quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Entrevista Alexandre Winck




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Sou roteirista, escritor, editor, jornalista, tradutor e revisor. Sou formado em Comunicação Social e Jornalismo pela UFSC, mas como roteirista e escritor sou totalmente autodidata. Atualmente edito e escrevo para a revista online de quadrinhos e contos ilustrados de terror e fantasia Contos do Absurdo para a Publigibi, estou colaborando com diversas coletâneas e tenho alguns projetos de criação própria em quadrinhos, cinema e animação que pretendo viabilizar a partir do próximo ano. Também ano que vem devo começar a dar aulas de roteiro aqui na Publigibi.

Que quadrinhos você lia quando era criança? Quas foram suas principais infuências?
Eu fui um leitor de "fases". Até uma certa idade, lia muito Disney e Turma da Mõnica, depois passei a ler muitos super-heróis, uma época lia muito Batman, depois Homem-Aranha, depois Hulk... Na adolescência veio o tal "desbunde", descobri Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, e daí vieram as leituras mais adultas.
Como roteirista, me influencio muito pelos britânicos, não só Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, mas também Garth Ennis, Mark Millar, Peter Milligan... Mas como escrevo diferentes tipos de quadrinhos, me inspiro em influências diversas. Para escrever HQ infantil, por exemplo, penso em Carl Barks, Goscinny e Uderzo, Charles Schulz.

Seu trabalho mais longevo foi o Sesinho. Quais as dificuldades de se fazer um quadrinho institucional-educativo? Que dificuldades enfrentou? Qual a melhor história que escreveu para o personagem?
Sinto que a maior dificuldade é casar a qualidade narrativa e de entretenimento com os aspectos educativos e institucionais. Trata-se de um produto que você está criando para um cliente, então o cliente sempre tem a palavra final, diferente de uma obra autoral em que eu, como criador, tomo as decisões e tenho mais liberdade de discordar de um editor e até enviar a história para outro, por exemplo. Geralmente os projetos institucionais já são criados para um cliente específico. Outra dificuldade é incluir o conteúdo didático na trama da forma mais natural possível e manter um certo ritmo.  Me recuso a chamar de história em quadrinhos educativa algo que é simplesmente uma cartilha desenhada, com um personagem explicando algo para outro do começo ao fim. Sempre me preocupo o máximo possível em ter uma história, com começo, meio e fim, mesmo que num certo momento tenha a parte puramente explicativa.
Em relação ao Sesinho, alguns temas eram mais difíceis de transformar numa HQ divertida e acessível ao público infantil. Por exemplo, para fazer uma edição sobre arquivologia fizemos uma história sobre a importância de se pesquisar corretamente e fugir da mania do "Ctrl+C/Ctrl+V", ou seja, copiar pronto da internet.
Mesmo assim, houve várias edições do Sesinho em que me senti muito à vontade para criar uma HQ infantil autoral, até com experimentação. Uma edição que destaco é "Sem Palavras", em que o Ruivo, o personagem menos estudioso da turma, deseja um mundo sem palavras. Ele tem balões de fala, mas não aparece nada escrito, e não consegue ler os balões dos outros, anota no caderno e não vê as palavras. Foi uma das edições mais experimentais e diferentes.


Como você começou a escrever o Sesinho?
Foi muito louco. Eu era jornalista e tava fazendo freelancer para um jornal de bairro, aí o editor do jornal me indicou uma vaga de revisor na Exa World de Florianópolis, e eu nem sabia que eles faziam o Sesinho. Entrei como revisor e acabei escrevendo roteiros e textos de quase 100 edições.

