quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Oficina de roteiro com Gian Danton

 

Amanhã estarei no Museu da Imagem e do Som (2o piso do Teatro das Bacabeiras) ministrando uma palestra sobre roteiro para quadrinhos com foco na produção de textos e diálogos. A oficina é gratuita e qualquer um pode participar. Não é necessário fazer inscrição.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O texto nos quadrinhos

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.

War – histórias de guerra


Quando fui convidado por Franco de Rosa para reescrever as histórias do volume War – histórias de guerra (com histórias escritas por Luís Merí e publicadas na década de 1960) imaginei que estaria cometendo uma espécie de sacrilégio. Afinal, sempre fui fã de Colonesse  e apreciava seus desenhos até nos livros didáticos. Tenho até hoje um livro de filosofia da FTD que, apesar do conteúdo fraco, foi guardado apenas por causa das ilustrações do mestre. Algumas semanas depois, quando o pacote com as histórias finalmente chegou à distante Macapá, pude ler as histórias e perceber que, de fato, elas não funcionavam para o leitor atual. Algumas tinham problemas estruturais, de com tradições internas, mas a maioria simplesmente apresentava uma narrativa datada,  típica de uma época em que desenho e texto eram redundantes.
Nesse período, minha mulher viajou com meus filhos e isso me permitiu algumas extravagâncias. Entre elas, escrever à noite (ao contrário de 99% dos escritores, eu não sou notívago).
Lá estava eu, com um monte de histórias prontas, que eu não havia escrito me perguntando o que poderia fazer. Decidir começar pelas mais difíceis, ou seja, pelas que apresentavam mais problemas, o que me deixaria mais à vontade para mexer nas outras. “Paredão” e “Granja” se encaixavam nesse perfil.
Alan Moore diz que o escritor deve “entrar” no personagem e no clima da história para conseguir repassar algo ao leitor. Como posso querer que meu leitor sinta medo se eu não sinto medo enquanto escrevo? Como querer que o leitor sinta o mesmo que o personagem se eu não sinto? Assim, cada vez que escrevo uma história, me vejo sendo possuído por seus  personagens.
Para escrever “A Granja” eu me imaginei como uma mulher vivendo em plena guerra que viu seus pais serem assassinados. Tive pesadelos com isso, com as explosões, a guerra e a crueldade nazista.
A experiência me mostrou algo que hoje considero óbvio: a protagonista Anita havia enlouquecido, embora o texto original não fizesse nenhuma menção a isso. Para demonstrar essa loucura, usei no texto a sinestesia, uma figura de linguagem em que os sentidos se misturam: cheirar cores, ouvir cheiros, etc.
Eu havia decidido que “Paredão” seria uma história romântica. Imaginei a protagonista, já velhinha, contando para alguém a história do amor de sua vida.
Para entrar no clima, peguei todos os CDs românticos que tinha em casa e os ouvi enquanto lia, preparava aulas, corrigia trabalhos ou produzia o texto para a história. Uma música de Roberto Carlos particularmente me chamou atenção: “A estação”. A música era narrada em tempo real e falava de um homem cujo amor de sua vida vai partir em um trem. A indecisão da mulher e a tristeza do homem eram mostrados com perfeição: “Para não me ver mais triste ainda ela sorriu, me olhou nos olhos, me beijou, depois saiu. Caminhou com passos calmos e parou. Me acenou mais uma vez, depois seguiu”. Era esse clima de separação que eu pretendia passar na história. Eu estava curioso para saber qual seria a reação à minha visão romântica da guerra e ainda estou.
Essas duas HQs me deram o parâmetro que eu deveria seguir nas outras e são minhas prediletas.

Nota: Essas histórias reescritas por mim e desenhadas pelo Colonnese foram publicadas no álbum War – histórias de guerra, da editora Opera Graphica em 2003. Foi uma edição de colecionador, numerada e autografada pelo desenhista exemplar a exemplar. O álbum inclui também uma história inédita, escrita por mim e desenhada pelo Colonnese  sobre a guerra do Iraque chamada “O gato e o rato”.  Um lindo trabalho a lápis que mostrou aquilo que os fãs do desenhista já sabiam: ele só melhorara com os anos.  

