terça-feira, 11 de agosto de 2015

Dan Dare: processo de produção do roteiro

Dan Dare e seus amigos, na versão clássica.

Dan Dare é um dos mais clássicos personagens de quadrinhos da Inglaterra, e certamente um dos mais importantes no gênero ficção cientifica, rivalizando apenas com Jude Dreed. O personagem é da década de 1950 e chegou a ser lançado no Brasil pela Ebal na década de 1970, na revista 2000 AD. 

Dan Dare na versão da década de 1970.

Ano passado fui contatado por um agente local para escrever as aventuras do personagem para uma revista britânica, a Strip Magazine. O esquema era o comum das publicações em série britânicas: histórias em continuidade de seis páginas que formavam um ciclo depois lançado como álbum de luxo. 

Revista nos moldes da 2000 AD na qual seria publicada a nova versão do personagem.

Eu escreveria a segunda saga do personagem (a primeira seria escrita pelo editor). 
Propus um plot sobre um planeta com uma inteligência vegetal que foi aceito com sugestões do editor para adequar à trama ao plot maior.  
Fiz o plot estendido e o roteiro de duas partes da saga. Foi uma experiência interessante por trabalhar com o método inglês, com roteiros detalhados, que incluíam inclusive angulação e planos. Para facilitar para o tradutor, a partir do segundo capítulo, eu comecei a colocar os termos técnicos em inglês, garantindo que eles ficassem corretos na tradução. 
Esse material ficou inédito por mais de um ano até que esta semana tive a confirmação do agente de que a revista de fato não terá continuidade (mais um calote, agora de uma editora inglesa - espero até ano que vem levar calote da Marvel). 
Assim, publico aqui partes do material produzido, como forma inclusive de mostrar como é o processo de produção de roteiro de uma editora estrangeira. 


PLOT 


Dan Dare e sua equipe chegam a um planeta desconhecido. A Prof Peabody afirma que há uma forma de vida complexa, grande e possivelmente inteligente no planeta. Dan sai para investigar. Quando volta, a nave desapareceu. Na verdade, o planeta inteiro é um grande ser.Dan come uma fruta e entra em contato com o planeta. Descobre que o planeta está sob ameaça e por isso reagiu. O planeta devolve a nave e Dan promete ajudar.


PLOT DECUPADO DO PRIMEIRO CAPÍTULO (com acréscimos do editor) 


DAN DARE: THE EDEN AFFAIR

Original story Gian Danton

Revised by J. Freeman

Last Revised: 10th April 2014

Chapter 1




Este capítulo terá menos ação já que ele irá introduzir os personagens. Dan Dare e seu time chegam na Valiant(Design por John Ridgway), uma grande nave de exploração, em um planeta desconhecido fora do nosso sistema solar.



(A história se passa durante uma missão maior para descobrir mais sobre a Guerra Galáctica e os aliens que enviaram os Therons e outros para o nosso sistema solar, ver a Bíblia de História)



Professora Peabody confirma que existe evidências de vida alienígena no planeta, mas os sinais que ela detectou não indicam quantos nem a quanto tem eles estão ali.



Aterrissando, o time descobre que o planeta é coberto por uma flora exuberante. Dan, Digby e alguns outros membros da tripulação fazem a descida ao planeta usando a Anastasia e outro veículo de aterrisagem afim de investigar melhor e encontrar os alienígenas e a vida inteligente. Dan e Co começam a exploração utilizando um veículo de exploração armado.



Enquanto isso, a professora fica no veículo de aterrisagem escaneando o planeta para encontrar qualquer forma de vida inteligente e os alienígenas. Sir Hubert fica com ela, junto com o resto da tripulação.



