sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A verossimilhança e a caracterização visual


Eu já expliquei aqui que história em quadrinhos de ficção não é documentário. Ou seja: uma HQ não precisa ser realista, ela apenas precisa convencer o leitor de sua realidade. Isso passa muito pela caracterização visual dos personagens. Por exemplo, os cientistas não costumam ser carecas, os malvados não costumam ser feios. Mas um bom desenhista recorre a essa generalização para que o leitor identifique, logo de cara, a função ou a personalidade dos personagens.



Basta olhar para Ming e Flash Gordon e perceber quem é o vilão e quem é o herói.
Marcos Rey, um dos grandes roteiristas brasileiros de cinema e TV lembra a figura de Sherlock Holmes, cuja caracterização, com cachimbo, lente de aumento e sobretudo xadrez, o identifica imediatamente.


Claro que hoje as HQs hoje não trabalham tanto com clichês, mas mesmo assim, desenhistas e roteiristas utilizam objetos, roupas e até expressões ou gestos para caracterizar os personagens, já que os quadrinhos são uma mídia visual.
Nos primeiros capítulos da webcomics Exploradores do Desconhecido tínhamos um personagem que aparecia em poucos quadrinhos. Ele era um político avesso à tecnologia, que é contrário à Operação Salto Quântico e que acaba sendo convencido pelo Capitão a apoiar o projeto. No meu roteiro, coloquei que ele era alguém antiquado, temeroso de avanços tecnológicos. Na hora de ilustrar a sequência, o desenhsita Jean Okada decidiu colocá-lo de óculos. Toda a caracterização psicológica do personagem ficou explícita sem que precisassemos usar uma palavra. Bastava bater o olho e o leitor percebia que aquele político era contrário às inovações (até porque seu óculos era do tipo antigo).

Quando divulgava a série no Orkut, ainda no ano de 2008, encontrei um suposto crítico de quadrinhos que implicou com o político de óculos e com o fato dos Exploradores não usarem toquinha. De fato, nas missões na NASA os astronautas usam uma toquinha e, por conta disso, esse suposto crítico achava que também os Exploradores deveriam usar toquinha.

- Mas em Jornada nas Estrelas eles não usam toquinha. - argumentei.
- Jornada nas estrelas é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas em Guerra nas Estrelas eles não usam toquinha. - retruquei.
- Jornada nas estrelas é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas no filme Contato, baseado na obra do cientista Carl Sagan, eles não usam toquinha. - expliquei.
- Contato é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!
- Mas em Esquadrão Atari eles não usam toquinha. - lembrei.
- Esquadrão Atari é uma m*... ! - respondeu ele. Em história de ficção científica, todo mundo tem que usar toquinha!

Como o palavrão é o argumento dos que estão errados, ele saiu batendo o pezinho e prometendo que ia mostrar como se fazia:
- Vou escrever um livro em que os astronautas usam touquinha e que os políticos não usam óculos. Vai ser um sucesso porque todo mundo quer ler histórias com astronautas de toquinha!

Pois é... dizem até que ele escreveu tal livro com o astronauta de toquinha... quanto ao sucesso...
A grande lição é: história em quadrinho não é documentário. Embora os astronautas da NASA usem toquinhas durante as missões, a maioria das pessoas pensa neles sem a tal toquinha pela simples razão de que, normalmente, quando aparecem em público, estão sem toquinha.
Assim, para o leitor normal, um astronauta de toquinha é menos verossímil que um astronauta sem toquinha. E nos quadrinhos a verossilhança é mais importante do que o realismo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Caligari: do cinema aos quadrinhos


Caligari: do cinema aos quadrinhosGian Danton
Série Veredas, 19
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2010. 44p. Ebook em pdf.
978-85-7999-016-8
Arquivo grátis (solicite cópia ao editor).