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Pequenas obras-primas

Dia desses ouvi de uma pessoa que quer fazer quadrinhos que é impossível fazer uma boa HQ com menos de 12 páginas. Na hora eu me lembrei de uma frase do editor Franco de Rosa. Na época existiam revistas mix, como a Calafrio, que publicavam histórias curtas. Eu reclamei com o Franco que era difícil fazer uma boa história em 6 páginas. Ele me respondeu: Will Eisner fazia obras-primas com 6 páginas.
É verdade. As histórias do Spirit tinham 6 páginas e eram todas geniais, tanto em termos de roteiro quanto de desenho. Eram HQs tão boas que mudaram a cara dos quadrinhos, mostrando até onde podia ir a linguagem.
Não é o único exemplo. A EC Comics, na década de 1950 fazia histórias de terror e ficção-científica com 7 ou 8 páginas e o nível era altíssimo. Era uma das melhores coisas feitas na época.
Na década de 1970 um dos maiores sucessos no Brasil era a revista Kripta, que reunia histórias curtas de terror, fantasia e FC, todas com menos de 10 páginas. O nível alcançado por essa revista raramente foi ultrapassado. Os roteiristas conseguiam em 7 ou 8 páginas fazer histórias complexas, personagens com profundidade psicológica e textos poéticos.
São só alguns exemplos. Mesmo no caso de histórias seriadas há muitas que tinham capítulos curtos auto-contidos. Miracleman, por exemplo, era pulicada na forma de capítulos auto-contidos. Se você lesse um capítulo, entendia.
Na minha época ninguém se transformava em quadrinista sem aprender a arte da síntese.
Hoje, toda uma geração está crescendo lendo mangás que nunca acabam ou mega-sagas da Marvel e da DC em que o roteirista leva 600 páginas para contar uma história que um roteirista realmente bom, como Alan Moore, contaria em 20 páginas.
Está surgindo uma geração de quadrinistas que perdeu a capacidade da síntese. Lamentável.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Muiraquicon

Sou um dos convidados especiais. Vai ter palestra e oficina minha sobre roteiro. São apenas 15 vagas para a oficina, então inscreva-se logo (a inscrição pode ser feita no site do evento)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Como é feita uma página dos Exploradores do Desconhecido

Tudo começa, obviamente, no roteiro: a alma da HQ! Escolhi para este making of a página 3 de Operação Salto Quântico. Não porque a considere a melhor, mas apenas porque é uma das poucas páginas que ainda tenho no lápis, e assim posso mostrar a vocês o processo. Quando comecei o trabalho, eu desenhava as páginas numa folha sulfite e depois passava tudo a limpo numa outra folha, onde fazia arte-final. Parei com esse processo quando entendi que estava praticando uma forma lenta de suicídio. Hoje eu faço tudo na mesma folha.
Cada roteirista trabalha de um jeito diferente. Alguns escrevem roteiros bem detalhados, que descrevem até uma folhinha de árvore caída no chão. Outros pegam mais leve nas descrições – geralmente quando o roteirista sabe quem vai desenhar sua história e confia nele. Penso que estamos no segundo caso, pois como vocês podem ver o roteiro que o Gian Danton escreveu para mim é bem sucinto: Leia mais

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Scan: a inspeção

A história A inspeção, escrita por mim e desenhada por Bené Nascimento (Joe Bennett) e Pedro Vale foi publicada originalmente na revista Calafrio 47. Essa história surgiu da minha vontade de adaptar uma história de Nicolai Gógol para os quadrinhos. Eu e o Bené já havíamos adaptado a história O nariz na história Phobos, publicada na revista A hora do crepúsculo e dessa vez escolhemos a peça O inspetor Geral. Como seria publicada numa revista de terror, adaptamos a trama sobre um inspetor falso para um manicômio no século 19. Essa história, assim como boa parte das HQs feitas pela dupla Gian-Bené, nunca foi republicada e corria o risco de se perder. Assim, resolvi disponibilizar como scan. Para baixar, clique aqui.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Procura-se

