí já é outra história, que inclui até o Maurício de Souza.

6 - O fato de vc ser um escritor de quadrinhos e literatura deve dar-lhe uma perspectiva interessante. Quais são as diferenças de narrativa?
Na literatura há mais espaço para o texto e, de certa forma, mais flexibilidade para composição de personagens e ritmo de trama, coisas que, em quadrinhos, ficam com o desenhista. Mas sinto falta dos CA-POU! e dos BUUUUUMMM!


7-  Como foi a experiência com a Vecchi?
Excelente, pelas pessoas com quem trabalhei, desenhistas como Júlio Shimamoto, que foi meu parceiro favorito por lá. Depois, fizemos um albúm juntos, Nos tempos de Madame Satã. O Shima era fantástico. Foi a minha chance de começar a criar personagens meus. Fizemos umas séries bastante originais, em terror e faroeste. O Otacílio sempre deu força para a gente criar à vontade. Pena que a Editora foi canibalizada de dentro para fora pelo despreparo e falta de profissionalismo da direção.

8 - Quais foram os melhores desenhistas com os quais você trabalhou? Por quê?
Shimamoto, sem dúvida, pela intensidade que ele acabava dando à história, e Guidacci, com quem fiz o Indecências e desmandos do herói Macunaím em sua passagem pela história da terra-Brasil. O Guidacci é uma verdadeira enciclopédia de recursos de desenho. Ambos são fenomenais. Fiz boas histórias com o Mozart Couto, também, uma revista de histórias de futebol muito manêra, com personagens meus, a Futebol e Raça.

9 – Quais foram os seus últimos trabalhos em quadrinhos? Por que parou de fazer HQ?
Não me lembro bem dos últimos trabalhos, mas creio que foram os Disney, ainda, na Abril, e o que fiz no Estúdio Artecômix, inclusive o Futebol e Raça. Larguei HQ porque o mercado de produção nacional de massa se extinguiu. HQ hoje é cult, muito restrito, a produção nacional, bem entendido, e esse nunca foi o meu barato. Produz-se muita coisa boa, mas eu sempre sonhei mesmo é em ver a garotada comprando aos montes minhas histórias, como eu fazia, e se esbaldando, sem mais nem menos.

10 – Já aconteceu de você entregar um roteiro para o desenhista e o desenhista não entender a proposta e estragar a história? O que você fazia para evitar isso?
 O melhor é ir fazendo junto, coisa que existe pouco no circuito comercial. Pelo menos um contato, uma discussão cena a cena, é sempre bom. Mas o que mais aconteceu comigo foi de o desenhista dar belas interpretações que avivaram o roteiro.

11 – Qual é o segredo para escrever um bom roteiro?
Imaginar a coisa passando na cabeça da gente, é óbvio. Se perder de vista o que está fazendo, não funciona. Tem de conseguir ler o próprio roteiro como se estivesse na revista. Assim, a gente vê o que funciona e o que não funciona. E, ah, sim, lembrar que tudo o que a gente faz bem, literatura ou roteiro de quadrinhos, não faz nem por vaidade nem por exercício de virtuosismo, mas para ser lido por outras pessoas. Senão, é sexo solitário.


12 – Você sente vontade de voltar a escrever quadrinhos?
Sim, se houver uma chance de quadrinhos de massa, muito, muito lidos, voltarem a circular. Hoje, além do Maurício e o que ainda tem do Disney, isso não existe mais. Quadrinhos Cult não são a minha praia, apesar de ter feito o Macunaíma e o Madame Satã, citados em antologias e enciclopédias de quadrinhos. Meu barato seria uma revista que todo mundo pudesse ler, e gostasse de ler, não apenas quem é aficionado em quadrinhos.

domingo, 17 de março de 2019

Charlier, o mestre dos quadrinhos belgas



Um dos meus roteiristas prediletos é o belga Jean-Michel Charlier.
Charlier foi uma das mentes brilhantes que projetaram a HQ franco-belga pela Europa e construiram um gênero que une qualidade a popularidade, pelo menos no velho mundo.
A primeira vez que tive contato com seu trabalho foi no número 21 da série Graphic Novel, da editora Abril, que publicou a primeira história de Blueberry. Quando li a biografia e vi sua foto com o sorriso bonachão, os óculos pendurados e um charuto na boca, disse para mim mesmo: esse é o cara!