Em 1920, na Alemanha, um filme alcançou o prestígio de ser um dos mais importantes da história mundial e, sem dúvida, o mais influente do cinema alemão. Trata-se de O Gabinete do Dr. Caligari , dirigido por Robert Wiene e escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. Sua influência foi tão grande que cunhou-se o neologismo caligarismopara se referir ao cinema expressionista alemão.
Alguns dos méritos desse filme foram a utilização de cenários pintados representando um clima sufocante de um estranho ambiente urbano e a história repleta de flash backs , com final surpreendente. Estes elementos inovadores para a época mostraram que o cinema poderia ir muito além de uma simples diversão popular, abrindo caminho para sua ascensão à sétima arte.
Em Caligari: do cinema aos quadrinhos , o roteirista Gian Danton (Ivan Carlo Andrade de Oliveira) analisa o filme desde a elaboração do roteiro à sua influência para o cinema mundial e em especial para o cinema alemão. Aborda também questões polêmicas, como a moldura introduzida no roteiro por Fritz Lang, e os cenários pintados com a técnica expressionista, que permitiu à película mostrar uma realidade mental, absolutamente revolucionária para a época.
Em complemento ao estudo, Gian Danton apresenta a adaptação do filme para os quadrinhos, trabalho realizado em parceria com o desenhista curitibano José Aguiar. O processo criativo da adaptação também é analisado, o que transforma o livro numa peça didática, mas com a leveza de quem é um reconhecido e premiado roteirista de quadrinhos.
Caligari, do cinema os quadrinhos , é uma obra essencial tanto para os fãs de cinema quanto os de quadrinhos. 

Para pedir uma cópia, escreva para: editora@marcadefantasia.com 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Death Ship

Abaixo um dos melhores episódios de Além da Imaginação que já assisti. Escrito por Richard Matheson (de Eu sou a lenda), a história alterna entre a ficção científica e a fantasia com um resultado perturbador. É impressionante como, usando apenas os diálogos, o roteirista consegue criar um estado de tensão permanente. Uma aula de roteiro.











quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Making of do Astronauta

Há algum tempo o amigo JJ Marreiro me mandou algumas imagens para que usasse em uma postagem sobre os bastidores da criação de nossa história do Astronauta para o álbum MSP+50. Na correria da Bienal, acabei não fazendo o post, mas corrijo esse lapso agora.
Ao começarmos a discutir nossa história, concluimos que o ideal seria algo que remetesse aos clássicos da FC, tanto nos quadrinhos quanto na literatura pop, quanto nos seriados. Assim, nosso Astronauta deveria ser uma mistura de Perry  Rhodan, Jornada nas Estrelas e Flash Gordon. Abaixo, alguns dos estudos do JJ para o visual da hístória:



O JJ começou pelas armas. Embora o visual estivesse legal, eu pedi que ele não usasse uma arma, pois ela não se encaixaria no personagem criado pelo Maurício.
O visual da nave passou por várias versões, mas acabou sendo definido como uma homenagem às naves da série alemã Perry Rhodan, do qual sou fã.

Foram feitas três versões do roteiro (chamadas de tratamento). Numa das primeiras versões, o herói chegava a um planeta que mostrava uma versão alienígena dos principais personagens da Turma da Mônica. As tiras abaixo são dessa primeira versão.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pós-graduação em quadrinhos, cinema e publicidade irá usar e-book sobre roteiro

O Centro Educacional Opet, de Curitiba, está oferecendo um curso de pós-graduação Lato Sensu em Quadrinhos, illustração, cinema e publicidade. Um dos módulos, ministrado pelo mestre Lielson Zeni, será sobre roteiro e será usado como bibliografia básica, meu e-book Como escrever uma história em quadrinhos, disponibilizado no site da Virtual Books. Para saber mais informações sobre essa pós, clique aqui.

sábado, 7 de agosto de 2010

Roteiro Crepúsculo

Neste post, além de colocar mais um exemplo de roteiro, gostaria de falar como um desenhista criativo pode valorizar um roteiro. Exemplo disso é o trabalho do Emanuel Thomaz na história que estou escrevendo para o personagem Crepúsculo, criado pelo amigo Alan Yango. A página que apresento aqui faz parte da segunda história da série e mostra o primeiro flash back do herói. Percebam que eu peço que o desenhist use algum reccurso gráfico para demonstrar que se trata de um flash back. O Emanuel, além de usar um traço em aguada, transformou os quadros em peças de quebra-cabeça, numa metáfora do processo de recordação (as lembranças seriam as peças do quebra-cabeça). O resultado valoriza muito a narrativa e não é apenas um enfeite. Para quem ficou curioso e quiser ler o restante da história, basta acessar o blog do Yango.