Gincana Mundo Monstro: O Livro Perdido

Um mundo fantástico, povoado pelas mais incríveis e diferentes criaturas sobrenaturais, foi registrado em umlivro secreto. E nossos planos eram disponibilizar esses registros para a humanidade. Porém, seja por piada do destino ou forças malignas, o livro desapareceu.
Dada a gravidade da situação, convocamos você, humano, para se juntar a Érico, o aprendiz de detetive, nessa busca pelo livro perdido. Pegue sua lupa, vista um bom casaco, e mãos à obra! E lembre-se: Érico irá recompensar com prêmios aqueles que o ajudarem.
Mas cuidado! Também existem aqueles que não terão piedade de um simples humano…
Para participar, o primeiro passo é seguir no Twitter os perfis @ed_infinitum e @giandanton e curtir as páginashttp://www.facebook.com/infinitumlibris e http://www.facebook.com/pages/Gian-Danton/210520048984627. Depois, é só aguardar a primeira pista, que será dada no Twitter, dia 26/11, às 14h.
Os cinco primeiros detetives que descobrirem a respostas ganharão como prêmio uma cópia do e-book Mundo Monstro, de Gian Danton, e uma edição da revista Quadrinize, além de marcadores de páginas exclusivos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

Entrevista com Anita Costa Prado


Anita Costa Prado é uma roteirista brasileira premiada. Ficou famosa no meio com uma personagem lésbica chamada Katita. Num mundo dominado por homens e heróis anabolizados trocando sopapos, ela mostra que as histórias em quadrinhos podem ser poéticos e que não há  limites para os assuntos tratados na nona arte. Conheça, na entrevista abaixo, um pouco dessa talentosa roteirista. 
1 - Como você começou a ler quadrinhos? O que você lia? 
Comecei a ler quadrinhos na infância. Lia gibis do Tio Patinhas, Chico Bento, Professor Pardal, o adorável Zé Carioca, etc. Na adolescência passei a ler também tiras de jornais.

2 - Quais são os roteiristas que te influenciaram? 
Não foram exatamente influências mas admirava vários roteiristas e desenhistas como Eugênio Colonnese e roteiristas de histórias infantis. O roteiro que mais me impactou foi de Art Spielgeman (MAUS), por ser real, aliado a grande idéia de desenhar os personagens como animais, de acordo com os grupos étnicos.
Sempre me encantei pelos roteiros curtíssimos das tiras de Jim Davis e o Gato Garfield, além das ótimas tiras nacionais.

3 - Como surgiu a Katita? Qual era a sua intenção com a criação da personagem? 
Por gostar de tiras e conhecer os personagens que saiam regularmente nos jornais, senti que uma personagem lésbica seria interessante, pela inexistência de tal enfoque. A intenção era mostrar o cotidiano de uma jovem lésbica, com bom humor e ironia, como forma de suavizar a abordagem de um tema polêmico e repleto de conceitos equivocados.

4 - Você já foi premiada duas vezes com o Angelo Agostini. Isso mostra que o seu trabalho está chamando atenção do meio. Isso demonstra também um maior respeito com relação à temática gay? Na verdade foram três premiações. Em 2006, como roteirista e melhor lançamento (Tiras Sem Preconceito), vinculados a Katita. No ano seguinte, recebi o terceiro prêmio, como melhor roteirista mas além dos roteiros da Katita havia feito também roteiros poéticos em quadrinhos. Maior respeito talvez não seja o termo mas maior visibilidade; ainda há um longo caminho para o respeito as individualidades sexuais.

5 - Existem outros personagens gays, inclusive super-heróis. O que você acha deles? 
Personagens gays criativos preenchem uma lacuna e mostram as variantes sexuais pois o mundo não se resume a heteros. Tenho um pé atrás com super-heróis, sejam gays ou não. Gosto de personagens próximos da realidade.
Heróis com super-poderes parecem refletir o quanto nos sentimos inferiores por sermos simplesmente humanos.

6 - Como é o seu processo de criação? Você escreve ou rafeia as histórias? Você muda o texto depois de desenhado? Pede para fazer mudanças no desenho? Faço quadros descrevendo detalhes do ambiente, diálogos e posição dos personagens. Posso recorrer a colagens de imagens para dar uma idéia do que quero ou desenho um esboço básico, quase primário. Felizmente o Ronaldo Mendes, meu desenhista mais assíduo, entende o que quero transmitir. Ele desenha a lápis e me passa via computador. Observo se está tudo ok, solicito alteração (caso necessário) e só então, ele finaliza.Em outras ocasiões fiz roteiros  escritos, tipo argumento, propiciando maior liberdade para o desenhista exercer a criatividade e montar o visual, de acordo com sua vontade. Não gosto de mudar o texto depois da arte finalizada; só em situações extremas, como corrigir uma falha ortográfica no balão, por exemplo.