Dan Não encontra nenhuma forma de vida animal (mas eles encontram alguns insetos comendo partes de algumas plantas – Essas criaturas que estão ameaçando o planeta. Ver abaixo) e começam a duvidar se realmente poderia haver alguma forma de inteligência naquele planeta, muito menos algum alienígena que tivesse algo a ver com a Guerra Galáctica



Então, sobre uma colina, nós temos uma cena de “wow” – uma cena de devastação pura, uma área destruída e arrasada... no centro dela está uma nave de Alien misteriosa – na nave usada pelos alienígenas misteriosos que estão por trás da guerra galáctica de onde os Therons fugiram.



O time se aproxima cautelosamente, esperando por um ataque - seu medos não são em vão já que armas surgem por tras da bela camada bio-tecnológia da nave. As armas miram na equipe e abrem fogo.


O ROTEIRO DA PRIMEIRA PARTE 
(duas primeiras páginas da primeira história)


DAN DARE: THE EDEN AFFAIR

Roteirista: Gian Danton

Revised by J. Freeman

Primeiro tratamento



Capítulo 1

Página 1

Quadro 1 – Temos um quadro grande um plano geral da nave Valiant no espaço, acima do planeta que iremos chamar de Eden. Minha sugestão é que título e créditos entrem neste quadro.

Dan Dare (off): Você tem certeza, professora?

Quadro 2 – Agora temos uma cena interna da Valiant. Dan, Professora, Digby, Hubert e talvez algum outro personagem estão discutindo ao redo de uma mesa. A professora mexe em uma espécie de tablete avançado. (John, não sei se a Valiant terá sala de reuniões, como em Jornada nas Estrelas. Caso não tenha, essa cena pode se passar na ponte de comando).

Professora Peabody:  Sem dúvida, Dan. Há vida no planeta abaixo. E vida inteligente.

Hubert: São os inimigos?

Quadro 3 – Close da professora. Embora a Bíblia não a mostre de óculos, acredito que ela possa usar óculos para ler, como forma de reforçar seu aspecto intelectual. Então, como ela está mexendo no tablete, estaria usando os óculos (provavelmente um óculos tecnológico, na linha do Google Glass).

Professora: Difícil dizer, Dan. Alguns acreditam que os Treen inimigos não sobreviveram à fuga.

Digby: Mekon ainda deve estar vivo. Como diz minha tia Anastácia, vaso ruim nunca quebra...

Quadro 4 – Um plano geral. Dan está em pé, para mostrar sua determinação, e apoia as mãos na mesa.

Dan: Em todo caso, temos que investigar. Hubert, prepare a Anastácia e um grupo de descida.

Quadro 5 – Close de Dan.

Dan: Professora, a senhora vem conosco!



 Página 2

Quadro 1 – Agora temos a Anastácia. Dan, Digby Pierre August, Prof. Peabody e Spry fazem parte dessa equipe de reconhecimento. Pierre august pilota a nave. Neste quadro, vemos a cena de dentro. Prof. Peabody está sentada ao lado de Dan e conversa com ele. (John: achei que Dan não deixaria a nave Valiant sem um oficial, e acredito que Hubert seria a pessoa que ele mais confiaria, assim Hubert ficou na nave, ok?).

Professora: Tem certeza de que foi uma boa ideia trazer Spry conosco? Ele é apenas um cadete.

Quadro 2 – Close de Dan.

Dan: Ele é um garoto inteligente e nunca aprenderá se não entrar em ação. Tenho a intuição de que em algum momento ele pode ser importante para nossa missão.

Quadro 3 – Close da professora. 

Professora: Você segue sua intuição, eu sigo meus cálculos.

Quadro 4 – Close de Dan. (John: aqui estamos dando um gancho para a solução final, que acontecerá quando a professora Peabody seguir sua intuição)

Dan: No momento em que seguir sua intuição, talvez descubra que ela pode lhe dar respostas que a razão não dá.

Quadro 5 – Plano médio, mostrando Pierre em primeiro plano.

Pierre: Senhor, estamos nos aproximando do solo.