Página 4  - esta é uma página de flash back, portanto, eu sugiro que use algum recurso para demonstrar isso. Talvez um traço mais limpo, ou uma aguada.
Q1 – Um casal na cama. São Sandra e Augusto. Ela o beija.  É um quarto simples, com livros espalhados pelo chão e CDs do Legião Urbana, banda de que Sandra gosta.
Texto: Sândalo. A pele de Sandra cheirava a sândalo. Era tão suave e inebriante quanto o som de sua voz. Eu poderia passar a noite tocando-a.
Sandra: Vamos, preguiçoso. Levante!
Q2 – Sandra está se levantando da cama e ficando em pé, enquanto Augusto começa levanta apenas o tronco, sentando na cama.
Augusto: Gostaria de poder dormir até mais tarde.
Sandra: É, mas tem um monte de pautas para fazer... e ainda tem aquela história das crianças que estão desaparecendo...
Q3 – Sandra começa a vestir a roupa, enquanto Augusto começa a se levantar.
Augusto: Nem me fale. Isso é coisa grossa. Parece magia negra. E tem gente grande envolvida.
Sandra: De tarde eu te ajudo nessa pauta, agora de manhã, preciso fazer umas fotos publicitárias...
Q4 – Os dois estão se arrumando, vestindo suas roupas.
Augusto: Foto publicitária?
Sandra: Sou freela, meu bem. Tenho que ganhar a vida. Não se vive só de ideais.
Q5 – Sandra terminou de se vestir e se despede do namorado com um beijo.
Sandra: Preciso ir. Estou atrasada. Como alguma coisa no caminho. Te cuida.  

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Desenhistas?

Estava olhando em meus arquivos e achei vários roteiros ainda não desenhados. Alguns forma pedidos por desenhistas, que depois desistiram do projeto, outros por editoras que logo depois fecharam suas portas. Em todo caso, são quase 500 páginas de roteiros pequenos, médios e longos, nos mais variados gêneros, do humor ao terror. Agora resolvi disponibilizar esses roteiros para outros desenhistas. Quem estiver interessado, é só deixar um comentário.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre o final de Lost

Anteção: o texto abaixo contém Spoillers sobre a série Lost. Se você não assistiu à última temporada e não gosta de saber o que vai acontecer no seriado, não leia esse texto.


Finalmente assisti a última temporada de Lost. Há toda uma discussão a respeito do final trazer uma explicação religiosa e não científica que acho irrelevante. Ficção não é realidade, basta a verossimilhança. Então, tanto explicações religiosas quanto míticas são válidas.
Do ponto de vista das explicações míticas, há uma abordagem possível, que não foi explorada pela série: a de que tudo que aconteceu era um jogo entre dois irmãos. Há um precedente interessante: na mitologia hindu, a realidade muitas vezes é vista como um espetáculo para divertir Krishna.
O meu final de Lost seria exatamente assim: tudo é um jogo entre duas forças que usam os humanos como peças de um tabuleiro, algo como a história de Jó. Infelizmente essa premissa foi abandonada na última temporada na medida em que a trama se desenvolveu no sentido da busca de um substituto para Jacob.

O final que de fato foi ao ar peca por deixar inúmeras pontas soltas. Vejam bem, não é necessário explicar tudo. Muitas vezes um final em aberto pode ser ótimo. O final do livro Cemitério, de Stephen King, é aberto e é muito bom. Mas não se pode encerrar uma trama sem resolver possíveis incoerências.
Por exemplo, no final da quinta temporada, os sobreviventes tentam mudar o passado explodindo uma bomba nuclear. A personagem Juliet deixa uma mensagem mediúnica dizendo que "Funcionou", o que nos leva a crer que a realidade alternativa que vemos na história foi criada pela explosão da bomba. Depois descobrimos que aquilo não é uma realidade alternativa, mas um mundo espiritual. Esse aspecto não é esclarecido e fica apenas como uma pista falsa, um recurso narrativo para enganar o expectador, e apenas isso.
Outro problema: quando Desmond começa a despertar os outros, a esposa de Wildmore insiste para que ele pare com isso. Se o local onde eles estão é uma espécie de passo intermediário antes de chegar à luz, porque esse pedido. A mulher seria um representante do mal? Na verdade, ela é apenas uma figura narrativa a serviço do alongamento da história.

