sábado, 22 de agosto de 2009

Em breve: o roteiro de Mulher Diaba


Como sou autor de um livro sobre roteiro de quadrinhos do Brasil, tornou-se muito comum receber e-mails de pessoas querendo enveredar pelos caminhos do roteiro perguntando onde encontrar exemplos de roteiro. Este blog surgiu com esse objetivo: mostrar, além de textos sobre a arte de escrever quadrinhos, exemplos de bons roteiristas. Já tivemos colaborações de alguns dos grandes roteiristas da nova geração, mas faltavam os caras da velha guarda. Faltava. Em breve teremos o roteiro de Mulher Diaba no Rastro de Lampião, de Ataíde Brás, uma das melhores obras da HQB. Se alguém tiver o contato de outros bons roteiristas dos anos 1970-1980, entre em contato para que possamos ter exemplos também dessas feras.
Além de ser um exemplo para as novas gerações, é também uma forma de homenagear essas pessoas que se dedicaram a escrever quadrinhos no Brasil.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fuga - roteiro de Alexandre Lobão

Fuga
Roteiro de Alexandre Lobão, desenhos de E. C. Nickel

Personagens:
Protagonista (Júlio): Jovem forte, sem excesso, normalmente orgulhoso e convencido, porém na história está permanentemente apavorado, olhos arregalados e mãos crispadas.
Vampiros: Ficam sempre no escuro, podendo ser apresentados como sombras individuais ou uma massa de membros, dentes e olhos brilhantes.

A idéia básica da HQ é a seguinte: Um jovem realizou uma aposta com alguns amigos e entrou em uma catacumba em um cemitério, atrás de um crânio. Descobriu um monte de vampiros, que o perseguiram, o alcançaram e sugaram seu sangue, transformando-o em um vampiro. A história começa, mesmo, quando o jovem acorda, no dia seguinte, tendo se transformado em um vampiro, mas sem consciência disto. Assustado por acordar dentro de um caixão e cercado por vampiros, ele mal se lembra da noite anterior, e foge desesperado da catacumba. Os vampiros correm atrás dele, tentando evitar que ele chegue à luz do dia (que o matará, pois agora é um vampiro), porém ele consegue fugir e, só no último momento, ele lembra que foi capturado no dia anterior, e toma consciência de que agora é um vampiro. Tarde demais, pois já chegou à luz, e morre.
A história se passa quase que inteiramente dentro de uma catacumba, em um cemitério, devendo ser, portanto, bastante escura. A narração é realizada através dos pensamentos do personagem principal.

Página 1
O personagem principal está acordando, dentro de um caixão, sem saber onde está nem lembrando de como chegou ali. A sensação de claustrofobia é grande, e deverá ser passada ao leitor pelos textos e imagens (ou falta delas) nos primeiros quadros.
Quadro 1: Todo preto.
Júlio: A consciência vem devagar, acompanhada de um gosto ruim na boca

Quadro 2: Todo preto.
Júlio: Abro os olhos, mas continua escuro. O medo sobe frio pela minha espinha quando percebo que estou preso em algum lugar apertado.

Quadro 3: A partir do ponto de vista de Júlio, vemos o caixão sendo aberto. Boa parte do quadro é escura, enquanto a faixa de luz que entra pelo canto ilumina a mão que empurra a tampa para cima.
Júlio: O ar viciado me sufoca, porém é o pavor que trava minha garganta quando as lembranças começam a voltar, e começo a lembrar onde estou...

Quadro 4: Quadro grande, tomando o resto da página. De um ponto de vista elevado, vemos diversos caixões, de um dos quais está saindo o personagem principal. Júlio está sentado no caixão, apavorado, cabelos bagunçados, roupas sujas e um pouco rasgadas. Outros caixões estão começando a abrir, deixando entrever mãos com unhas compridas, olhos brilhando no escuro e talvez o reflexo de um ou outro sorriso vampiresco.
Júlio: Eu estou ferrado!
Texto: “Fuga”

Página 2
O tom da página é de fuga, velocidade, medo. Júlio corre pela catacumba, enquanto sombras o perseguem. Ao mesmo tempo, ele se lembra da mesma fuga que ele realizou, em circunstâncias semelhantes, no dia anterior. As cenas em flash back devem aparecer em preto-e-branco, com cores esmaecidas ou desenhos diferenciados, para deixar claro ao leitor que são lembranças do passado.

Quadro 1: Júlio pula do caixão e corre apavorado na direção da porta de saída da sala onde se encontra. Os demais caixões começam a se abrir e sombras com grandes dentes começam a sair de seu interior.
Júlio: Eu sabia que esta história não ia dar certo! Quem mandou bancar o macho?

Quadro 2: (Flash back) Júlio, assustado, está de pé à porta, entrando na sala e iluminando os caixões com uma grande lanterna. Os caixões estão se abrindo, alguns já estão abertos e sombras o espreitam a partir da escuridão.
Júlio: Era só entrar aqui e roubar um crânio velho qualquer! Grana fácil!

Quadro 3: Júlio alcança a porta, disparando com os braços esticados à frente e medo no rosto. No chão do corredor está a lanterna que ele segurava no dia anterior. Sugestão: Colocar o ponto de vista próximo ao chão, a partir do corredor em direção à sala (de onde vem Júlio), mostrando em primeiro plano a lanterna, com o vidro quebrado.
Júlio: Como eu poderia imaginar?

Quadro 4: (Flash back) Júlio, assustado, deixa cair a lanterna, enquanto à sua frente as sombras começam a avançar.
Júlio: Quem poderia acreditar?

Quadro 5: Júlio correndo apavorado pelo corredor. As sombras o perseguem, entrando no corredor a partir da sala onde estavam, correndo pelo chão, paredes e teto. Elas correm mais como felinos (em vez de eretas), para aumentar o tom de ameaça e a impressão de velocidade. Pouco se vê das sombras, exceto os dentes e olhos brilhantes.
Júlio: Mas como fui parar naquele caixão??

Quadro 6: (Flash back) Semelhante ao quadro anterior, porém Júlio está mais limpo e seu cabelo e roupas menos bagunçados.
Júlio: Lembro das pernas pesadas como chumbo, enquanto eu tentava fugir. Cada passo, um sofrimento congelando o sangue nas veias!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Artigo: O que o mercado de HQs dos EUA tem contra os roteiristas brasileiros?

Editor-chefe da Marvel explica por que prefere compatriotas. Escritores então dão sua opinião
01/05/2009 Érico Assis

O mercado de quadrinhos dos EUA é hoje movido, em grande parte, por desenhistas nascidos e trabalhando fora do país. Desde os anos 90, o Brasil é um dos maiores exportadores de desenhistas, que trabalham nas pequenas, médias e grandes editoras estadunidenses. Nomes como Mike Deodato, Ed Benes, Ivan Reis, Gabriel Bá, Fábio Moon e vários outros fazem sucesso atualmente lá fora.
E quanto aos roteiristas de quadrinhos estrangeiros? Fora britânicos ou canadenses, aparentemente a entrada de novos escritores no mercado de HQ dos EUA é bastante reduzida. E, segundo uma declaração do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, talvez não seja por falta de tentativa.
Em sua coluna no MySpace, ele diz: "Vemos, quase sempre, que não importa o quanto um escritor seja bom nos quadrinhos em outro país, não existe correspondência aqui. Eles podem chegar do ponto A ao B em uma história tranqüilamente, mas há uma certa cadência, e certos coloquialismos e estruturas de fala, que se perdem. A estrutura da história pode ser diferente também. O que é considerada uma estrutura clássica nos EUA pode não ser visto assim no Japão, ou em qualquer outro lugar. É muito, muito difícil para escritores ir de uma cultura a outra. E, claro, é uma estrada de duas mãos. Penso que vários bons escritores estadunidenses teriam um problemão escrevendo para o mercado estrangeiro. Tenho certeza que eu não conseguiria".
Quesada revela que a única exceção que conhece é o escritor Akira Yoshida, japonês que trabalhou na Marvel com séries como Thor: Filho de Asgard e Elektra: O Tentáculo. O Omelete foi então atrás da opinião de alguns escritores e artistas brasileiros, para saber o que eles pensam da visão de Quesada - que afinal é o representante da maior editora de quadrinhos dos EUA.
Leia mais no Omelete

sábado, 15 de agosto de 2009

Quatro perguntas sobre roteiro

A entrevista abaixo foi publicada no blog Papo de Quadrinhos, do Jota Silvestre. Reproduzo aqui por tratar justamente da construção do roteiro: O professor universitário Gian Danton(pseudônimo de Ivan Carlo Andrade de Oliveira) já recebeu diversos prêmios por seus roteiros, entre eles o HQ Mix de 1999 e 2000, o Ângelo Agostini e o prêmio da Associação Brasileira de arte Fantástica.Ele é autor de vários artigos e livros, especialmente sobre o assunto que mais domina: roteiros. O mais recente deles,Roteiro para Histórias em Quadrinhos, acaba de ser lançado pela Editora Popmídia.Gian Danton responde 4 Perguntas do Papo de Quadrinho:

1) O que caracteriza um bom roteiro para quadrinhos?
Acho que não há uma única resposta para isso, já que existem muitos estilos e muitas formas de fazer quadrinhos. Mas algumas coisas fazem com que um roteiro seja bom. O primeiro, creio, é que o texto toque a pessoa, começando pelo próprio escritor. Alan Moore diz que um roteiro de terror deve dar medo em quem escreve. Também é importante uma boa caracterização de personagens e ambientação. O personagem deve ter uma história de vida, que orienta suas ações no presente. Daí a importância dos flashbacks em Lost, por exemplo. E a escolha do ambiente influencia diretamente nos rumos da história, como em Aldebaran, do brasileiro Leo, em que pessoas vivendo num mundo aquático têm comportamento diferente de pessoas que vivem num mundo árido. A pesquisa também é importante para a construção de um bom roteiro. Se vou escrever uma história sobre o Egito, devo fazer uma boa pesquisa sobre aquele país.