7 - Eu sempre digo que um bom roteirista deve ler e ler muito. Por isso, eu peço para os meus entrevistados indicarem livros interessantes para os leitores do blog, muitos dos quais serão futuros roteiristas. 
Ler é essencial para desenvolver a mente, se familiarizar com as palavras, textos, pontuação, etc. Creio que o bom roteirista deve ser eclético em suas leituras; ao ler publicações sobre roteiros de quadrinhos, vai ter muita informação útil e específica.  Indico MAUS, citado anteriormente e seu livro (O Roteiro nas Histórias em Quadrinhos), além de publicações que tiveram alguma premiação ou indicação importante. Serve como avaliação. Ler a literatura tradicional também é interessante, como também livros que deram origens a filmes.
8 - Qual dica você daria para quem está começando agora como roteirista de quadrinho? 
Primeiro que preste atenção ao texto e diálogo produzido. Recebo material com tantos erros ortográficos nos diálogos que prejudicam a imagem, mesmo que seja boa e comprometem os desenhos. O roteirista trabalha com a idéia e com a palavra; tem que ter preparo básico. Estudo e leitura são primordiais. Outra questão importante é o roteirista ter em mente que seu trabalho  deve oferecer algo aos leitores e despertar interesse. Se o roteirista é também o desenhista, tem a vantagem de poder fazer tudo sozinho mas é bom ter uma opinião qualificada no decorrer do trabalho. Várias dicas externas são valiosas.

9 - Você usa uma mídia, os quadrinhos, que é vítima de muito preconceito,  para falar dos gays, que também são muito discriminados. Qual preconceito é maior? Quadrinhos com essa temática ajudam a diminuir o preconceito e, por outro lado, mostram que quadrinhos podem falar de qualquer coisa? 
A homossexualidade, sem dúvida, recebe maior carga de preconceito. Quadrinhos nem sempre são levados a sério e muitos encaram hq com arte menor, por desconhecimento. Recebi manifestações de pessoas que leram as publicações da Katita e constataram que quadrinhos podem ser veículo para questões adultas, profundas e também uma forma  de expressão artística.

10 - A personagem Katita já foi censurada alguma vez? 
Isso tem sido uma constante desde a criação (1995). Censura, exclusão, veto, solicitação de alterações na tira, comportamento da personagem e substituição de palavras nos balões. Sinceramente isso não me afeta, é um dos combustíveis para continuar. Tenho uma crítica pessoal em relação a personagem e algumas idéias são deixadas de lado por minha vontade já que não quero usar nada apelativo. Não preciso de censura externa, geralmente baseada em puritanismo tolo.Agora, se alguma observação é coerente, levo em consideração.



O livro Katita - tiras sem preconceito pode ser comprado no site da editora Marca de Fantasia. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Deus ex machina

Na Grécia antiga havia um recurso usado pelos maus roteiristas: quando não conseguiam resolver algo na trama, ou explicar o que estava acontecendo, um ator vestido de deus era baixado por um mecanismo  e resolvia a situação. Por exemplo: os personagens estão numa situação em que não há saída possível, o deus desce e os salva. Ou: há um furo monstruoso na trama, o deus descia e tentava explicar.
Isso era chamado de Deus ex machina e é uma falha grave de roteiro. 
Um exemplo clássico disso aconteceu em uma das edições da revista Calafrio. Havia um roteiro padrão na Calafrio, segundo o qual alguém muito mal era punido no final. Geralmente eram os mortos que voltavam do túmulo para se vingar. Mas nessa história, o vilão foi morto por um raio que atingiu seu carro. Só que, percebendo o furo, o roteirista colocou uma caveirinha no final, explicando: "Sim, eu sei que os pneus do carro criam um isolamento, protegendo as pessoas de raios, mas lembre-se: no mundo do terror, tudo é possível... hahahhahahahah".
Uma forma mais comum de deus ex machina é tirar a salvação dos heróis da manga. Tipo: eles estão sendo perseguidos e vão ser mortos pelos vilões. De repente aparece a polícia, do nada, e os salva.
Para evitar o deus ex machina, tudo na trama tem que ser amarrado. Em algum ponto lá atrás, alguém deveria ter chamado a polícia, mas, com o desenvolvimento da trama, o expectador esqueceu disso e só lembra na hora que vê a polícia chegando.
No filme Sinais, por exemplo, tínhamos uma menina com uma mania estranha: ela bebia água e deixava o resto em copos espalhados pela casa. No final, quando o ET invade a casa, há água por toda a casa, o que permite ao tio da menina usar isso para derrotá-lo (a água é como ácido para eles). Ou seja: o  roteirista pensou nesse final e providenciou uma explicação. Se os copos de água aparecessem do nada, o expectador iria dizer: ah, isso é mentira, e o pacto de verossimilhança seria destruído junto com os copos de água.