Quadro 6 – Dan e os outros colocando os cintos.

Dan: Preparar para aterrisagem. Coloquem os cintos.

Quadro 7 – A nave aterrissando. Não mostre muito do cenário para não perder o impacto da próxima página. 


domingo, 26 de julho de 2015

Projeto no Catarse resgata HQs de terror


No início da década de 1990 uma dupla de quadrinistas de Belém do Pará revolucionou o terror nacional. Com influência de Alan Moore e Neil Gaiman, Gian Danton e Joe Bennett faziam histórias pesadas, em que tripas se misturavam com horror psicológico. Essas histórias foram publicadas em diversas revistas, mas nunca foram reunidas. Resgatar esses quadrinhos em um álbum de luxo é o objetivo do projeto Margem Negra, que busca apoio no Catarse (https://www.catarse.me/pt/margemnegra).
Joe Bennet, que na época assinava Bené Nascimento, é famoso nacionalmente, tendo desenhado quase todos os personagens da Marvel e da DC. Gian Danton é roteirista premiado, autor de vários livros sobre quadrinhos, entre eles o Como escrever quadrinhos (Marca de Fantasia) lançado recentemente.
O resgate das histórias é resultado da junção das editoras Devaneio e ZnorT! Como muitas dessas histórias estavam perdidas, contou-se com o apoio de fãs, que escanearam as HQs e enviaram para que fosse incluídas no álbum. Além disso, várias histórias só foram resgatadas graças ao acervo da Gibiteca de Curitiba. Entre as atrações há até uma história da época, inédita, por ter sido recusada por vários editores em razão de unir super-heróis e terror.
O álbum, que a princípio terá 130 páginas (pode ter mais, se forem atingidas as metas estendidas) trará também uma história inédita escrita por Gian Danton e desenhada por Joe Bennett.
Quem apoiar o projeto receberá várias recompensas, de álbuns de quadrinhos e livros a originais da história inédita.
SERVIÇO
ÁLBUM MARGEM NEGRA

terça-feira, 19 de maio de 2015

Novo projeto do Gralha busca colaboradores no Catarse



O Gralha, super-herói curitibano que completa 18 anos em 2015, está com um novo projeto a ser lançado e busca colaboradores no Catarse. Trata-se de Gralha – Artbook, livro que reunirá bastidores da criação, personagens, curiosidades, histórias inéditas e pin-ups exclusivas do personagem.
As recompensas incluem, além de tradicionais camisetas, canecas e pôsteres, também um baralho exclusivo com os personagens do universo do Gralha e, para os mais aficionados, também uma action figure do herói.
Os interessados podem colaborar através do link https://www.catarse.me/pt/gralha.
O Gralha é um super-herói de Curitiba, criado em 1997 por nove artistas e publicado em tiras semanais no jornal A Gazeta do Povo. Essas tiras foram compiladas no álbum Gralha – Primeiras Aventuras em 2001 pela Editora Via Lettera. O segundo álbum, Tão Banal quanto Original, saiu apenas no ano passado pela Editora Quadrinhópole, que também publicará o novo projeto.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Gian Danton lança Como escrever quadrinhos