2) Tenho notado que os jovens que ambicionam profissionalizar-se como quadrinhistas são muito mais preocupados com o desenho que com o roteiro. A que você atribui isso?
Infelizmente, o desenho é o que mais salta aos olhos. A maioria começa a comprar quadrinhos por causa dos desenhos. Só que o que faz a pessoa continuar comprando é o roteiro, mas poucos quadrinhistas percebem isso. Veja a Image, que era uma editora de revistas-pôster... Parece que o fracasso da Image não ensinou muito aos novos quadrinhistas que pretendem entrar no mercado. Se bem que essa é uma visão compartilhada até por pessoas de outras mídias. Os desenhistas costumam ser mais valorizados pela mídia do que os roteiristas. Um exemplo: quando foi lançada a revista Mulher Diaba no rastro de Lampião, um jornalista perguntou para o Flávio Colin se ele tinha pesquisado literatura de cordel para fazer a história. O jornalista não percebeu que o roteirista era o Ataíde Bras (este sim, pesquisou muito literatura de cordel para escrever o roteiro).


3) Indique uma HQ que ilustra o que é um roteiro bem construído. Por favor, justifique a escolha.
Nossa, agora você me pegou! Tem tantas... Só de cabeça, eu poderia citar muitas, mas vou me limitar a uma que está em voga: Watchmen. Essa HQ é um dos exemplos mais bem acabados de um bom roteiro. Para começar, Alan Moore usou um estilo de narrativa para cada núcleo ou personagem. Os textos de Rorschach são diferentes dos Contos do Cargueiro Negro, que são diferentes de outros personagens, como o Dr. Manhattan. Só um roteirista absolutamente genial conseguiria dominar tantos estilos ao mesmo tempo.



4) Na outra ponta, cite alguma boa história que foi desperdiçada por um roteiro ruim...
Eu costumo dizer que Alan Moore tem a capacidade de transformar m... em ouro, como fez com o Miracleman. Da mesma forma, tem roteirista que acaba transformando ouro em m... O exemplo mais famoso é A morte do Super-Homem. Poderia ter sido uma grande HQ, mas entrou para a história como um dos roteiros mais sofríveis de todos os tempos. As coisas acontecem sem muita lógica, os personagens parece não ter motivação... sem falar da enrolação que foi aquilo. Deus nos defenda!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Adaptações

Vamos falar de adaptações.
Bem, a primeira coisa que vocês devem fazer é ler com atenção a obra que vai ser adaptada. Essa leitura deve ser feita de forma a tirar do texto aquilo que Alan Moore chama de idéia e eu chamo de tema.
Sobre o que é a história? Vocês podem mudar tudo, podem mudar a ambientação, os personagens, mas o essencial que é o tema deve se manter.
O ideal é que também o tipo de narrativa se mantenha, se você quiser se manter fiel ao autor (e não estiver fazendo uma adaptação apenas para ridicularizá-lo, como faziam os músico da banda Mutantes com as músicas antigas).
Se você for adaptar Viagens de Gulliver, deve se lembrar a todo instante que a história é uma alegoria política. Ao invés de ser uma navegante, o Gulliver de sua história poderia ser uma astronauta, mas, mesmo assim, as situações em que ele se envolvesse deveriam ser alegorias políticas.
Gostaria de me reportar a um caso específico: o livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Esse livro teve uma ótima adaptação para o cinema, nas mãos do Copolla, o filme Apocalipse Now. E eu também me arrisquei a adaptá-lo.
O livro é sobre como situações limites podem mexer com a cabeça das pessoas. É também uma crítica ao colonialismo.
No livro, um homem chamado Marlow está em um navio com outros homens e ele começa a contar a história de quando trabalhava como mercador de marfim nos países que eram colônia da Inglaterra.
O filme de Copola se passa durante a guerra do Vietnã. Minha história é uma ficção científica e se passa em um planeta distante.
Como vocês podem ver, tanto eu quanto o Copolla mudamos a ambientação. Mas a essência se manteve.
Eu defino a essência da história logo na primeira página, quando o personagem narrador diz: Vou contar uma história, senhores. Ela é sobre um homem. A trama e os detalhes talvez não importem. Apenas o homem importa.
No livro de Conrad não acontece quase nada. O mais importante, para Conrad é a descrição psicológica dos personagens e a análise de como eles se comportam em situações limites. Isso foi mantido tanto na minha adaptação quanto na do Copolla.
De resto, há várias diferença e semelhanças entre minha adaptação e a do Copolla. Eu mantive a idéia de uma pessoa contando história para outras. Copolla eliminou isso, mas manteve a narrativa densa, pesada, característica do Conrad.
Também acho importante ser fiel à forma do autor. Na minha adaptação, fiz questão de usar frases que não são características de minha prosa, mas que você encontra muito no livro de conrad. Exemplo: "Mesmo sem o terem visto, vocês se lembrarão dele pelo resto da vida. Para quem o conheceu, talvez a lembrança de seu rosto possa ser levada até para depois da morte".
O livro de Conrad também é sobre a crueldade do imperialismo. No caso dele, o imperialismo britânico. No caso de Copolla, o imperialismo norte-americano. Eu transportei a situação para o futuro para dar à história um caráter mais universal. A empresa de minha história pode ser qualquer grande império.
Ah, como homenagem ao filme Apocalipse Now, eu pedi ao desenhista Jean Okada que fizesse os cenários como se fosse uma espécie de Vietnã alienígena.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Manticore: análise do processo de criação de uma graphic novel

Introdução

A bibliografia nacional a respeito do processo de criação do roteiro de uma história em quadrinhos é praticamente inexistente e o pouco que há escrito e publicado é, na sua maior parte, de autoria de estrangeiros. Talvez isso se deva ao fato de que o roteiro sempre foi um aspecto menos valorizado nas pesquisas a respeito da arte sequencial. Poucos pesquisadores se interessaram em entender a dinâmica e o funcionamento de um roteiro de quadrinhos.
Essa carência de estudos tem se refletido na atividade produtiva, pois a acumulação de experiências e sua transmissão a novos talentos têm sido a base das principais escolas de quadrinhos, seja a americana, a argentina, a européia ou a japonesa. No Brasil, ao contrário, cada geração é obrigada a “reinventar a roda”. Assim, o que me proponho aqui é fazer uma análise do processo de construção de um roteiro de HQ. O objetivo é o mesmo que levou Edgar Allan Poe a escrever o texto Filosofia da Composição, análise do seu poema O Corvo:
“Muitas vezes pensei o quão interessante podia ser escrita uma revista por um autor que quisesse - isto é, pudesse - pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento.”
A escolha do objeto recaiu sobre a história Chupacabra, graphic novel em duas partes publicada como Manticore Especial, pela editora Monalisa, de Curitiba. A história é de minha autoria (com pseudônimo de Gian Danton) em conjunto com o desenhista Antonio Eder Semião. Se por um lado tal escolha peca por falta de distanciamento, já que o roteirista é também o analista, ganha-se em detalhes do processo de construção da obra, o que por si só justifica a escolha.
Como não é possível, num espaço tão curto, fazer uma análise abrangente da HQ, será dada prioridade a alguns aspectos, tais como criação de personagem, gancho, trama, suspense e forma.
PERSONAGENS