O pacto de verossimilhança pressupõe uma troca com o expectador: você acredita na minha história, em troca eu sou honesto com você. Vou, por exemplo, avisá-lo de quem é o assassino numa história policial (claro que essa pista é jogada no meio de outros fatos, e a tendência é esquecer, mas, quando vê o final, o expectador pensa: ah, mas era óbvio, como eu não percebi isso antes?).
O filme Sexto sentido é um exemplo disso: no final, quando descobrimos o que realmente aconteceu com o psicólogo, pensamos: caramba, era óbvio, porque não pensei nisso?
O filme Testemunha de acusação brinca com essa  situação: de repente aparece uma mulher, do nada, com provas que inocentam o acusado. Parece um deus ex machina, usado apenas para livrar a cara do personagem. Mas depois isso se revela parte de uma trama maior, que já estava sendo exposta ao expectador.

sábado, 20 de agosto de 2011

Curso on-line de mangá

As inscrições para o Curso Mangá On-line da UNIFOR-Universidade de Fortaleza vão até 31 de agosto. O Conteúdo mediado pelo cartunista JJ Marreiro abordará desenho, arte-final, narrativa e história do mangá, intercalando momentos teóricos e práticos por meio de diversos recursos das tecnologias digitais. O aluno pode fazer o curso sem sair de casa (em qualquer lugar do país) e acompanhar as aulas nos horários que escolher.
A implementação do curso à cargo do Núcleo de Educação a Distância da Unifor, envolveu uma equipe de cerca de 30 profissionais entre pedagogos, designers, ilustradores e programadores.
O quadrinho japonês situa-se hoje no contexto da velocidade da informação do mundo moderno influenciando moda, comportamento, design e comunicação. Ao trazer aspectos da cultura japonesa para o ocidente, o estudo do Mangá propõe ampliar a compreensão sobre a arte sequencial em diversos aspectos e possibilidades.

INFORMAÇÕES:
(085) 3477-3479
e-mail: nead@unifor.br
www.unifor.br/nead
link direto: http://migre.me/5wrnU
Matrículas até 31 de agosto
Duração do curso 2 meses.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Análise da história Castelos de areia

A revista Kripta foi uma das melhores já lançadas no Brasil. Lançada pela RGE na década de 1970, ela reformulou a forma como se via o terror e fantasia até então. Antes dela, a principal referência eram as ótimas, mas já defasadas, histórias da EC Comics. Embora a revista origina (Eerie)l tenha surgido nos EUA imitando as histórias da EC, logo ela encontraria o seu próprio caminho ao publicar trabalhos mais autorais. O auge foi quando entraram os artistas espanhois e filipinos. As histórias inclusive se tornaram mais filosóficas e texto e desenho alcançaram um nível poucas vezes igualado nos quadrinhos.
Exemplo disso é a história Castelos de Areia, de Gerry Boubreau e José Ortiz (publicada na Kripta especial 1), que analiso abaixo.
Em tempo: essas histórias estão sendo relançadas em álbuns pela editora Mithos.
Castelos de areia é uma típica narrativa paralela. Nessa primeira página acompanhamos o primeiro nível dessa narrativa. Uma mulher foge para dentro de uma caverna. O texto está em terceira pessoa e tem como objetivo criar a sensação de terror, medo, angústia. Reparem nas metáforas: O túnel é frio como o útero de uma mãe morta, as paredes são enrugadas como as de um velho índio. A referência a ratos e vermes tem o mesmo objetivo. Trata-se aqui de um texto de ambientação, cuja função é colocar o leitor dentro da história, situá-lo tanto geográficamente quanto em nível de percepção que se espera dele. Nessa mesma página conhecemos um pouco mais sobre a personagem que corre e suas motivações: Ela é uma crente e está indo para o lugar onde se escondem os últimos crentes.
Nessa segunda página chegamos ao segundo nível da narrativa, agora num mundo que aparentemente é espiritual. Uma figura que logo descobriremos ser Deus constroi castelos de areia na praia enquanto a narrativa conta um pouco de sua história. É também uma narrativa de ambientação, que avisa o leitor que o cenário mudou. Estamos agora nos domínios da fábula ou da metáfora. Como a própria narrativa é metafórica (percebemos que Deus tem vários rostos e que morre a cada vez que morre um crente), o texto evita as metáforas, sendo mais objetivo.

