quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pesquisar é preciso

De vez em quando aparece por aí um gênio dos quadrinhos. É o cara que escreveu a história perfeita, e que tem a fórmula para salvar o quadrinho nacional. Conheci muitos desses. Geralmente são uns idiotas muito divertidos, e muito diferentes entre si. Mas a maioria tem uma característica em comum: a total ausência de pesquisa.
Estudiosos do processo de criação dizem que o surgimento de uma nova ideia passa por um processo que começa com uma longa pesquisa sobre o assunto. Essa fase é geralmente chamada de preparação. É uma fase de trabalho duro, em que se procura ler e pesquisar tudo que existe sobre aquela situação. Se, por exemplo, vou escrever uma HQ policial, essa fase engloba a leitura de livros sobre investigação criminal, sobre psicologia, perícia, etc. Também inclui o contato com quadrinhos, livros e filmes sobre o assunto. Com quanto mais material você tem contato, maior a chance de produzir algo criativo. Também é maior a chance de descobrir como o gênero funciona, quais são as suas regras, um conhecimento relevante até mesmo se você quiser quebrar essas regras.
A fase seguinte é a incubação e iluminação. Depois de pensar e pesquisar muito sobre o assunto, a ideia surge, geralmente num momento de descontração. É que toda nova ideia surge do incosciente, que trabalha justamente nesses momentos em que não se está pensando no problema. Mas, da mesma forma que o iconsciente pode lhe dar uma ideia sensacional e original, ela pode lhe dar um plágio ou uma ideia jerico. Para evitar isso, é necessário o último passo: a crítica.
A pesquisa é importantíssima em todas as fases. Sem ter material para trabalhar, o incosciente não cria nada. E, depois, na fase da crítica, se a pessoa não pesquisou bem, pode deixar passar um plágio involuntário, uma pegadinha do inconsciente, que puxou da memória algo que você não se lembra que viu.
Uma vez me apareceu um desses gênios dizendo que queria escrever um romance policial. Aconselhei-o a ler os clássicos do gênero: Conan Doyle, Dashiell Hamett, Raymond Chandler, etc. Ele me respondeu que não iria ler nada disso, pois não queria ser influenciado. Pretendia escrever algo totalmente original.
- Tudo bem, vá em frente! - eu disse.
Meses depois, ele me trouxe o roteiro, um calhamaço de quase 100 páginas. Era a história de um detetive particular pobretão que começava a investigar um caso quando uma mulher linda aparecia em seu escritório. Lá pelas tantas, alguém batiaem sua porta, e, quando ele abria, a pessoa caia em seus braços, esfaqueada.

Ou seja: o roteiro era o chavão dos chavões. Quase um plágio de algumas histórias noir, como as de Raymond Chandler e Dashiel Hammett. O garoto tinha assistido tantas imitações das histórias noir clássicas que seu incosciente se impregnou delas e, como não tinha bagagem cultural para tanto, não conseguiu identificar o plágio involuntário. Para ele, a história era perfeitamente original.

4 comentários:

Marcio disse...

Pesquisa é importante mesmo, mas não podemos nos esquecer do outro lado da moeda (bem mais raro): a pessoa que se deslumbra pela própria pesquisa, e deixa os personagens e a história chafurdarem sob um lamaçal de infodump.

Roberto Denser disse...

Isso não se aplica apenas à roteirização, mas a toda a literatura! Muito comum encontrar boas ideias estragadas por uma falta de pesquisa adequada. Isso é típico dos brasileiros, todo editor sabe disso.

Jorge Stolfi disse...

Mas acho que sua leitura dessa história está equivocada. Eu diria que o rapaz não se estrepou por falta de pesquisa, mas por excesso: por ter assimilado os chavões dos filmes e HQs que ele leu.

Criatividade, na ciẽncia ou nas artes, requer uma dose certa de desprezo pelo que os seus pares já fizeram. Na minha experiência, uma idéia original é como um bebê: precisa de um tempo para crescer e se fortificar, antes de ser comparada com as idéias dos outros.

Fazer pesquisa cedo demais leva voê, sem perceber, a pensar nas mesmas "soluções" que os outros pensaram. A pesquisa de trabalhos similares só deve ser feita depois que a idéia amadureceu.

Aliás, é curioso que em portugues a palavra "pesquisa" significa primariamente "ler o que os outros escreveram"; enquanto que sua suposta tradução em inglês, "research", quer dizer fazer experimentos e cálculos *originais*.

Ton Mattos disse...

Mais me parece impossível ler tudo que temos a disposição. Logo, mesmo alguém que faça a pesquisa correta ainda corre o risco de acabar copiando alguém que não leu. Ainda assim entendi a importancia da pesquisa e é claro que isso diminui a chance de erro.

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