A história Chupacabra surgiu da iniciativa de um editor de Curitiba, que pretendia lançar uma revista em quadrinhos aproveitando a popularidade do personagem. Ele chegou a produzir um esboço no qual uma nave espacial caía na Terra e dela saía um extraterrestre. A sequência mostrava o ET pensando se deveria ou não sugar o sangue de uma ovelha.
Nossas considerações partiram desse esboço. Primeiramente decidimos que, se a história deveria seguir uma linha de suspense e ficção científica, não convinha mostrar o ET pensando. Isso por duas razões. A primeira delas referia-se ao fato de que seria impossível, ou muito difícil, reproduzir a lógica do pensamento de um extraterrestre. Uma tentativa nesse sentido corria o risco de cair no ridículo, o que não era nosso objetivo. A segunda razão é que queríamos deixar em suspense a origem da criatura, incitando a imaginação do leitor e criando um gancho para o segundo capítulo da história. Tudo isso nos levou a uma opção por um discurso indireto para a criatura, como pode ser percebido no texto inicial, que, aliás, destaca justamente a dificuldade em se reproduzir o discurso de um ser não humano:
“ Este não é o seu mundo. Ele não entenderia nosso raciocínio e sua lógica seria tão estranha para nós quanto um quebra-cabeça caótico. Ele não é deste mundo. Mas se falasse nossa língua, suas preocupações poderiam ser resumidas em uma única palavra... fome.”
Entretanto, precisávamos de um personagem que fosse o fio condutor da história. Alguém com quem o leitor pudesse se identificar e compartilhar de suas dúvidas. Optamos, então, pela criação de um detetive, Milton Flamel, que seria contratado para descobrir o animal. Embora não seja nosso objetivo fazer uma análise da história do ponto de vista da teoria da literatura, podemos recorrer à classificação de Norman Friedman para a caracterização da narração a partir do ponto de vista do detetive. Nosso personagem se encaixaria, assim, no modo narrador-testemunha.
A personalidade do detetive é apresentada na primeira fala, quando ele se diz céptico. Isso servia a nosso propósitos, uma vez que pretendíamos incutir a dúvida na cabeça do leitor, fazendo-o perguntar: “Quem, ou o que é o Chupacabra?” e, finalmente “Ele realmente existe, ou é uma fraude?”.
Mas, como pretendíamos realizar uma graphic novel e uma das características desse tipo de obra é a profundidade no tratamento dos personagens, convinha que o personagem não fosse bidimensional. Assim, ele também tem seus momentos de crença. Quase sempre, quando pensa no Chupacabra, ele o faz em referência a algum personagem mítico típico das histórias infantis:
“Quando criança, eu nunca acreditei em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa. Eu ria de quem me falava em Bicho-Papão. Eu sabia que não havia nada embaixo da cama... nada dentro do armário. Nenhum segredo... Nenhum mistério. Eu sempre acreditei em meus olhos. Mas agora... mal consigo acreditar... em meus olhos. “
Embora identifique a criatura que está perseguindo com um pesadelo infantil (ele inclusive sonha com o Chupacabra), ele teme que seus sonhos se tornem realidade.
Há uma certa regra não formulada de que os personagens principais devem aparecer nas primeiras páginas da história. Assim, depois do Chupacabra e do detetive, providenciamos a aparição do fazendeiro (O Coronel) e do velho (Nicolau Batzin).
Devo admitir, quando criamos esses dois personagens, não tínhamos a menor idéia da importância que eles teriam na trama, em especial na segunda parte da história. Eles surgiram por uma pura questão de conveniência. O fazendeiro era o motivo para que o detetive saísse à caça da criatura. Precisávamos de alguém que contratasse o detetive e, no processo de elaboração do esboço, à medida que discutíamos os personagens, percebemos que o fazendeiro seria um ponto chave na trama e decidimos colocar um gancho ali, em sua primeira aparição, para de certa forma avisar o leitor disso.


O velho surgiu porque precisávamos de alguém para contracenar com o Chupacabra. Alguém humano e cujas reações fossem previsíveis para nós. A sua própria presença nos permitiria trabalhar a criatura mais próxima de algo humano. Além disso, o velho nos permitiria deslocar o Chupacabra para Curitiba, um cenário que conhecíamos melhor.

GANCHOS
A aparição desses dois personagens dá origem aos primeiros ganchos da história. Numa HQ os ganchos são aqueles fatos aparentemente irrelevantes, mas que acabam “puxando” acontecimentos importantes. Eles funcionam como uma espécie de aviso ao leitor. No caso de uma história policial, por exemplo, o gancho pode ser aquele momento, aquele acontecimento que deverá ser usado pelo detetive, mais tarde para desvendar o mistério. Seria desonesto o detetive descobrir quem é o criminoso graças a fatos que o leitor desconhece. Numa história de aventuras, por exemplo, o herói está preso no meio do inimigo, prestes a ser sacrificado. Então aparecem seus amigos e o salvam. Seria desonesto para com o leitor se esses amigos do herói aparecessem apenas nesse momento. O bom roteirista os introduziria anteriormente na trama e os faria sair da história, com a recomendação de que voltariam a qualquer momento. Assim, quando eles aparecessem para salvar o herói, o leitor não se sentiria lesado.
Na primeira aparição do fazendeiro, temos o primeiro gancho da HQ. O detetive percebe que o fazendeiro é, na verdade, um militar e esse fato tem importância significativa na história. Estrategicamente, essa cena foi colocada nas primeiras páginas, antes de uma cena de ação, para que o leitor se esquecesse dela.
O segundo gancho é aparição do velho Nicolau. Ele conduz a criatura para sua casa e lhe mostra um livro no qual há um desenho de uma espécie de dragão. A cena conota que há uma explicação mítica para a criatura.
Esses dois ganchos dão conta de dois aspectos importantes da trama: 1) qual a origem do Chupacabra; 2) porque e por quem ele está sendo perseguido.
Outros ganchos são acrescentados a seguir. Na página 8 aparece um helicóptero não identificado. Na página 10 alguém liga para Nicolau e diz: “Soube que você está vindo para Curitiba e está trazendo companhia. Talvez a coisa seja maior do que imaginávamos”.
Claro, todos esses ganchos não trazem informações suficientes para que o leitor decifre toda a trama. Na verdade, eles servem mais para incitar a curiosidade do mesmo. Mas eles permitem também algumas conclusões. Permitem, por exemplo, que se deduza a existência de dois grupos interessados na criatura, um formado por místicos, outro por militares, ou para-militares. Permitem que se perceba a existência de outros Chupacabras e nos conduzem a uma possível explicação mítica para a existência da criatura.
O objetivo é que, ao se deparar com uma situação importante e, de certa forma, inusitada, o leitor volte ao momento do gancho e diga algo como “Oh, sim. Claro. Como não percebi isso antes?”. As melhores histórias, as tramas mais trabalhadas têm essa característica de adiantar ao leitor o seu próprio encaminhamento.

SUSPENSE
Um outro aspecto que se torna importante na história é a questão do suspense, já que essa era a principal sensação que queríamos incutir ao leitor. Embora tenhamos procurado trabalhar situações de suspense em toda a trama, a maior carga de suspense, no primeiro capítulo, pode ser encontrada no final, quando o detetive finalmente confronta-se com o Chupacabra. Nessa situação nós brincamos com os nervos do leitor, fazendo-o ficar, primeiramente tenso e depois relaxado, para só depois desencadear a ação.
Quando o detetive está dentro do carro e ouve o barulho lá fora, o leitor sabe, ou imagina saber, que algo vai acontecer. Entretanto, como a sondagem se revela infrutífera, o leitor se deixa convencer pelo texto, passando a acreditar que não existe mais perigo.
Surpreender o leitor é uma das regras das histórias de suspense e isso ocorre quando o Chupacabra aparece refletido no espelho do carro.


Nós, então, enganamos novamente o leitor, fazendo-o acreditar que a criatura foi morta. Para isso, usamos um artifício maroto: nós simplesmente não mostramos os eventos que estão sendo narrados. A narrativa visual foca-se no detetive e o leitor é obrigado a acreditar na sua versão dos fatos. Com isso exploramos ao máximo as possibilidades tanto do texto, quanto do desenho, fazendo com que esses não sejam redundantes.
Dessa forma, criamos o efeito de suspense. Para Isaac Asimov, “o que é necessário para que haja suspense é uma ‘insuficiência de informações’”. Assim, o leitor se sente aflito não porque o personagem vai ser morto, mas porque não sabe se ele irá morrer ou se salvar. É essa falta de informação que cria o suspense da cena e o fato de não se mostrar o Chupacabra amplia ainda mais o efeito.
Asimov, entretanto, lembra que “tanto a falta de conhecimento quanto o conhecimento total acabam com o suspense”. Em outras palavras, se o leitor não soubesse que o personagem corre perigo, não haveria suspense. O leitor precisa, portanto, ser avisado de que a situação é perigosa. No cinema isso é feito através da trilha sonora, que providencia um clima de tensão para a cena. Na HQ, como não há trilha sonora, esse efeito é conseguido através do texto.
No outro extremo estaria o leitor que tivesse certeza a respeito da morte do detetive. Esse também não experimentaria qualquer suspense. Embora a maior parte das pessoas tenha gostado do final, um amigo meu criticou-o duramente. Para ele o final era previsível.
A razão disso é simples. Ele já havia lido muitas de minhas histórias e sabia de minha compulsão por matar os protagonistas de minhas histórias. Assim, ele já esperava a morte do personagem, sendo o final redundante para ele, enquanto o mesmo final é informativo para a maioria dos leitores...