Gian Danton está lançando mais um livro sobre roteiro para HQ. Trata-se do volume “Como escrever quadrinhos” (editora Marca de Fantasia, 108 páginas, 25 reais).
O autor é roteirista desde 1989, quando publicou a história Floresta Negra na revista Calafrio, em parceria com Bené Nascimento (Joe Bennett). Desde então participou de diversos projetos entre eles a premiada graphic Manticore ou o álbum MSP+50.
Quando começou a escrever HQs, não havia nenhuma referência sobre o processo de produção de quadrinhos ou mesmo sobre a formatação do roteiro. “Com esse início tão pedregoso, sempre fui muito solícito com novos roteiristas que me procuravam com dúvidas”, explica o roteirista, no texto de abertura do volume. Essas orientações deram origem ao primeiro livro, O roteiro nas histórias em quadrinhos, lançado também pela Marca de Fantasia, em 2010. Entretanto, mesmo com o livro, as questões continuaram a chegar, o que levou à ideia de produzir um segundo volume.
Um acaso contribuiu também para a produção do segundo livro. Convidado para o evento Muiraquicon, em Belém, em 2012, foi-lhe pedido que preparasse duas palestras diferentes sobre roteiro. “A saída foi produzir uma palestra auto-biográfica, explicando como escrever quadrinhos a partir da minha própria trajetória. Os problemas que enfrentei e como os resolvi”, conta o roteirista. Assim, além das técnicas de roteiro, o livro se debruça sobre o processo criativo a partir da experiência do próprio autor.
Como escrever quadrinhos será vendido por 25 reais, mas está em promoção de pré-venda até o dia 14 de maio, ao preço de 18 reais, com frete já incluso (os livros serão enviados a partir do dia 15 de maio). O livro pode ser adquirido através do e-mail profivancarlo@gmail.com.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Dez dicas para roteiristas de quadrinhos

1 - Não leia só quadrinhos. Um bom roteirista de quadrinhos lê de tudo: livros, revistas, jornais etc.
2 - Não lei só quadrinho americano ou japonês. Argentina, Inglaterra, França, Itália e Brasil são países que produzem ótimas HQs, que você deve conhecer.
3 - Sempre pesquise. Se sua história é sobre um advogado, pesquise livros jurídicos, pesquise sobre como funciona a justiça. Se for sobre o Egito, procure livros de história. 
4 - Não tente contar a história do universo. Comece com histórias curtas. 
5 - Faça com que seu roteiro seja agradável para o desenhista. Se for necessário contar uma piada para que a leitura do roteiro seja mais agradável, conte. 
6 - Imagine a cena visualmente antes de escrevê-la. Se houver mais de uma ação, divida em mais de um quadrinho. 
7 - Produza. Seu texto só vai melhorar se você produzir continuamente. 
8 - Use como referência grandes roteiristas, mas aos poucos busque estabelecer um estilo próprio. 
9 - Não seja um colonizado. Esqueça Nova York. Faça histórias sobre sua realidade. Se o leitor viver a mesma realidade que você, a identificação será mais fácil. 
10 - Seja obetivo. Não encha os balões de texto desnecessário. Nunca diga com o texto algo que o desenho já está dizendo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Livro e blog com HQs comentadas celebram o mestre Disney Ivan Saidenberg

Por Marcus Ramone
Data: 9 dezembro, 2014
O roteirista e cartunista brasileiro Ivan Saidenberg (12/11/1940 – 30/10/2009), criador de vários personagens Disney e cuja parceria com Renato Canini continua sendo a mais cultuada entre os fãs do Zé Carioca, tem sua primeira biografia reeditada pela Marsupial Editora. A obra, escrita pela também roteirista Lucila Simões Saidenberg, filha do artista, havia sido publicada no ano passo, de forma independente.
Ivan Saidenberg: o homem que rabiscava (128 páginas, R$ 22,90), em pré-venda na loja online da editora, faz parte da Série Recordatório e narra a vida e a obra do quadrinhista, que também se destacou na fase de ouro das HQs de terror do Brasil.
Outra boa pedida para os fãs e admiradores do artista – e dos quadrinhos Disney – é o blog Ivan Saidenberg – Histórias comentadas, em que Lucila conta detalhes e curiosidades de bastidores das HQs escritas por seu pai. Leia mais

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Entrevista Alexandre Winck




Faça uma breve apresentação
Sou roteirista, escritor, editor, jornalista, tradutor e revisor. Sou formado em Comunicação Social e Jornalismo pela UFSC, mas como roteirista e escritor sou totalmente autodidata. Atualmente edito e escrevo para a revista online de quadrinhos e contos ilustrados de terror e fantasia Contos do Absurdo para a Publigibi, estou colaborando com diversas coletâneas e tenho alguns projetos de criação própria em quadrinhos, cinema e animação que pretendo viabilizar a partir do próximo ano. Também ano que vem devo começar a dar aulas de roteiro aqui na Publigibi.