Aliás, há muitas figuras com função puramente narrativa. Wildmore é um exemplo. No final, ele parece apenas um boneco do destino e morre de forma patética. Se fosse adotada a proposta narrativa de uma realidade-jogo, isso faria sentido. Ele seria apenas um peão nas mãos de forças muito poderosas. Como se deu o final, ele é apenas um peão na mão das poderosas forças dos roteiristas.
Por exigência do roteiro e de suas reviravoltas, outros personagens agem como peões, mudando de lado, de personalidade e até de motivação. Sayid é o melhor exemplo. Na última temporada ele abandona o temperamento passional que sempre teve e se torna simplesmente um zumbi. Depois torna-se quase um mocinho. Benjamim Linus igualmente muda muito, embora no caso dele se mantenha a motivação de salvar a ilha e ser dono dela.
No final, o ponto mais fraco da última temporada é a realidade paralela, que não se sustenta, já que não funciona como purgatório, como muitos têm especulado. Segundo a religião católica, o purgatório é um local onde as pessoas pagam por seus pecados antes de ir para o céu. No seriado, para alguns ela é um local de felicidade, para outros um local para cometer novos crimes, para outros um local para se redimir.
A realidade alternativa é, assim, apenas um artifício narrativo que permitiu aos roteiristas unir todos os personagens num final emotivo. É apenas uma muleta narrativa.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ciência e quadrinhos na IV Semana Universitária da UEAP

Hoje, às 10 horas, estarei no CAFÉ COM CIÊNCIAS, evento da IV Semana Universitária da UEAP, falando sobre ciência e quadrinhos. O local será o hall de entrada do Campus I.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Escrevendo sátiras para a MAD

Quando fui convidado pelo Raphael Fernandes para a escrever uma sátira do BBB 9, o que seria minha estreia na MAD, confesso que tremi na base. A MAD tem um tipo muito característíco de humor. Anarquico, claro, mas que também obedece algumas regrinhas simples, que ajudam a cosia a ficar mais engraçada. Na época, fui para minha coleção e reli dezenas de sátiras tentando compreender o estilo. De lá para cá, já escrevi vários textos para a publicação. Não posso dizer que já sou um roteirista especialista em MAD, mas acho que posso compartilhar algumas das coisas que aprendi escrevendo e, principalmente lendo a MAD:  

1) Geralmente as sátiras iniciam com um painel grande, de apresentação. Pode ser apenas um quadro grande, uma página inteira, ou uma página dupla, como foi a minha sátira do BBB. A função dessa página é mostrar quem são os personagens e contar rapidamente a história que está sendo satirizada, o que abre caminho para que mesmo quem não conheça a obra original possa dar algumas gargalhadas.  Nesse painel é muito aconselhado fazer piadas visuais de fundo, como os BBBs dentro de uma bolha com uma placa: não dê comida aos animais.


2) Cada quadro deve conter uma piada. Como geralmente as sátiras ocupam poucas páginas, a maioria dos roteiristas não desperdiça quadro: todos precisam ter algo engraçado.


3) Diálogo bate-volta. Uma técnica muito usada pelos roteiristas é colocar um diálogo em três ou quatro momentos. Normalmente há uma piada no meio, mas o mais engraçado fica para o final. Eu usei esse recurso na minha sátira do filme Crepúsculo (que foi renomeada Prepúcio): 



Q2 – Mella está apresentando Fedward ao seu pai. Chále Swando está com um rifle nas mãos, granadas pelo corpo. Em suma, ele está preparado para ir à guerra.
Mella: Pai, vou sair hoje com Fédward.
Chále: Ótimo. Mas afaste-se dele quando eu começar a atirar...
Mella: Pai, o senhor disse que ia ser simpático!
Chále: E estou sendo... uso o rifle ou a bazuca? 