O TEXTO
Depois de analisar os aspectos mais relacionados ao conteúdo, nos deteremos aqui sobre os aspectos da forma, aqui entendida como a maneira como se constrói o texto e os diálogos.
Uma simpática jornalista belenense, resenhando a publicação, escreveu: “ ‘Chupacabras’ traz sequências bem construídas e diálogos cuidadosamente encadeados”.
Como disse, muito simpática, pois me atribuiu um talento que não tenho, ou seja, de construir bons diálogos. Esse defeito fez com que a história tivesse predominância de textos. É natural que um escritor trabalhe suas limitações, transformando-as em qualidades. Alexandre Dumas recebia por linha e, por isso escrevia monumentais e inesquecíveis romances. Borges, sendo cego, precisava construir mentalmente seus contos e decorá-los para depois ditá-los à secretária. Isso o transformou no mestre da literatura sintética.
Da mesma forma, a dificuldade com os diálogos fez com que eu trabalhasse mais as legendas. Assim, há vários tipos de legendas na HQ, numa visível predominância destas sobre os diálogos.
O narrador principal do primeiro capítulo é o detetive e ele o faz em primeira pessoa, no tempo presente. Essa escolha não foi de modo algum aleatória, pois um narrador no presente é muito pouco onisciente, e tínhamos interesse que fosse assim para preservar o suspense sobre algumas questões. Mas há outra razão. Queríamos, também, com esse tipo de texto, forçar uma associação com os romances policiais noir, que em geral eram narrados dessa maneira.
O nosso detetive é, portanto, um detetive noir. Ele não senta em sua poltrona e procura decifrar o enigma através de seu raciocínio lógico, como certamente faria Sherlock Holmes. Ele se envolve nos acontecimentos e, embora seja bastante perspicaz (como demonstra a cena em que ele descobre que o fazendeiro é na verdade um militar), sua capacidade de raciocínio não parece extraordinária.
A narrativa é caótica: os fatos são mostrados de várias maneiras, formando o chamado caos semiótico. As sequências do Chupacabra são acompanhadas de um texto em terceira pessoa, há as sequências do documentário de TV (essas, escritas pelo desenhista Antonio Eder), há a lenda inca, que conta a origem do Chupacabra e há um momento (página 5 do primeiro capítulo) em que o texto representa o pensamento de Nicolau.
Há uma única sequência do primeiro capítulo que é narrada apenas com diálogos. Trata-se da operação militar na caverna de Minas Gerais. A escolha pelos diálogos se deveu a dois motivos: 1) Provocar uma quebra na história, mostrando que se tratava de uma cena independente; 2) Evitar que o leitor se identificasse com qualquer um dos personagens militares.
Esse segundo item deve-se ao fato de que o texto, a legenda, implica em alguma cumplicidade do leitor e do autor com o personagem. No caso do detetive, por exemplo, o leitor comunga de seus pensamentos, e passa a se identificar com ele. Como consequência, sua morte no final do capítulo será sentida com grande intensidade, enquanto que a morte dos soldados é vista apenas como uma notícia de jornal. Há um distanciamento.
Essa não identificação com determinados personagens é, inclusive, aconselhada por Platão: “O homem ponderado, segundo me parece, quando tiver de se referir, numa narração, uma frase, ou uma ação de um homem bom, procurará exprimir-se como se fosse esse homem (...) E quando tiver de falar de um homem indigno dele, não se permitirá imitá-lo a sério”.
Da mesma forma, quando, no segundo capítulo, me referi ao novato que espera por Nicolau em sua casa, dei a palavra a ele. Ele demonstra sua aflição diante da ausência de Nicolau e do Chupacabra, preocupação essa que é compartilhada pelo leitor, que não os vê desde o final do primeiro capítulo e não sabe o que aconteceu com eles.
Mais tarde, no final do segundo capítulo, ele é escolhido para narrar os acontecimentos posteriores ao contato com os extraterrestre. O texto poético e as informações a respeito de uma visão otimista de futuro levam a uma identificação com o leitor: “O céu é um campo de girassóis dominado pela luz prateada de nossas naves. Quarenta minutos. Esse é o tempo que nos separa do planeta rodeado por quatro luas” .
Por outro lado, quando precisei me referir ao Coronel, também no segundo capítulo, para contar sua história, eu o fiz em terceira pessoa, forçando um distanciamento. Queríamos que ele fosse uma espécie de figura mítica, um arquétipo da teoria da conspiração, influindo diretamente nos principais acontecimentos da história brasileira nos últimos 50 anos. Sua caracterização é feita já nas primeiras frases:
“Ele se recosta calmamente no banco, acariciando a maleta de armas. O Coronel é um homem convencional. Ele acredita na permanência, não na mudança. Tudo deve continuar como está. Cada coisa em seu lugar. Nada de mudanças”.
Notem a insistência na frase “nada de mudanças”, que se repete por todo o texto. Isso faz com que o leitor tenha uma predisposição negativa com relação ao personagem, já que na cena anterior o velho já havia convencido esse mesmo leitor da necessidade de se mudar um modelo de sociedade baseado na destruição da natureza, na desigualdade social e no consumismo: “Este é um mundo moribundo. Não temos muito tempo até que chegue o fim”.
O texto constantemente é a caracterização do estilo de um autor. Como já disse Borges, o estilo é formado pela redundância de certos temas, certas predileções. Quando fazia o 'letreiramento' da segunda parte da história, o letrista comentou, acertadamente, que tenho uma certa empolgação pelas cenas de delírio, ou sonhos.
De fato, minhas cenas prediletas, em termos de texto, são o sonho do detetive no primeiro capítulo e o delírio de Roberto antes de ser morto, no segundo capítulo. Esse é o tipo de cena que não precisa ser real, permitindo ao roteirista soltar sua imaginação. Eis o texto do sonho:
“Eu tive um sonho. Sonhei que estava num ônibus e havia um extraterrestre entre nós. Era uma figura estranha. Um vulto que se esgueirava entre os cantos. O motorista abria a porta e a criatura fugia... a multidão corria atrás dela, tentando pegá-la. Eu corria junto com eles, gritando por sangue alienígena. Então, em um momento, eu me tornava o alienígena e me sentia como ele se sentiria, sendo perseguido por uma multidão enfurecida”.
O texto, como se vê, narra acontecimentos de forma condensada, sumariando em quatro quadro o que poderia ser mostrado em quatro páginas. Baseados na distinção de Lubbock, poderíamos batizar essa categoria de texto de sumário.
Observe-se que, embora narre a história, o sumário não é redundante em relação ao desenho. Não é uma daquelas situações em que o desenho mostra Flash Gordon socando Ming e o texto diz: “Flash dá um soco em Ming”.
Enquanto o texto se refere ao pesadelo, o desenho mostra a cidade com o sol nascendo e, depois, o detetive se levantando da cama. Essa não redundância aumenta em muito a quantidade de informação da página. (Como ensina a cibernética, quanto menor for a probabilidade de uma mensagem ocorrer, maior será a sua carga de informação. Ou seja, quanto mais inusitada a mensagem, mais informação ela terá. No caso da cena analisada, o texto óbvio e menos informativo seria algo como: “O sol se levanta sobre a cidade. O detetive acorda. Ele está preocupado com o Chupacabra”. Tal texto acrescentaria muito pouco ao desenho, sendo redundante com relação a este).

BIBLIOGRAFIA

ASIMOV, Isaac. Suspense II in Isaac Asimov Magazine 23. Rio de Janeiro, Record
COMPARATO, Doc. Roteiro: Arte e Técnica de Escrever Para Cinema e Televisão. Rio de Janeiro, Nórdica, 1983.
DANTON, Gian et alii. Manticore Especial parte um. Curitiba, Monalisa, 1998
------------------. Sequência Especial, 2: A Difícil Arte de Escrever Quadrinhos. Curitiba, autoral, 1997.
EPSTEIN, Isaac. Teoria da Informação. São Paulo, Ática, 1986
TALENTO do Pará em revista. O Liberal, Cartaz, 03.02.99, p. 6
LEITE, Lígia Chiappini Moraes. O Foco Narrativo. São Paulo, Ática, 1994
LYPSZYK, Enrique. História em Quadrinhos e Seu Argumento in MOYA, Álvaro. Shazan!. São Paulo, Perspectiva, 1977.
MOORE, Alan. On Writing for Comics - Parte one in The Comics Journal, 119. Janeiro de 1988, p. 91-95.
MOORE, Alan. On Writing for Comics - Parte two in The Comics Journal, 120. Março de 1988, p. 99-102.
MOORE, Alan. On Writing for Comics - Parte three in The Comics Journal, 121. Abril de 1988, p. 133-137.
POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Rio de Janeiro, Aguilar, 1965