Charlier, além de ter um texto genial, era eclético. Escrevia em qualquer gênero, para qualquer desenhista e qualquer faixa etária. Para os desenhos de Uderzo (ilustrador de Asterix) criou uma série de aventuras sobre dois aviadores, Tanguy e Laverdure. 
Para o traço clássico de Hubinon criou uma série infantil, Barba Negra. Além disso, escreveu programas de televisão e reportagens especiais.

Mas sua maior criação foi Blueberry, o cowboy cara de pau, inveterado jogador de pocker. 
O sucesso do personagem não foi só por sua causa. Blueberry juntou o melhor roteirista da Europa com o melhor desenhista do velho continente: Moebius, que começa tímido nos primeiros capítulos e depois solta todo o seu traço detalhista, mais apreciado nas cenas de saloons, nos quais se podia contar 20, 30 pessoas. Cada vinheta de Blueberry é um verdadeiro quadro, a ser apreciado com gosto e atenção.

E Blueberry era um personagem perfeito para os novos tempos: não era um mocinho que sempre fazia o bem, mas costumava se importar com os índios, característica que fez dele um diferencial nos quadrinhos de faroeste. Além disso, bebia e parecia ter tantos defeitos quanto qualidades (anos depois, essa tendência de cowboy humano seria muito bem aproveitada em Ken Parker).
Levei muitos anos vasculhando sebos, encontrando aqui e ali edições portuguesas de Tangui e Laverdure e do Barba Ruiva. E a cada álbum que lia eu me encantava mais. Gostava especialmente do fato de que Charlier não parecia estar querendo fazer uma obra-prima, mas simplesmente contar uma boa história. Roteirista que se levam a sério demais,  que se acham gênios, costumam ser maçantes.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Como escrever quadrinhos - ambientacão

Morre Gloria Katz, que escreveu "Indiana Jones" e "Star Wars", aos 76 anos

Caio Coletti
Colaboração para o UOL
29/11/2018 09h04

A roteirista Gloria Katz morreu no último domingo (25) em Los Angeles após longa batalha contra o câncer de ovário. A morte foi confirmada por seu marido e parceiro criativo, Willard Huyck, para o "The Hollywood Reporter".
Katz ganhou proeminência em 1973, ao trabalhar ao lado de Huyck e de George Lucas no roteiro de "Loucuras de Verão", pelo qual o trio foi indicado ao Oscar.
Anos mais tarde, o lendário cineasta chamou o casal Katz e Huyck para "consertar" partes que ele considerava problemáticas do roteiro de "Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança", lançado nos cinemas originalmente como "Guerra nas Estrelas". Leia mais

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

'História em quadrinhos' de 2 mil anos é encontrada na Jordânia

História em quadrinhos de 2.000 anos. (Foto: CNRS HiSoMA)
Um túmulo localizado no atual território da Jordânia, no Oriente Médio, chamou a atenção de arqueólogos: nele, há 260 imagensordenadas de forma a contar a história da formação da cidade das Capitolias, e provavelmente de seu fundador ali enterrado, com formas arcaicas de balõezinhos de fala que representam uma história em quadrinhos de 2 mil anos de idade. Leia mais