4) Duplo sentido. Esses diálogos bate-volta geralmente brincam muito com o duplo sentido. O verdadeiro sentido a primeira fala do personagem só é revelada na tréplica dele. Mais uma vez, uma sequência da sátira do Crepúsculo: 

Fédward e Mella estão na cena do quarto, do quase sexo. Penso que ele está se aproximando dela e ela está lá, esperando um beijo. Ele usa uma camisa com os dizeres EU RESISTO e ela com a camisa EU DESISTO.
Fédward: Tenho muita vontade de fazer uma coisa com você... mas preciso resistir!
Mella: Você está pensando em... sexo?
Fédward: Quem falou em sexo? Eu estava pensando em fazer compras no shoping! 




5) Non-sense. A graça do diálogo muitas vezes está em não fazer sentido, como na sátira de O Iluminado, escrita por Larry Siegel e desenhada por Angelo Torres (publicado no Brasil na MAD especial 3, Panini). Jeca Porrance está dirigindo na direção ao hotel quando o filho começa a falar com o dedo: 

Jeca: Doenty, tô um pouco preocupado com esse garoto! Ele sempre teve essas conversas idiotas com o dedo indicador? 
Doenty: Nem sempre! Só desde ontem, quando ele brigou com o mindinho! 
Jeca: Ufa! Jà tava ficando preocupado! 


Força tarefa e a estrutura Rashomon


O episódio de ontem (Jogo de roleta) do seriado policial Força Tarefa usou uma curiosa estrutura de roteiro, pouco vista na televisão brasileira. Inaugurada pelo filme Rashomon, de Akira Kurossawa, essa estrutura narrativa consiste em mostrar a mesma história de diversos pontos de vista. Essa estrutura já foi usada, por exemplo, em uma revista do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore.
Em Jogo de roleta, os agentes da Corregedoria vão investigar uma suposta morte de um policial ocorrida em um jogo de roleta russa. Conforme os depoimentos são dados, a história da roleta cai por terra e os outros policiais passam a ser os suspeitos. Tentar descobrir quem é o assassino no meio da complicada rede de mentiras torna-se um desafio interessante.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Roteiro de Alice (publicado na MAD 25)


Texto de abertura: Se você achava que Tim Burton tinha esculhambado com Alice no país das Maravilhas é porque ainda não viu o nosso...

ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS
Roteiro de Gian Danton
Arte de Roger Cruz
Página 1
Atenção: Essa história é no estilo do Príncipe Valente, ou das histórias infantis clássicas, com desenhos em cima e texto embaixo. Minha sugestão é fazer no estilo antigo dos desenhos de Alice, mas com os personagens modernizados de acordo com a versão Tim Burton.
Q1 – Alice sendo tragada por um bueiro, no meio de uma enxurrada.
Alice: O prefeito disse que nunca mais ia ter enchente!
Texto: Alice era uma menina com muita imaginação. Um dia ela foi tragada por um bueiro e foi para outro mundo.
Q2 – Vemos um coelho pasando com Alice. O coelho tem a cara do Arruda e leva na cesta panetones.
Texto: Quando deu por si, estava em um local muito diferente de tudo que  Alice conhecia.  Ela viu um coelho muito estranho a correr.
Q3 – Alice conversando com o coelho.
- Espere, senhor coelho! Por que está distribuindo panetones? Não deveriam ser ovos de páscoa? – perguntou Alice.
- Não são panetones, são só uma desculpa para o dinheiro das propinas! Quer comer um?
Q4 – Alice come um panetone enquanto o coelho-arruda faz sinal de que quer dinheiro.
Alice comeu o panetone, mas nada aconteceu.
- Pensei que fosse crescer. – disse Alice.
- A minha conta bancária cresceu. – respondeu o Coelho. Agora passe para cá 500 reais.
Q5 – Alice está pegando o dinheiro da carteira.
Alice: Nossa, é um panetone muito caro. – argumentou Alice.
Coelho: Se você comer outro, sua poupança diminui.
Q6 – O coelho pegou a carteira e está fugindo, com Alice atrás dele.
Antes que Alice pudesse pagar, o coelho saiu correndo.
- Volte aqui, esse é o meu dinheiro. – gritou Alice, mas parece que o coelho não ouvia muito bem, pois continuou correndo.
- Não posso ficar, a polícia federal está vindo aí! 