Que quadrinhos você lia quando era criança? Quas foram suas principais infuências?
Eu fui um leitor de "fases". Até uma certa idade, lia muito Disney e Turma da Mõnica, depois passei a ler muitos super-heróis, uma época lia muito Batman, depois Homem-Aranha, depois Hulk... Na adolescência veio o tal "desbunde", descobri Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, e daí vieram as leituras mais adultas.
Como roteirista, me influencio muito pelos britânicos, não só Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, mas também Garth Ennis, Mark Millar, Peter Milligan... Mas como escrevo diferentes tipos de quadrinhos, me inspiro em influências diversas. Para escrever HQ infantil, por exemplo, penso em Carl Barks, Goscinny e Uderzo, Charles Schulz.

Seu trabalho mais longevo foi o Sesinho. Quais as dificuldades de se fazer um quadrinho institucional-educativo? Que dificuldades enfrentou? Qual a melhor história que escreveu para o personagem?
Sinto que a maior dificuldade é casar a qualidade narrativa e de entretenimento com os aspectos educativos e institucionais. Trata-se de um produto que você está criando para um cliente, então o cliente sempre tem a palavra final, diferente de uma obra autoral em que eu, como criador, tomo as decisões e tenho mais liberdade de discordar de um editor e até enviar a história para outro, por exemplo. Geralmente os projetos institucionais já são criados para um cliente específico. Outra dificuldade é incluir o conteúdo didático na trama da forma mais natural possível e manter um certo ritmo.  Me recuso a chamar de história em quadrinhos educativa algo que é simplesmente uma cartilha desenhada, com um personagem explicando algo para outro do começo ao fim. Sempre me preocupo o máximo possível em ter uma história, com começo, meio e fim, mesmo que num certo momento tenha a parte puramente explicativa.
Em relação ao Sesinho, alguns temas eram mais difíceis de transformar numa HQ divertida e acessível ao público infantil. Por exemplo, para fazer uma edição sobre arquivologia fizemos uma história sobre a importância de se pesquisar corretamente e fugir da mania do "Ctrl+C/Ctrl+V", ou seja, copiar pronto da internet.
Mesmo assim, houve várias edições do Sesinho em que me senti muito à vontade para criar uma HQ infantil autoral, até com experimentação. Uma edição que destaco é "Sem Palavras", em que o Ruivo, o personagem menos estudioso da turma, deseja um mundo sem palavras. Ele tem balões de fala, mas não aparece nada escrito, e não consegue ler os balões dos outros, anota no caderno e não vê as palavras. Foi uma das edições mais experimentais e diferentes.


Como você começou a escrever o Sesinho?
Foi muito louco. Eu era jornalista e tava fazendo freelancer para um jornal de bairro, aí o editor do jornal me indicou uma vaga de revisor na Exa World de Florianópolis, e eu nem sabia que eles faziam o Sesinho. Entrei como revisor e acabei escrevendo roteiros e textos de quase 100 edições.