domingo, 26 de julho de 2009

O que é um roteiro e para que serve


Durante algum tempo da história dos quadrinhos, desenhista e roteirista eram a mesma pessoa. Em outras palavras, havia um só artista, que bolava a história, escrevia, desenhava e, em alguns casos, até fazia o letreiramento.
Mas com o tempo foi possível perceber que nem todo bom desenhista é também um bom roteirista. Para ser bastante sincero, logo ficou claro que alguns desenhistas eram quase analfabetos.
Foi quando surgiu a figura do roteirista. Creio que o primeiro grande roteirista foi Lee Falk, autor de Mandrake e Fantasma. Falk criou verdadeiras lendas e tinha total controle sobre elas. Mas como ele podia fazer isso? Afinal, ele era apenas o escritor... Como ele poderia fazer com que o desenhista ilustrasse a história exatamente como estava em sua cabeça?
Se você respondeu “através do roteiro”, ganhou um doce.
O roteiro é uma invenção genial. Ele permitiu que uma pessoa incapaz de desenhar um círculo fizesse quadrinhos. Ele permitiu que artistas que não se conhecem, e nem mesmo moram no mesmo país, possam trabalhar juntos. E, finalmente, o roteiro abriu a possibilidade dos quadrinhos alcançarem uma qualidade literária e gráfica inimaginável.
Portanto, o roteiro é um veículo através do qual o escritor consegue orientar o desenhista, levando-o a ilustrar a história exatamente como ele imaginara.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Os roteiristas de novelas

Hoje eu estava conversando com o Jefferson, conhecido como Kaverna, sobre roteiristas, e a gente falava dos roteiristas de novelas. A gente falava das qualidades e defeitos de cada um. Um dos problemas é a repetição dos temas:
Benedito Rui Barbosa sempre faz o Rei Lear;
Agnaldo Silva sempre faz Romeu e Julieta;
Walcyr Carrasco sempre faz A Megera Domada.
Borges dizia que o cara começa a ter estilo quando começa a se repetir, mas sei não... O Dias Gomes era mais eclético, embora fosse muito influenciado pelo realismo fantástico.
E, quando o assunto é diálogos, Benedito Rui Barbosa é sempre um mestre. Parece que estamos vendo duas pessoas reais falando...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Em defesa dos roteiristas de quadrinhos

Na época do lançamento da graphic novel Mulher diaba no rastro de Lampião, um jornalista especializado da Folha de São Paulo entrevistou o desenhista Flávio Colin e perguntou se ele havia pesquisado literatura de cordel para escrever a história. O entrevistador ignorou completamente que a história havia sido escrita pelo roteirista Ataíde Brás, que pesquisou profundamente o cordel e fez nesse trabalho o que seria sua obra-prima.
O caso mostra bem a forma como os roteiristas têm sido vistos no Brasil por jornalistas, editores e fãs. Em Macapá existe um rapaz que dá aula de quadrinhos nas quais ensina que, para escrever uma HQ, não é necessário ter qualquer tipo de preparo intelectual... basta saber desenhar. Suas opiniões não são uma anomalia, mas, ao contrário, expressam uma opinião dominante.
Quando a Tiazinha começou a fazer sucesso e surgiu a proposta de fazer um programa de TV exclusivo para ela, alguém teve a idéia de colocar no programa elementos dos gibis. Para que isso acontecesse, chamaram para fazer o roteiro... um desenhista de quadrinhos. O resultado vergonhoso todos nós vimos: uma história sem pé nem cabeça que fez os fãs terem saudades da época em que a Tiazinha apenas desfilava com lingiere e depilava a perna de marmanjos.
A importância dos roteiristas, em outros países, é mais do que provada. Alguns roteiristas, como Goscinny, Stan Lee e Alan Moore tornaram-se estrelas, de modo que seus nomes na capa conseguem, por si só, garantir as vendas de uma revista. Neil Gaiman mostrou, em Sandman, que uma revista podia vender muito bem mesmo sem ter desenhistas talentosos. Os primeiros ilustradores de Sandman eram, no máximo, competentes, mas mesmo assim a revista chegou a vender tanto quanto a do Superman.
O lançamento de obras desses roteiristas costumam ser acompanhadas, no Brasil, de grande divulgação. É comum dar mais destaque ao roteirista que ao desenhista. Mas esses mesmos editores e jornalistas têm uma visão diferente quando se trata do roteirista nacional. Um editor me confidenciou, certa vez, que, se pudesse, publicaria apenas histórias sem texto, apenas com desenhos, pois o roteiro, para ele, era irrelevante. Isso acaba se refletindo até mesmo nos créditos. Quando a graphic gótica A hora do crepúsculo foi lançada, o texto da capa dizia: Texto e desenhos de Bené Nascimento. No miolo, todas as histórias tinham roteiro meu.
Quando a história "Siren" foi lançada na coletânea Brazilian Heavy Metal, os editores simplesmente esqueceram de me creditar como roteirista.
Recentemente foi lançado um álbum com histórias minhas. O material promocional citava apenas o nome do desenhista e nenhum dos jornalistas que resenhou a obra percebeu que várias das histórias publicadas não tinham sido escritas por ele.
À falta de reconhecimento alia-se os problemas com desenhistas. Todo roteirista tem uma quantidade enorme de roteiros escritos e nunca aproveitados porque os desenhistas simplesmente abandonaram o barco. A situação é pior quando os personagens foram criados pelo desenhista, o que torna impossível apresentá-los a outro artista.
Tenho mais de mil páginas escritas e que nunca serão aproveitadas. O tempo gasto na produção desses roteiros dava para fazer uns três romances. O sistema das editoras brasileiras, de aceitar apenas projetos prontos, privilegia os desenhistas-escritores e torna quase impossível para o roteirista apresentar projetos.
Em países nos quais a editora compra o roteiro e contrata um desenhista para ilustrá-lo, isso permitiu o surgimento de ótimos roteiristas.Em todos os países do mundo em que os quadrinhos apresentaram um grande desenvolvimento, há a figura central de roteiristas. Na Argentina, os quadrinhos se estruturaram a partir do roterista Héctor Germán Oesterheld, ganhando não só reconhecimento popular, como os aplausos da crítica. Na França, Goscinny (Asterix) e Charlier (Blueberry) elevaram os quadrinhos ao mesmo nível da literatura. Nos EUA, Stan Lee criou o fenômeno Marvel, com personagens como Homem-Aranha e X-Men, que hoje rendem fortunas para Hollywood. Lá, a reclamação é exatamente oposta: os desenhistas, como Jack Kirby e Steve Ditko, reclamam que seus nomes não tiveram tanto destaque quanto o de Stan Lee. Na Itália, os Bonelli (pai e filho, ambos ótimos roteiristas) transformaram o fumetti em um fenômeno cultural. No Brasil, nenhum roteirista jamais se destacou. Seria por falta de qualidade? O escritor Júlio Emílio Braz, após deixar os quadrinhos, dedicou-se apenas à literatura juvenil, ganhou o prêmio Jabuti e hoje é um dos escritores de paradidáticos mais requisitados do país. Outros foram para a publicidade, para o jornalismo, e se destacaram nessas áreas. Mais cedo ou mais tarde, os roteiristas vão abandonando o gênero e se dedicando a outras áreas. Eles o fazem após constatar uma verdade triste: fazer quadrinhos no Brasil é coisa de quem sabe desenhar. E só. Não há espaço para roteiristas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

As novas Amazonas - Roteiro de Leo Santana


Página 4 do roteiro HOMEM BOM É HOMEM MORTO, das personagens AS NOVAS AMAZONAS, criadas por Leonardo Santana e Ricardo Anderson.

História publicada originalmente na revista especial A MOSCA NO COPO DE VIDRO.

Quadro 1
Plano médio frontal fechado em Jasmin, Helena e Olímpia. Embora em aparente alerta, nenhuma delas está com uma arma em punho.
Helena: Você vai deixar a garota em paz ou então ...
Helena: ...hoje, você grita, e a gente se diverte!
Quadro 2
Plano médio frontal fechado no líder do bando apontando a arma, furioso, para frente (em direção a Helena que não aparece na cena)
Líder: Quem vocês pensam que são, suas piranhas malucas?
Líder: Não viram que nós somos mais fortes, estamos armados e estamos em maior número?
Quadro 3
Close em Helena sorrindo tranqüila e maliciosamente.
Helena: É, mas nós somos mais inteligentes!
Quadro 4
Close no líder levando uma flechada na cabeça vinda da direita para a esquerda e de cima para baixo(ou seja, atingindo o crânio do homem logo acima de sua orelha direita e saindo pelo outro lado logo abaixo da orelha esquerda) e deixando a arma bailar em sua mão enquanto seus olhos reviram para cima.
Onomatopéia: TCHAKLíder: urgh ?!?

sábado, 30 de maio de 2009

Roteiro de Matheus Moura


ABIGAIL
Publicado pela primeira vez em 1987 em Vinil por RoadRunner Records
História original: King Diamond
Roteiro e adaptação: Matheus Moura

RESUMO DA HISTÓRIA: A história se passa em 1845, e não situo um lugar especifico, dou a entender que seja no Brasil, já que há um coronel, avô de Jonatan. Jonatan e Mirian são um casal recém casados que herdam do avô de Jonatan uma mansão/casarão que fica em uma colina afastada de grandes centros urbanos. A mansão é assombrada por duas figuras distintas, o fantasma do coronel e a demoníaca Abigail, a filha natimorta do coronel, que nasceu originalmente em 7 de julho 1777. Abigail foi morta juntamente com sua mãe por seu pai, devido a uma previsão que este teve de uma cigana anos atrás a qual dizia que o bebê que sua mulher teria, além de ser bastardo era a reencarnação de uma antiga bruxa que vivia na região e foi morta pelo primeiro dono do lugar.
Na história narrada aqui a maldição continua, sendo que, Abigail agora irá reencarnar em Mirian que é o receptáculo perfeito para sua volta. Os 7 cavaleiros negros são servos do coronel que juntamente com ele foram amaldiçoados ao lugar, para sempre esperarem a volta de Abigail. Como se dá à volta desta entidade é o que será narrado a seguir.