Essa terceira página, intitulada "Lição rápida de história antiga" tem exatamente esse objetivo: situar historicamente o leitor, explicando como e porque começou a perseguição aos crentes. O leitor poderia ter começado por aí, já que esse é o ponto cronologicamente mais antigo, mas optou por um flash back para tornar a história menos linear. Uma estratégia interessante foi colocar o singular no meio do universal: no meio da narrativa mais geral, é contada  a história da jornalista que acusa o guarda de segurança. Essa é uma tática muito usada por Alan Moore, em Monstro do Pântano por exemplo, e ajuda o leitor a entender melhor os fatos mostrados.  Apenas com esse quadro sabemos que o nível de paranoia chegou a tal ponto que qualquer acusação poderia levar uma pessoa à morte. Aliás, um curioso paralelo com a inquisição espanhola.

Voltamos para a narrativa da caverna da crente Marti. Destaque agora para o aprofundamento de relações entre Marti e Loz. O desenho ajuda muito nesse sentido. Quando o texto fala dos sentimentos de Marti, ela está em primeiro plano e Loz em segundo. Quando descobrimos os sentimentos de Loz, ele está em primeiro plano e Marti em segundo plano. Detalhes como o fato de Loz gostar de fazer amor ao ar livre dão mais verossimilhança à trama e são um ponto a mais para que o leitor acredite na história.

Chegamos a mais um nível de narrativa (até agora já são 4 narrativas paralelas). Agora acompanhamos os policiais que irão exterminar os crentes. O texto fala sobre os personagens traidores diferenciando-os em termos de personalidade. Bosco trai os crentes por dinheiro, Reutman por ambições políticas. Interessante a metáfora no último quadrinho: as pegadas de Reutman são como pústulas na neve virgem. Como os quadrinhos são a arte da síntese, a boa escolha de palavras, de forte impacto, é de importância fundamental.
Voltamos para o nível de narrativa do planeta de deus, chamado na história de Janus Kah. Interessante que o texto procura  explorar o lado humano de Deus. Na mesma página, temos a quinta narrativa, sobre o presidente e a ironia aí é que o Presidente é mostrado como menos humano do que Deus. Mais uma ironia: a morte do último teísta pode ser o fim do Presidente. 

No primeiro quadro o texto repete duas vezes a palavra "leite": "A polícia se espalhou como leite derramado e Reutman parecia leite...". Não sei se foi erro de tradução, já que o roteirista até então havia sido bastante cuidadoso com o uso de palavras. Usar leite duas vezes como metáfora parece ser o ponto mais fraco da história. Em compensação, no quarto quadrinho, um texto bastante criativo: "Mais tarde, Marti estava rezando e Reutman atirou a faca. A prece e a lâmina ficaram em sua garganta". No final, a narrativa volta para o Presidente, agora apreensivo e torcendo para que pelo menos dois crentes escapem.

Última página da história. Com a morte da última crente, morre a última face de Deus. Interessante que a posição de Marti é parecida com a de Janus Kah para deixar bem clara essa relação. No último quadro, mais uma metáfora interessante: "Tudo que resta da passagem de Deus é a marca de sua mão. Terminados os castelos, o mar olha para ela, sofregamente". Castelos de areia é uma metáfora conhecida de sonhos (Fulano vive fazendo castelos de areia) e essa relação fica bem clara nesse último quadro. No trecho "O mar olha para ela..." temos a personificação, uma figura de estilo em que coisas ganham sentimentos ou características humanas e mostra o domínio que o roteirista tem da uso da linguagem.
Domínio da linguagem e domínio da narrativa: Gerry Boubreau transformou uma história simples sobre uma perseguição em uma trama interessante, complexa, pela alternância de pontos de vista e narrativas. E fez isso sem prejudicar a compreensão da história.

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