O Brasil é um país em que a profissão de roteirista é pouco valorizada. A que você atribui isso?
São várias coisas. Uma é que não formamos um verdadeiro mercado de indústria cultural, no qual o roteiro, a narrativa é a base de tudo. Mesmo os games mais populares chamam a atenção pela narrativa. Ainda não tratamos o roteirista como um profissional e sim como o "artista doidão" que precisa arrumar emprego público pra pagar as contas e fazer a arte nas horas vagas, sendo que o lazer, a cultura, o entretenimento estão entre as maiores indústrias do mundo hoje.
Veja os quadrinhos, é recente a profissionalização e a divisão de tarefas entre o roteirista e o desenhista. Geralmente o quadrinista era sempre o garoto que gostava muito de desenhar na escola, e porque não havia essa profissionalização e divisão ele por necessidade escrevia as próprias histórias. Em alguns casos, isso produziu autores geniais, em outros não. Mas é dos últimos anos para cá que estamos realmente juntando os talentos que se completam.
Somos um país que ainda sobrevaloriza a telenovela diária, um gênero que por natureza nunca primou muito pela qualidade de texto. Custamos para investir nos seriados, que são o melhor meio narrativo para televisão. No cinema, insistimos por muito tempo numa visão herdada do Cinema Novo de que roteiro com começo, meio e fim, estrutura narrativa era caretice de Hollywood, sendo que isso de fato vem desde a Grécia Antiga. Nada contra as narrativas mais alternativas, tem trabalhos geniais e eu mesmo "viajo" muito às vezes. Mas como roteirista eu na verdade acho um grande desafio trabalhar dentro de uma estrutura narrativa e ainda assim criar algo diferente e que fuja do convencional.


Como ser um bom roteirista? Que dica você daria para novos roteiristas?
Eu vou parecer maluco falando isso agora que vou dar aula de roteiro, mas não se pode realmente ensinar alguém a contar uma história. Quero dizer que não existem, em princípio, regras, não existe o certo e o errado. Tem milhões de maneiras de contar uma história, aliás é por isso que as contamos e nos surpreendemos com elas até hoje.
Mas existem certos princípios que eu, pessoalmente, acho fundamentais: primeiro, buscar escrever algo que você mesmo gostaria de ler ou ver, porque se já é difícil fazer os outros gostarem do seu trabalho, imagine se você mesmo não gostar, e esse é acima de tudo um trabalho de paixão; ler e observar de tudo, pois as ideias podem vir de qualquer lugar, aliás muitas das melhores ideias vêm da não-ficção, pois tendem a ser mais originais que algo que já é inspirado num filme ou em outra HQ; e escrever sempre, sem medo de errar, pois muitos autores cheios de potencial travam ou desistem pela insegurança e auto-crítica. Ter auto-crítica e ouvir as críticas construtivas é fundamental, mas o autor precisa dar a cara pra bater para evoluir na sua arte. E nisso é uma profissão como qualquer outra, quanto mais prática, melhor.

Quais os seus roteiristas prediletos?
Já citei os britânicos, acho impossível deixar de citar o Will Eisner, que foi o maior experimentador da narrativa de HQ em todos os tempos. Hoje tenho gostado muito do trabalho do Robert Kirkman. Um roteirista brasileiro cujo trabalho admiro cada vez mais é o Edgar Franco, um autor que tem uma visão de mundo única, dentro e fora dos quadrinhos.

Que quadrinhos você destacaria como seus prediletos de todos os tempos?
Vou citar alguns que me marcaram pessoalmente. "A Morte de Gwen Stacy" teve um impacto emocional enorme pra mim quando criança. "Chiclete Com Banana", como eu falei, foi o "desbunde", a descoberta do humor anárquico nos quadrinhos. "A Piada Mortal" foi a primeira HQ que li que me revelou como uma história em quadrinhos podia ser ao mesmo tempo adulta, ousada e sofisticada. "O Cavaleiro Das Trevas" por ter reinventado meu personagem favorito de todos os tempos. As graphic novels autorais que Neil Gaiman fez com Dave McKean, que eu li em inglês, "Casos Violentos", "Sinal E Ruído", "Mr. Punch" me marcaram pela combinação de qualidade literária, experimentação e beleza visual em HQs que não eram de super-herói, terror, fantasia nem sci-fi. Mais uma vez, é impossível deixar de citar Will Eisner e "The Spirit", uma explosão de criatividade e inovação como nunca se viu antes nem depois.

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