Q 1 – Plano superior. Neste quadro que tem o tamanho de meia página ou quase, é mostrada a carruagem que é fechada, puxada por dois cavalos, conduzida por um cocheiro na casa de seus 50/60 anos, calvo e com vestes escuras. Eles se dirigem a uma encruzilhada que se divide em três caminhos (algo como um x com um traço ao meio). Eles irão tomar o rumo do meio para continuar seu trajeto. Chove e é noite. Ao fundo se encontra a mansão a uma distância considerável, mas perto o bastante para se ver quando um raio corta os céus, como é o caso.

TEXTO: 5 de julho de 1845

Q 2 – Perfil dos cavalos tendo os freios puxados.

TEXTO: Cocheiro = Ôoooah!! (balão por cima dos cavalos)
Onomatopéias: relincho dos cavalos.

Q 3 – No interior da carroça, há malas, cortinas e janelas que além de estarem nas laterais, ao lado das portas, também se encontram na área ao lado de onde estaria as costas do cocheiro, o que daria para frente da carroça e é para uma dessas janelas que Jonatan se dirige tendo Mirian sentada com uma expressão de surpresa/espanto. Da janela para qual Jonatan se dirige percebe-se do lado de fora alguns brilhos, que parecem olhos e com ar de sobrenatural.

TEXTO: Jonatan = Mas o que...?!
Mirian = !!!

Q 4 – Jonatan abre um pouco a porta e da fresta que se abriu vê-se uma figura montada, toda negra, dos cabelos, passando pelas vestes e a montaria, até a pele tem um tom escuro e seus olhos brilham com um “fogo mágico”. Ele se dirige a Jonatan.

TEXTO: Cavaleiro negro = Nós sabemos o porque de estar aqui. Veio herdar o que é teu...a mansão. Mas aviso-te, volte agora ou 18 se tornará 9.


Para ler a história completa, clique aqui.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Roteiro da sátira Big Barraco Brasil, publicada na MAD 12


Texto de abertura: Ninguém agüenta mais o Big Brother Brasil. A cada ano eles inventam uma novidade, mas mesmo assim, parece que já vimos tudo. Mas, certamente, ainda não vimos um reality show ambientado numa favela. Com vocês...

BIG BARRACO BRASIL!
Roteiro: Gian Danton
Arte: Raphael Salimena

Página 1 (dupla)
Quadro 1 – Pedro Bilau está apresentando o programa em frente à platéia, enquanto duas pessoas de fundo comentam. Uma coisa que acho legais nas sátiras da MAD é quando eles enchem o quadro de piadas de fundo. Assim, vamos ter piadas como pessoas usando camisetas com fala, tipo ¨Galvão, filma eu¨ e uma pessoa se enforcando, como se não agüentasse mais aquela chatice. Uma das pessoas que está falando na platéia está sendo roubada por um pivete.
PEDRO BILAU – Salve salve, pendão de esperança. Eu sou Pedro Bilau e estamos começando o Big Barraco Brasil. A novidade deste ano é que agora os brodis vãos ficar numa casa na favela!
PLATÉIA: Poxa, eles estão ficando cada vez mais criativos.
PLATÉIA 2: Criativos nada, eles estão ficando é sem idéias! Além disso, eles resolveram colocar a casa numa favela pra economizar na produção.
Quadro 2 – Close de Pedro Bilau (ou continuação da outra cena, se você for fazer uma painel único).
PEDRO BILAU: A minha terra tem palmeira onde canta o sabia. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá... agora vamos conhecer alguns dos nossos Brodis!
PLATÉIA: Por que esse cara fica tentando fazer poesia num programa como esse?
PLATÉIA2: É para convencer as pessoas de que o BBB tem alguma coisa cultural...

terça-feira, 24 de março de 2009

Exemplo de roteiro: Global frequency

GLOBAL FREQUENCY #1
“BOMBHEAD”


Written by WARREN ELLIS
Illustrated by GARRY LEACH
Colors by DAVID BARON
Cover and logo by BRIAN WOOD


22 pages


THIS IS A SCRIPT SAMPLE, containing the script for the first six pages of art, supplied directly to this store by Warren Ellis as part of a zip file also containing the series logo and preview art.


DIAMOND ORDER CODE: AUG020270
On Page 84 of PREVIEWS


All material herein © and ™ WARREN ELLIS, 2002.

GLOBAL FREQUENCY created by Warren Ellis.

This material supplied for review only.


Fonte: http://www.warrenellis.com * http://www.globalfrequency.org


PAGE ONE


Pic 1;
Half the page. We’re inside a car. It’s night. A young woman with long red hair, in casual clothes, is driving. We’re taking this shot from just behind her, looking forward through the windscreen.

Someone is hitting the windscreen. The car has run someone over and he’s been catapulted over the front of the car and is cannoning, back first, into the windscreen, sending glass blasting into the interior of the car.

DISPLAY LETT: “BOMBHEAD”


Pic 2;
The car is halted. The figure has careened off to hit the sidewalk. Male, dressed in a shabby raincoat, old sneakers and jeans, in his early fifties. JANOS VOYDAN. The WOMAN is getting out of her car. We’re in San Francisco, at the top of a hill.

WOMAN; OH MY GOD, OH MY GOD…

WOMAN: ARE YOU OKAY? CAN YOU TALK?


Pic 3;
Janos Voydan’s head lolls up, bleeding from a few cuts to the face, nose bleeding a little… and his eyes are BACKLIT, and his mouth is LIT FROM WITHIN, like there’s an electrical fire inside his head…

(no dialogue)

PAGE TWO

Pic 1;
A car has pulled up behind the woman’s car, sleek and black. JOHN STARK, a gaunt-faced black man in his early thirties, in a black suit with a white shirt and black tie, is getting out. He has his GLOBAL FREQUENCY CELLPHONE in his hand. GF SYMBOL badge on the lapel.

(no dialogue)


Pic 2;
Close up: his thumb hitting the button on the phone that has the GLOBAL FREQUENCY SYMBOL on it.

(no dialogue)

Pic 3;
Stark approaches the Woman and Voydan, phone to his ear. She sees him:

WOMAN: HE JUST LEAPT OUT IN FRONT OF MY CAR, I’M ON THE EARLY SHIFT AT WORK, I WASN’T LOOKING –

STARK: ALEPH, THIS IS 288.


Pic 4;
Big pic, rest of page. In the room we’ll know as CENTRAL (description to follow – it’s a circular room, with a circular console, the walls all being huge display screens showing different views of pretty much everywhere on Earth via spy cams, constantly changing – part of the console is given over to another display screen called THE BIG BOARD)…

…ALEPH, who runs everything. (a young Asian-American woman in a black t-shirt with a white GF SYMBOL on and a headset).

ALEPH: YOU’RE ON THE GLOBAL FREQUENCY.


PAGE THREE

Pic 1;
She zips across on her chair to the Big Board, which shows Stark’s face in a mugshot style, and the text: JOHN STARK - #288.

ALEPH: THE BIG BOARD PUTS YOU IN SAN FRANCISCO, SURVEILLING JANOS VOYDAN.

ALEPH: WHAT’VE YOU GOT FOR ME, JOHN?

Pic 2;
John’s down on one knee by Voydan, who’s half-conscious, and now has his face turned down to the ground, so Stark can’t see it. Stark looks him over professionally.

STARK: VOYDAN’S STILL HAVING FITS, AND HE’S JUST BEEN HIT BY A CAR.

FROM PHONE; NEXT TIME WE PUT YOU TO WATCHING SOMEONE, JOHN, LOOK FOR CARS TOO…

JOHN; DO WE HAVE AIR SUPPORT? I DON’T KNOW IF I WANT HIM IN A REGULAR HOSPITAL.