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

domingo, 5 de agosto de 2018

Da criação ao roteiro, de Doc Comparato


Durante muitos anos não existia praticamente nenhuma bibliografia sobre roteiro no Brasil. Sobre roteiro para quadrinhos, nenhuma. 
Então, todo mundo que queria escrever HQs em algum momento se deparando e utilizando na prática do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato. 
Doc Comparato era um dos veteranos da prática do roteiro para cinema no Brasil. Ele escreveu boa parte dos filmes dos Trapalhões (a partir do plot de Renato Aragão) e ministrou as primeiras oficinas de roteiro, das quais saíram inclusive roteiristas de novelas hoje famosos. E seu livro foi um dos primeiros e mais famosos publicados no Brasil sobre o assunto. 
Mas roteiro para quadrinhos é uma coisa, roteiro para cinema é outra. 
Todos os meus amigos roteiristas relatam pelo menos uma situação em que se deram mal usando o livro do Doc Comparato ao esccrever para quadrinhos. 
A minha ocorreu logo no início da carreira. Empolgado com o livro do Doc, resolvi usar um pouco do palavreado técnico que aprendera nele. Assim, em determinado quadro, uma garota invadia o quarto de um homem para espioná-lo. Na descrição da imagem, defini que teríamos uma câmera subjetiva com a personagem principal entrando pela janela de um quarto. 
A câmera subjetiva ocorre no cinema quando a imagem mostra o ponto de vista de um personagem. 
Mas o desenhista não entendeu o que era aquela tal de câmera subjetiva. Resultado: desenhou o quadro da maneira que achou melhor e, para não fugir completamente do roteiro, colocou uma câmera caída no chão do quarto. 
E, de fato, ele não tinha nenhuma obrigação de entender o palavreado técnico de cinema. Afinal, estava fazendo quadrinhos. 
Depois disso usei diversas vezes o recurso de mostrar a imagem do ponto de vista de um personagem. Mas fiz isso explicando na descrição o que eu queria, ao invés de usar um termo técnico de outra mídia.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Congresso irá reunir pesquisadores de quadrinhos da região norte


O Aspas Norte irá acontecer em outubro, na Universidade Federal do Amapá


            A Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) em parceria com o Projeto de Pesquisa História em quadrinhos – UNIFAP realiza entre os dias 25 e 26 de outubro o I ASPAS NORTE – Congresso de quadrinhos da região norte, tendo como tema de fórum “A Linguagem dos Quadrinhos”.  O evento incluirá palestras, oficinas, lançamentos de publicações e a apresentação de trabalhos de pesquisa sobre quadrinhos, O Congresso será realizado no campus Marco Zero da Universidade Federal do Amapá.
O evento terá a participação especial de grandes nomes da pesquisa sobre sequencial, como Iuri Andreas Reblin e Edgar Franco. As oficinas terão como tema “Qualquer um pode fazer quadrinhos”, com Rafael Senra (autor do álbum Balada Sideral), mangá, com Cibele Tenório e Roteiro para quadrinhos, com Gian Danton (ganhador dos prêmios HQ Mix, Angelo Agostini e Araxá, entre outros).
“Nos estados da região norte há muita gente pesquisando quadrinhos, fazendo seu TCC sobre o tema, mas poucos têm condições de pagar passagem para ir a eventos nacionais, como o  Fórum da Aspas e as Jornadas Internacionais de Quadrinhos. Assim, essa é uma ótima oportunidade de apresentar seu trabalho em um evento com o selo da Aspas”, diz o coordenador do evento, professor Ivan Carlo.  
As inscrições para participação como ouvinte e/ou envio de resumos podem ser feitas até o dia 31 de julho no endereço https://aspasnorte.wordpress.com. Os resumos aprovados serão divulgados no dia 15 de agosto. O valor das taxas de inscrição variam dependendo da categoria de participação.
Os interessados em participar da apresentação de resumos devem ficar atentos às regras de formatação, datas e pagamento da inscrição. Os participantes com resumo aprovado, assim como aqueles que optaram em participar do evento com ouvintes terão data limite para a efetivação do depósito com desconto até o dia 23 de outubro de 2018 e deverão enviar comprovante de depósito para o e-mail: aspasnorte@gmail.com. 

Para maiores informações, clique aqui

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