terça-feira, 2 de março de 2010

Suspensão de descrença

Em uma história em quadrinhos, tudo é possível. Tudo mesmo. O Super-homem pode voar, ter visão de raio-x, o Hulk pode sacudir o asfalto, como se fosse um tapete, o Homem-aranha pode escalar paredes... isso para ficarmos apenas nas histórias de super-heróis. Se formos ampliar para gêneros como a ficção-científica, teremos viagens espaciais em poucos segundos, alienígenas que falam inglês... os exemplos são muitos.
A verdade é que o leitor pode acreditar em qualquer coisa que o roteirista escrever, mas para isso é necessário criar um pacto de verossimilhança, é necessário convencê-lo a acreditar e a entrar com sócio dessa história que contamos e que se passa todinha dentro da mente dele.
Há muitas maneiras de estabelecer esse pacto e convencer o leitor sobre a verossimilhança da história, por mais impossível que ela possa parecer.
Os criadores do Super-homem adotaram uma visão rasa da ciência ao argumentar que, se uma formiga podia carregar várias vezes o seu peso, uma pessoa também poderia fazê-lo se viesse de outro planeta. A primeira página, da primeira história do personagem fala justamente disso. Os leitores engoliram a pílula e acreditaram que, sim, aquele homem com cuecas sobre as calças e usando uma capa vermelha podia ter super-força e dar saltos enormes. Daí para acreditarem que ele voava foi um passo. Daí para acreditarem que ele tinha visão de raio-x foi fácil. Depois que o leitor engole a pílula, ele entra na história e aceita todas as regras ditadas pelo roteirista, desde que este não seja incompetente a ponto de entrar em contradição. Se, de uma hora para outra, o Super-homem se tornasse incapaz de voar sem nenhuma explicação plausível, o encanto se quebraria e o leitor deixaria de acreditar.
Existem outras formas de criar esse pacto de verossimilhança.
Uma delas é colocar na trama um personagem que não acredita na parte fantástica da história. Mas é um personagem louco, sem noção ou simplesmente chato. Ao antipatizar com ele ou ver que ele tem uma visão equivocada da realidade, o leitor, por tabela, acredita em tudo aquilo que ele está dizendo que é impossível.
Em um episódio do seriado Além da Imaginação chamado O Marciano, policiais entram em uma lanchonete de beira de estrada procurando o ocupante de uma nave extraterrestre que desceu nas redondezas. Há ganchos que ajudam o receptor a acreditar que o fantástico é real, como o fato de todas as pessoas na lanchonete serem de um ônibus, e, segundo a contagem do motorista há uma pessoa a mais. Mas o que faz realmente as pessoas acreditarem é um chato meio maluco que o tempo todo ridiculariza a busca dos policiais. Ele é tão irritante que não há como não discordar dele. Portanto, logo acreditamos que uma das pessoas ali é, de fato, um marciano. A propósito, que assistir ao episódio (disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=b3Bk_HuMOEM) perceberá os vários ganchos que serão amarrados no final da história. Apesar de surpreendente, o final é perfeitamente perceptível para quem prestar atenção a detalhes como olhares dos personagens, etc.
Uma outra forma de criar essa ilusão de realidade é colocar um protagonista com o qual a pessoa se identifique e é que é descrente, mas que vai acreditando aos poucos. Como o leitor tende a se identificar com o protagonista, se ele começar a acreditar, o leitor também acreditará.

No filme 1408, de Mikael Hafström, baseado em um conto de Stephen King, um escritor vive de visitar locais assombrados e escrever sobre suas experiências. Ele nunca viu um local realmente assombrado, assim ele não acredita quando o gerente do hotel lhe diz que coisas realmente terríveis acontecem no quarto 1408. Assim como ele, nós também não acreditamos. Mas quando pequenas coisas inexplicáveis começam a acontecer, o ceticismo dele passa a ser abalado. Quando ele entra em desespero, ao perceber que está de fato em um quarto assombrado, nós entramos em desespero com ele. Afinal, nesse ponto nós já compramos a história e acreditaremos em tudo que vemos.
Eu usei um recurso desse tipo na graphic Manticore. O detetive, protagonista da primeira parte, é um homem que diz não acreditar em papai Noel ou coelhinhos da páscoa. Portanto, ele não acredita que uma criatura extraterrestre está andando solta por aí. Com o tempo, ele começa a ter provas em contrário e passa realmente a acreditar. E o leitor junto com ele.

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