Pic 3;
Aleph hits a keypad by the Big Board, and its display shifts, to show a blonde woman in her thirties, and the text: ALISON FITZGERALD - #702.

ALEPH: ALLY FITZGERALD’S AT SFO WITH A CHOPPER. I’LL GET A LOCATION FIX OFF YOUR PHONE AND MAKE THE CALL.


Pic 4;
John starts to turn Voydan over.

JOHN: I’M STANDING BY HERE.

JOHN: LET’S GET A LOOK AT HIM. I HAVE SOME ARMY MEDICAL TRAINING.

WOMAN: YOU’RE A SOLDIER?

JOHN: USED TO BE.


PAGE FOUR

Pic 1;
CUT TO: A GLOBAL FREQUENCY CELLPHONE going off on a hotel room’s bedside table (it lights up). Dark.

(no dialogue)

Pic 2;
ALLY FITZGERALD answers it, flicking the bedside lamp on.

ALLY: 702.


Pic 3;
CUT TO: Aleph, a dynamic angle that presents her with the world scrolling behind her…

ALEPH; THIS IS ALEPH. YOU’RE ON THE GLOBAL FREQUENCY, ALLY.

ALEPH: JOHN STARK NEEDS CHOPPER SUPPORT IN CENTRAL SAN FRANCISCO. BIG BOARD SAYS YOU’RE SLEEPING AT THE AIRPORT TONIGHT.


Pic 4;
CUT TO: The hotel room, with Ally’s BOYFRIEND clambering out of the bed in shorts, sleepy, headed for a CHROME BRIEFCASE on the floor.

ALLY: GARY, GET MY SPECIAL CASE.

ALLY: GIVE ME THE CO-ORDS, ALEPH.


Pic 5;
Boyfriend has the case open in his hands. Inside is a leather jacket with the GF symbol emblazoned on its back. He stares out at us, stunned.

BOYFRIEND: …WHEN WERE YOU GOING TO TELL ME YOU’RE ONE OF THEM?

ALLY (OFF); THOUGHT I’D WEAR IT FOR YOU ON OUR WEDDING NIGHT.


PAGE FIVE

Pic 1;
CUT TO: San Francisco: and John stares at Janos Voydan’s face, lit from within…

JOHN: GOD ALMIGHTY.

WOMAN: WHAT’S WRONG WITH HIM?

WOMAN: I DON’T THINK BEING HIT BY A CAR CAN DO THAT TO YOU.


Pic 2;
And suddenly Janos MOVES – strikes John hard in the chest with the flat of his hand, banging John backwards with huge force –

(no dialogue)


Pic 3;
Clambers up, backhanding the woman –

(no dialogue)


Pic 4;
-- gets into her car –

(no dialogue)


Pic 5;
-- tears off in a hell of smoke and rubber.

(no dialogue)


PAGE SIX

Pic 1;
CUT TO: MISHA NORTON, a black girl in her early twenties, at a computer monitor in her small, chaotic apartment. It’s dark here too, and she’s only got one anglepoise lamp light on. She swigs Red Bull. She’s in a hooded top with a GF SYMBOL on the breast. SPEAKERPHONE next to her keyboard.

SPEAKERPHONE: MISHA NORTON, YOU’RE ON THE GLOBAL FREQUENCY.

MISHA: HIT ME.

SPEAKERPHONE: CAN YOU GET A SPYSAT TASKED OVER SAN FRANCISCO?


Pic 2;
She starts working the keyboard – the graphic of a SATELLITE spins on her screen.

MISHA: BRINGING HIGHBIRD 4 ONLINE. DON’T TELL COLIN POWELL.

MISHA: IS THIS ABOUT THAT ELECTROMAGNETIC ANOMALY I SAW ON YESTERDAY’S WEST COAST SAT PASS?

Pic 3;
Aleph spins in her chair, as aerial photography of San Francisco flashes on to her screens…

ALEPH: YEAH. WE CENTERED IT ON A RUSSIAN ÉMIGRÉ, ONE JANOS VOYDAN.

ALEPH: WE PUT JOHN STARK ON TO WATCH HIM. VOYDAN’S HAVING SEIZURES THAT SEEM TO ASSOCIATE WITH THE ANOMALY.


Pic 4;
Misha’s eyes go wide, face lit by the screen…

MISHA: YOU’RE DAMN RIGHT.

MISHA: I’M SENDING YOU THE SAT’S TAKE RIGHT NOW.

MISHA: I WOULDN’T WANT TO BE ON NOB HILL WITH A PACEMAKER RIGHT NOW. YOUR ANOMALY JUST DOUBLED IN OUTPUT.

-- end script sample --

terça-feira, 17 de março de 2009

Entrevista com Gian Danton para o site Bigorna

Como surgiu seu interesse por Quadrinhos? Qual foi a primeira revista que você leu?
Eu leio quadrinhos desde criança, especialmente Disney e Turma da Mônica. Mas eu realmente me apaixonei pelos quadrinhos quando descobri os super-heróis. Eu estava numa fila de banco (naquela época, sem caixas eletrônicos, as filas eram imensas) e alguém me emprestou uma revista Superaventuras Marvel. Tinha uma história do Conan, outro do Dr. Estranho e uma do Demolidor. Fiquei fascinado. Já procurei essa revista em sebos diversas vezes e nunca encontrei. A partir daí comecei a correr atrás de revistas de super-heróis. E colecionava, claro, a Superaventuras.


Os personagens que você mencionou formavam basicamente o mix dos primeiros números. Lembra qual o número da edição? Talvez eu tenha repetido na minha coleção! (Risos.)
Opa, se tiver, me arranja. A única coisa que me lembro é que a história do Dr. Estranho tinha uma cruz invertida e a do Conan terminava com uma mulher dizendo para o bárbaro: ¨Tenha sonhos de ouro¨. No dia seguinte ele acordava e descobria que tinha sido roubado e comentava algo como ¨Eu fico com os sonhos e você fica com o ouro¨.

Quais seus roteiristas e desenhistas preferidos?
O primeiro lugar entre os roteiristas é, sem dúvida, Alan Morre. Até hoje não apareceu outro escritor tão bom e versátil nos quadrinhos. Mas também gosto muito do trabalho de Neil Gaiman, Grant Morrison, Peter Milligan... fora do circuito dos comics, gosto muito do Charlier (Blueberry) e do Oesterheld (Che). Quanto aos desenhistas, o meu predileto é All Williansom, que desenhou durante muitos anos o Agente Secreto X-9 criado pelo Alex Raymond. Outro grande desenhista é o Garcia Lopez (Esquadrão Atari). Dos mais recentes, Frank Quitely é sem dúvida um dos melhores. Eu não poderia deixar de citar alguns dos desenhistas com o quais já trabalhei e que certamente estão entre os meus preferidos: Joe Bennett (Família Titã); Antonio Eder (Manticore); José Aguiar (Quadrinhofilia) e Jean Okada (Exploradores do Desconhecido).

Na sua opinião quais as 10 obras que devem fazer parte de qualquer coleção de Quadrinhos?
Essas relações sempre são complicadas, e a gente corre o risco de esquecer algo. Além disso, a gente muda nossa preferências com o tempo, mas lá vai a relação:
1 – Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons
2 – V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd
3 – Cavaleiro das trevas, de Frank Miller
4 – Orquídea Negra, de Neil Gaiman e Dave McKean
5 – Sandman, de Neil Gaiman
6 – Che, do Oesterheld e Breccia
7 – Blueberry, de Charlier e Moebius
8 – Companheiros do crepúsculo, de Bourgeon
9 – Skreemer, de Petter Milligan
10 – Esquadrão Atari, de Gerry Conway e Garcia Lopez

Como você descobriu que queria fazer roteiros para Histórias em Quadrinhos?
Quando percebi que não sabia desenhar (risos).

Eu até que desenhava bem, mas quando conheci feras como Roger Cruz, Luke Ross e Marcelo Campos fui editar! (Risos.)
Pois é. Não dá para competir com esse pessoal. Além disso, a gente precisa se especializar, se não acaba virando pato. Dizem que o pato é único animal que voa, nada e anda, mas voa mal, nada mal e anda mal...

Como foi que começou sua parceria com Bené Nascimento?
Essa história com o Bené é engraçada. Eu já o conhecia, mas não sabia que ele fazia quadrinhos. Um dia fomos fazer um trabalho para a faculdade, sobre quadrinhos, e fui encarregado de entrevistá-lo. Passamos a tarde inteira conversando e o que era para ser uma entrevista, virou amizade. Daí surgiu a idéia de fazer um zine, o Crash! Um dia o Bené chegou com uma história pronta, a Floresta Negra, e me pediu para colocar texto. Já estava toda desenhada, só faltava arte-finalizar e colocar texto. Essa história acabou saindo na revista Calafrio e foi minha primeira HQ publicada.