O Brasil é um país em que a profissão de roteirista é pouco valorizada. A que você atribui isso?
São várias coisas. Uma é que não formamos um verdadeiro mercado de indústria cultural, no qual o roteiro, a narrativa é a base de tudo. Mesmo os games mais populares chamam a atenção pela narrativa. Ainda não tratamos o roteirista como um profissional e sim como o "artista doidão" que precisa arrumar emprego público pra pagar as contas e fazer a arte nas horas vagas, sendo que o lazer, a cultura, o entretenimento estão entre as maiores indústrias do mundo hoje.
Veja os quadrinhos, é recente a profissionalização e a divisão de tarefas entre o roteirista e o desenhista. Geralmente o quadrinista era sempre o garoto que gostava muito de desenhar na escola, e porque não havia essa profissionalização e divisão ele por necessidade escrevia as próprias histórias. Em alguns casos, isso produziu autores geniais, em outros não. Mas é dos últimos anos para cá que estamos realmente juntando os talentos que se completam.
Somos um país que ainda sobrevaloriza a telenovela diária, um gênero que por natureza nunca primou muito pela qualidade de texto. Custamos para investir nos seriados, que são o melhor meio narrativo para televisão. No cinema, insistimos por muito tempo numa visão herdada do Cinema Novo de que roteiro com começo, meio e fim, estrutura narrativa era caretice de Hollywood, sendo que isso de fato vem desde a Grécia Antiga. Nada contra as narrativas mais alternativas, tem trabalhos geniais e eu mesmo "viajo" muito às vezes. Mas como roteirista eu na verdade acho um grande desafio trabalhar dentro de uma estrutura narrativa e ainda assim criar algo diferente e que fuja do convencional.


Como ser um bom roteirista? Que dica você daria para novos roteiristas?
Eu vou parecer maluco falando isso agora que vou dar aula de roteiro, mas não se pode realmente ensinar alguém a contar uma história. Quero dizer que não existem, em princípio, regras, não existe o certo e o errado. Tem milhões de maneiras de contar uma história, aliás é por isso que as contamos e nos surpreendemos com elas até hoje.
Mas existem certos princípios que eu, pessoalmente, acho fundamentais: primeiro, buscar escrever algo que você mesmo gostaria de ler ou ver, porque se já é difícil fazer os outros gostarem do seu trabalho, imagine se você mesmo não gostar, e esse é acima de tudo um trabalho de paixão; ler e observar de tudo, pois as ideias podem vir de qualquer lugar, aliás muitas das melhores ideias vêm da não-ficção, pois tendem a ser mais originais que algo que já é inspirado num filme ou em outra HQ; e escrever sempre, sem medo de errar, pois muitos autores cheios de potencial travam ou desistem pela insegurança e auto-crítica. Ter auto-crítica e ouvir as críticas construtivas é fundamental, mas o autor precisa dar a cara pra bater para evoluir na sua arte. E nisso é uma profissão como qualquer outra, quanto mais prática, melhor.

Quais os seus roteiristas prediletos?
Já citei os britânicos, acho impossível deixar de citar o Will Eisner, que foi o maior experimentador da narrativa de HQ em todos os tempos. Hoje tenho gostado muito do trabalho do Robert Kirkman. Um roteirista brasileiro cujo trabalho admiro cada vez mais é o Edgar Franco, um autor que tem uma visão de mundo única, dentro e fora dos quadrinhos.

Que quadrinhos você destacaria como seus prediletos de todos os tempos?
Vou citar alguns que me marcaram pessoalmente. "A Morte de Gwen Stacy" teve um impacto emocional enorme pra mim quando criança. "Chiclete Com Banana", como eu falei, foi o "desbunde", a descoberta do humor anárquico nos quadrinhos. "A Piada Mortal" foi a primeira HQ que li que me revelou como uma história em quadrinhos podia ser ao mesmo tempo adulta, ousada e sofisticada. "O Cavaleiro Das Trevas" por ter reinventado meu personagem favorito de todos os tempos. As graphic novels autorais que Neil Gaiman fez com Dave McKean, que eu li em inglês, "Casos Violentos", "Sinal E Ruído", "Mr. Punch" me marcaram pela combinação de qualidade literária, experimentação e beleza visual em HQs que não eram de super-herói, terror, fantasia nem sci-fi. Mais uma vez, é impossível deixar de citar Will Eisner e "The Spirit", uma explosão de criatividade e inovação como nunca se viu antes nem depois.

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