Você e o Bené chegaram a criar personagens juntos?
Sim, vários. Os mais famosos são a Família Titã. Mas também trabalhamos outros personagens que não chegaram a ser pubicados, como o Coronel Ordem e o Puritano.

Lembro que nos conhecemos em na Universidade Estadual de Londrina, no Intercom, em 1996, se não me engano. O que você apresentou neste Congresso?
Sim, é verdade! Nos conhecemos em Londrina. Eu estava apresentando um trabalho sobre a teoria do caos em Watchmen, que foi tema da minha dissertação de mestrado e de um livro, pela Marca de Fantasia, que será relançado por outra editora em breve.
Ah, era isso mesmo! Qual a importância do Intercom para os Quadrinhos no meio acadêmico?
Acho muito importante não só o Intercom, mas os estudos acadêmicos. Foi o Grupo de Trabalho de quadrinhos no Intercom, coordenado pelo Flávio Calazans, que abriu caminho para as histórias em quadrinhos serem vistas como algo sério. Antes disso, o preconceito era muito grande. Hoje a maioria dos professores e pesquisadores da área de comunicação já tem consciência da importância das histórias em quadrinhos.

Esse encontro foi na mesma época do lançamento da Brazilian Heavy Metal pela Opera Graphica. Essa coletânea foi um marco para os Quadrinhos Nacionais, não acha?
Sim, foi. Pena que não tenha continuado.

Você nasceu em Minas Gerais e quando eu o conheci você morava em Curitiba e agora está em Macapá. Rapaz, você anda, hein?!
Pois é. Como bom mineiro, eu não fico parado. Se bem que já estou há mais de 10 anos em Macapá! Atualmente, a maior parte da minha família mora em Curitiba, mas tenho um impedimento para ir para lá: minha mulher tem alergia ao frio, então temos que ficar em lugar quente mesmo...

Como foi a produção e o lançamento da revista Mantícore?
A Manticore surgiu a pedido de um editor de Curitiba. Ele queria lançar um gibi oportunista, às pressas, para aproveitar a onda do chupa-cabras. Aí nós descobrimos que ele era fã de Arquivo X e o convencemos a fazer algo mais na linha suspense e ficção-científica. O Antonio foi o grande mentor da história. Ele descobriu o Márcio Freire em uma cidadezinha do litoral do Paraná e levou ele para Curitiba. O Márcio ficou morando um mês no estúdio Núcleo, onde trabalhávamos. Passava o dia inteiro pintando as páginas que o Antonio desenhava. Foi um trabalho de cão, mas o resultado compensou. Era época da Image e ninguém mais publicava quadrinhos pintados à mão. Quando a revista foi lançada, foi um sucesso. Infelizmente, a editora não soube aproveitar o interesse inicial. Faltou marketing, faltou boa distribuição... uma pena.
Como surgiu o convite e como foi escrever Histórias de Guerra?
O Franco de Rosa queria relançar as histórias de guerra do Colonnese, mas achava que os roteiros estavam muito datados. Assim, ele me pediu para reescrever as histórias.

Você já sabia de antemão que seria o Mestre Eugenio Colonnese que desenharia esta HQ?
Sim, e essa foi a principal razão pela qual aceitei o convite. Sempre fui fã do traço do Colonnese. Acho o desenho dele elegante, bonito... e ele sempre inovou. Fazia aguada na década de 1960... na história com roteiro meu que desenhou, ele usou lápis. Ficou muito bom.

Você acabou de publicar pela Popmídia o livro Roteiro para Histórias em Quadrinhos. Qual a sua expectativa para este lançamento?
O embrião desse livro foi um e-book que soltei na rede há uns cinco ou seis anos. O e-book se tornou uma espécie de leitura obrigatória, até por ser a primeira literatura brasileira sobre o assunto. De vez em quando encontro pessoas que dizem ter começado a escrever quadrinhos a partir da leitura desse livro. Isso não só no Brasil, mas também em Portugal. E muitos me pediam para lançar esse e-book no formato impresso. Na verdade, o livro Roteiro para Histórias em quadrinhos é uma versão melhorada desse e-book, com mais capítulos. Espero que ele tenha uma aceitação equivalente.

Você tem acompanhado o atual movimento do Quadrinho Independente?
Um pouco. Nem tudo que sai chega em Macapá, mas tenho me impressionado com a qualidade gráfica e editorial do material publicado. Revistas independentes como Quadrinorte, a Quadrinhopole e a Prismarte são exemplos.

Deus Ex Machina


A série animada do Planeta dos Macacos é um dos melhores exemplos que conheço de roteiros mal-construídos. É uma verdadeira decepção, inclusive para aqueles que são fãs dos filmes.

A animação é fraca, com muitas repetições de cena, embora isso necessariamente não seja um defeito grave. O desenho de Jornada nas Estrelas tem animação ruim, mas roteiro bom e o resultado final acaba sendo ótimo. Por outro lado, o filme Selvagem, da Disney, tem ótima animação, mas roteiro chato. Resultado: foi um fiasco de bilheteria.

O grande problema na animação dos macacos está no roteiro, com tantos furos que parece uma peneira.

Senão vejamos. O CD que tenho mostra a história aparentemente no segundo capítulo. A cronologia dos filmes é totalmente esquecida e é como se pela primeira vez uma nave fosse parar no planeta dos macacos. Um dos astronautas está sendo levado pelos gorilas, outro foi salvo por uma mulher selvagem. Uma vez na cidade, o astronauta foge. Todos, absolutamente todos os soldados macacos vão atrás dele, mas mesmo assim ele foge com facilidade impressionante e ainda encontra tempo para libertar todos os humanos presos pelos gorilas, pois encontra a prisão sem guarda. Aparentemente os macacos não aprenderam nada de segurança depois de tanto tempo...

Mas continuemos. Em uma seqüência posterior, os dois astronautas estão vistoriando uma região de montanhas quando vêm um grupo de militares simiescos se aproximando. A cena mostra o humano loiro enconstado numa pedra, olhando displicentemente para a frente e ele diz: “Parece que os macacos estão nos procurado”. E outro: “Se nos virem aqui, estamos ferrados!”. Qualquer um sairia correndo para se esconder, mas eles ficam lá parados, olhando o tempo. “É, parece que eles nos viram”. “Poxa vida, isso é horrível”, dizem eles, sem sair do lugar. Proatividade parece ser uma palavra desconhecida para esses dois homens. Fiquei imaginando a continuação do diálogo: “Eles estão a um quilômetro!” “Nossa, logo eles não vão nos alcançar se não corrermos”, “Agora eles já estão a cem metros!”, “Vamos fazer um lanche?”.

Mas os nossos heróis são salvos por uma montanha que se eleva na frente deles, escondendo-os, um artifício que os bons roteiristas chamam de Deus ex machina. Essa expressão significa algo exterior à história, que surge para salvar a situação. É chamada assim porque os dramaturgos gregos ruins constumavam baixar um deus no final da peça para costurar as pontas soltas ou para explicar situações não muito lógicas. Um Deus ex machina é quando o roteirista arranja uma saída totalmente desconhecida do leitor para salvar os heróis ou para resolver uma situação. É erro gravíssimo.

Depois dessa tremenda forçada de barra, os heróis ainda encontram uma porta secreta, por onde chegam ao mundo dos humanos subterrâneos. Nisso eles descobrem que estão na terra. O desenho foi feito no final da década de 1970, uma época em que todo mundo já sabia disso, mas mesmo assim o desenho faz um suspense desnecessário sobre isso.

No mundo dos subterrâneos eles encontram a terceira astronauta e fogem com ela num carrinho que corre por um trilho. Os subterrâneos têm duas formas de defesa: uma são ilusões, outra são raios emitidos pelos olhos. Então eles primeiro fazem aparecer uma parede de mentira e os heróis acham que vão bater, mas passam direto por ela. Depois acham que vão cair num buraco, mas, mais uma vez descobrem que é uma ilusão. Então eles se deparam com uma parede de fogo. Qualquer pessoa que tivesse passado pelas experiências anteriores aprenderia o bastante para saber que a parede é também uma ilusão, mas os nossos astronautas são burros como uma porta e morrem de medo do fogo. Quando passam por ele e descobrem que estão vivos, comentam entre si: “Quem diria, é uma ilusão!”. Será que eles aceitam pessoa com QI 0,1 na NASA?

Enquanto isso, os subterrâneos atiram neles com seus raios... e não acertam nada, nem os trilhos, nem os humanos, nem o carrinho. São quase cinco minutos de tentativa e nada. Uma impossibilidade matemática! Isso nos faz pensar que os subterrâneos aprenderam a atirar com um cego paralítico e epiléptico. Não acertar em absolutamente nada durante cinco minutos de tiroteio é mais difícil que ganhar na loteria, mas eles conseguem e os astronautas saem de lá sem um único arranhão.O pior de tudo é que o episódio foi escrito por dois roteiristas. Será que nenhum deles percebeu os buracos no roteiro?

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